QUANDO A ESPERA VIRA TRAVESSIA

Mineira transforma o luto pela filha em livro sobre reconstrução

Em Esperar Nunca Fez Tanto Sentido, autora revisita a própria história após a perda da filha e mostra como o luto também pode abrir caminhos de amor e cura

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Houve um momento na vida de Mari Pompeu em que esperar deixou de ser um verbo passivo. Não era a espera de quem aguarda uma notícia qualquer, nem a ansiedade comum da gestação. Era uma espera que não cabia em uma única palavra. Enquanto carregava no ventre a filha Juliana, Mari acompanhava o tratamento de Gabriela, sua primogênita, então com 2 anos e 4 meses, diagnosticada com um tumor cerebral. De um lado, uma vida começava. Do outro, outra se despedia.

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Foi desse intervalo delicado, em que alegria e dor caminharam lado a lado, que nasceu "Esperar Nunca Fez Tanto Sentido". O livro entrou em pré-venda no início de junho pela Actual, selo do Grupo Editorial Alta Books, e já tem lançamento presencial previsto em Belo Horizonte.

A obra, assinada pela cirurgiã-dentista e escritora Mari Pompeu, vai além de um relato autobiográfico. É um convite ao acolhimento, à escuta e à ressignificação. Em pouco mais de 100 páginas, a autora transforma uma experiência marcada pela maternidade, pelo luto, pela fé e pela reconstrução em uma narrativa que se aproxima do leitor como quem oferece companhia em silêncio.

Segundo Mari, o livro fala sobre a morte, mas se recusa a colocá-la no centro da história. O foco está na travessia da vida, na permanência do amor, nos pequenos milagres cotidianos e na possibilidade de seguir em frente mesmo quando a perda transforma tudo.

“Eu costumo dizer que precisei esperar entre a vida e a morte ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo em que eu me alegrava por uma nova vida chegando, eu precisava me despedir da minha primeira filha. Isso não é algo que se explica com facilidade. É uma montanha-russa de sentimentos. Mas eu entendi que essa história não podia ser só minha. Havia algo nela que precisava alcançar outras pessoas”, afirma Mari.

A menina que ensinou a casa a nascer de novo antes da partida

A história que sustenta o livro começou em 2016, com o nascimento de Gabriela, a Gabi, descrita pela mãe como uma menina de olhos vivos, cabelos pretos e "pura graça". Dois anos depois, em 2018, a família vivia um período de expansão. Mari e o marido, Eduardo, haviam se mudado para um novo apartamento, planejavam o futuro e comemoravam uma nova gestação. Em setembro daquele ano, porém, pequenos sinais no corpo de Gabi levaram a família ao hospital. A criança, que até então apresentava desenvolvimento considerado normal, recebeu o diagnóstico de tumor cerebral.

A partir dali, a casa nova, os planos e a expectativa pela chegada do bebê deram lugar a uma rotina de exames, internações, radioterapia, quimioterapia, decisões médicas difíceis e convivência diária com a imprevisibilidade. Durante nove meses, Mari viveu a gestação de Juliana enquanto acompanhava o tratamento da filha mais velha. Em 26 de março de 2019, Juju nasceu. Quatro dias depois, Gabi morreu.

Mari descreve esse momento como um "encontro de almas". Em sua narrativa, não há tentativa de suavizar a perda, mas sim de reconhecer os sinais que permaneceram. Para ela, Gabi esperou a irmã chegar. “Nesse encontro tão breve, a família recebeu uma espécie de confirmação íntima de que aquela história não terminaria no hospital, nem ficaria guardada apenas na memória doméstica", comenta.

Um livro sobre morte que insiste em falar de vida

Antes de se tornar livro, a história permaneceu em silêncio por muito tempo. Mari manteve o perfil no Instagram fechado durante anos e demorou até se sentir preparada para compartilhar publicamente o que viveu. A primeira tentativa de escrever resultou em apenas duas páginas. Reviver o passado parecia doloroso demais. Em 2024, no entanto, algo mudou. Ela retomou o projeto em janeiro e escreveu toda a obra em apenas 22 dias, movida por uma urgência que define como espiritual e afetiva.

A edição independente foi lançada em 30 de março de 2024, um sábado de Aleluia, no Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte, com auditório lotado. Agora, publicada por uma editora, a obra ganha distribuição nacional. “Eu sempre acreditei que esse livro não seria lido apenas pela história, mas pela emoção que ele desperta. Não tem como entrar nessa narrativa e não se perguntar sobre a própria vida, sobre o tempo, sobre o que realmente importa. É um livro que fala sobre morte, talvez. Mas ele é muito mais sobre vida do que sobre morte”, diz a autora.

O título "Esperar Nunca Fez Tanto Sentido" reúne dois significados. Refere-se à espera por exames, diagnósticos, respostas, um nascimento e um desfecho. Mas também aborda a espera como experiência humana, diante daquilo que não pode ser controlado. Para Mari, esperar não significa ficar parado, mas aprender a viver enquanto as respostas ainda não chegam.

“Eu espero que as pessoas sintam as emoções que permeiam o livro e consigam olhar para a vida com mais leveza. Que entendam o significado do passado, o verdadeiro sentido da fé e a importância de viver o presente. Muitas vezes eu mesma preciso revisitar essa história para lembrar que toda espera tem um significado e que nós não temos controle do tempo. Esse livro é um resgate do valor que devemos dar ao que pulsa agora”, afirma. 

