TERAPIA GENÉTICA

Como a terapia CAR-T ampliou a sobrevida de Sam Neill

Tratamento inovador contra cânceres do sangue ajudou o ator a alcançar a remissão após o diagnóstico de linfoma não Hodgkin

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O diagnóstico de linfoma não Hodgkin do ator Sam Neill, de 78 anos, mundialmente conhecido por interpretar Alan Grant em Jurassic Park, voltou ao centro das atenções após sua morte. Meses antes, o ator havia comemorado estar em remissão da doença e chegou a escrever que estava "livre do câncer". A informação foi reforçada por familiares ao anunciarem sua morte, esclarecendo que ela não foi causada por uma recidiva do câncer. A causa do óbito, no entanto, ainda não foi divulgada.

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A sobrevida do ator após o diagnóstico foi atribuída à terapia genética que reprograma o próprio sistema imunológico para combater o câncer: a CAR-T.

O que é a terapia CAR-T?

A terapia CAR-T Cell é uma das principais inovações da oncologia nas últimas décadas para o tratamento de cânceres do sangue, como leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. Diferentemente da quimioterapia, que atua de forma mais ampla sobre as células do organismo, a CAR-T utiliza as próprias células de defesa do paciente — os linfócitos T —, modificadas geneticamente em laboratório para reconhecer e destruir especificamente as células tumorais.

O hematologista Renato Cunha, líder nacional de Terapia Celular da Oncoclínicas, explica a lógica do tratamento e o que o diferencia das abordagens tradicionais. "São drogas vivas, chamadas de terapia celular, que aprimoram o sistema de defesa do paciente para que ele promova a cura por meio da destruição das células do câncer. O CAR-T trabalha de forma personalizada, guiado para tratar aquela célula, aquele câncer, aquela mutação, e não de maneira geral em todo o corpo."

O tratamento começa com a coleta de sangue do paciente por meio de um procedimento chamado aférese, semelhante à hemodiálise. A partir dessa coleta, os linfócitos T são isolados e enviados para um laboratório especializado, onde recebem, por meio de um vetor viral modificado, instruções genéticas para produzir um receptor artificial capaz de reconhecer o antígeno específico daquele câncer.

Depois disso, essas células reprogramadas são multiplicadas em laboratório e reinfundidas no paciente, formando uma verdadeira "tropa de elite" treinada para localizar e eliminar as células tumorais. Foi esse tipo de terapia que Sam Neill recebeu quando a quimioterapia deixou de apresentar resposta satisfatória em seu tratamento.

Como está o cenário da terapia CAR-T no Brasil?

Nos Estados Unidos, o primeiro tratamento com CAR-T foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) em 2017. Desde então, mais de 20 mil pacientes já receberam a terapia. No Brasil, o primeiro tratamento experimental foi realizado em 2019. Já a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou os primeiros medicamentos da categoria para uso no país em 2022.

O acesso, porém, ainda enfrenta desafios relacionados à infraestrutura e à capacidade de produção. Nesse cenário, iniciativas nacionais têm avançado. Um estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Hemocentro de Ribeirão Preto e o Instituto Butantan, testa uma versão brasileira da terapia para pacientes com linfoma não Hodgkin. Os resultados preliminares apontam taxa de resposta de 87,5% entre os pacientes tratados.

Para Renato Cunha, projetos como esse podem transformar o futuro do tratamento no país. "A produção nacional é um divisor de águas. Não se trata apenas de custo, mas também de soberania terapêutica. Um Brasil capaz de fabricar CAR-T localmente pode se tornar um hub regional, beneficiando outros países da América Latina que hoje não têm acesso a essa tecnologia."

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Apesar do potencial da terapia, o especialista ressalta que ainda há desafios importantes para ampliar sua disponibilidade. A produção em larga escala das células modificadas continua sendo um dos principais gargalos, enquanto o alto custo do tratamento — que pode chegar a milhões de reais por paciente — ainda restringe o acesso a um número reduzido de pessoas. "Falta capacidade para produzir rapidamente grandes quantidades de células. Precisamos de novas tecnologias para ampliar esse processamento."

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