A fé como travessia, não como resposta pronta

Em "Esperar Nunca Fez Tanto Sentido", a fé não aparece como uma frase pronta nem como solução simples para uma dor complexa. Surge como espaço de confronto, dúvida, entrega e reconstrução. Mari conta que, no início da trajetória, ouviu do obstetra que sua fé seria colocada à prova. Naquele momento, ainda não compreendia o alcance daquelas palavras.

Ao longo do tratamento de Gabi, da chegada de Juju, do luto e de outras perdas que vieram depois, ela passou a enxergar a fé como a capacidade de sustentar o amor diante do invisível. Uma fé menos ligada ao controle e mais próxima da confiança. Segundo a autora, uma fé menos preocupada em explicar tudo e mais comprometida em manter a alma desperta.

“Fé, para mim, é acreditar no invisível, naquilo que não é palpável. É como olhar para uma montanha e saber que existe algo por trás dela, mesmo sem conseguir ver. Em muitos momentos eu questionei, eu me perguntei por que comigo, por que com a nossa família. Hoje entendo que a fé não elimina a dor, mas ajuda a atravessá-la sem perder o amor pela vida”, diz Mari.

A escrita também é atravessada por símbolos. A natureza, os pássaros, a brisa, a luz, a imagem de Nossa Senhora das Graças e o origami tsuru aparecem como elementos de uma espiritualidade sensível aos sinais. O tsuru, ave de papel associada à paz, à cura e à longevidade na cultura japonesa, tornou-se uma extensão da mensagem do livro.

Mari conta que utiliza a dobradura em vivências e palestras como metáfora da ressignificação. “O gesto de dobrar o papel, vinco por vinco, até que dele surja uma forma nova, traduz bem o coração da obra. A dor não desaparece, mas pode ganhar outra configuração", afirma.

Da dor privada ao desejo de acolher outras famílias

A trajetória de Mari e Eduardo não terminou com a publicação do livro. Depois da morte de Gabi, a família enfrentou novos desafios. Juliana, ainda pequena, apresentou um desenvolvimento diferente e foi encaminhada para avaliação de autismo. A descoberta levou o casal a uma nova jornada de aprendizado, cuidado e mobilização. A experiência aproximou a família da Casa CAPE, instituição de BH voltada ao acolhimento de crianças e familiares em tratamento contra o câncer infantojuvenil e doenças raras.

Mari, cirurgiã-dentista de formação e gestora pública em saúde há mais de uma década, conhece de perto as dificuldades enfrentadas por famílias que precisam de terapias, acompanhamento especializado, medicação e orientação. Eduardo, advogado e professor, também passou a atuar diretamente na iniciativa. Hoje, o casal participa da estruturação da Casa CAPE Autismo, projeto voltado ao acolhimento e apoio de famílias de crianças autistas.

“Quando o autismo entrou na nossa vida, ele nos ensinou que nem tudo é o que parece. Existe uma maneira de ver a vida por outro ângulo. A Juju nos mostra todos os dias que comunicar-se vai muito além da fala e que o amor também existe quando não é verbalizado. Como família, nós temos acesso a terapias, médicos e acompanhamento, mas sabemos que muitas pessoas não têm. Isso nos convoca a fazer algo”, afirma Mari. 

A autora rejeita qualquer romantização da dor. Seu discurso não transforma o sofrimento em espetáculo nem reduz experiências profundas a mensagens de otimismo simplistas. O caminho que propõe é outro: reconhecer a perda, dar nome à ausência, cuidar do luto e, ainda assim, escolher viver.

“Eu entendi que não precisava morrer junto com ninguém. Eu passei pela dor, mas não fiquei nela. Não há nada mais precioso do que a vida. Eu amo viver, eu amo cuidar de mim, estudar, correr atrás dos meus sonhos. A morte me trouxe vida, no sentido mais profundo que essa frase pode ter. Ela me ensinou o valor de estar aqui”, diz.

Narrativa que pretende ser um abraço

O livro chega ao mercado em um momento em que temas como luto, saúde emocional, maternidade real, espiritualidade e redes de apoio ocupam cada vez mais espaço no debate público. A diferença, no caso de Mari, está na experiência vivida. Ela escreve de dentro da própria história, revisitando as próprias feridas para oferecer acolhimento a quem enfrenta noites semelhantes.

A autora acredita que "Esperar Nunca Fez Tanto Sentido" é um livro para ser relido em diferentes fases da vida, conforme mudam as perdas, as esperas e os recomeços. Se alguns livros são lidos apenas uma vez, ela espera que o seu permaneça por perto. “Eu acredito que quem ler agora e revisitar daqui a cinco ou dez anos encontrará outros ensinamentos. A vida muda, a nossa dor muda, a nossa forma de compreender o tempo muda. Meu maior desejo é que esse livro seja verdadeiro para quem o encontrar. Que ele ajude as pessoas a se lembrarem do essencial”, afirma. 

Ao longo das páginas, o livro conversa com famílias que enfrentam o ninho vazio, mães que convivem com o medo da perda, pessoas que tentam reorganizar a vida após uma ausência e leitores que buscam a fé sem negar a fragilidade humana. Mas, segundo Mari, a obra também é destinada a qualquer pessoa que, em algum momento, precisou esperar sem saber o que viria depois.

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“Quis escrever sobre o que pode nascer quando uma vida é atravessada por aquilo que ninguém escolheria viver. O livro não promete curar o leitor, mas oferece algo mais delicado e talvez mais raro, que é uma presença, um convite para respirar. Quero transmitir que a vida, mesmo ferida, ainda pode ser abundante.”

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