JULHO ROXO

Câncer de bexiga: entidades lançam diretriz que atualiza tratamento

Doença que atinge mais de 13 mil pessoas por ano no país e mata 14 pessoas por dia; documento amplia opções e reforça estratégias para evitar recidivas

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Em alusão ao Julho Roxo, mês de conscientização sobre o câncer de bexiga, seis das principais entidades brasileiras ligadas ao diagnóstico, tratamento e defesa dos pacientes com câncer anunciam o lançamento das primeiras Diretrizes Brasileiras Conjuntas para o Tratamento do Câncer de Bexiga 2026, um documento que consolida recomendações atualizadas e consensuais para o manejo da doença em todo o país. A diretiva visa dar clareza aos tratamentos disponíveis em cada sistema de saúde, público e privado.

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A iniciativa reúne especialistas da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), Cabem mais vidas (projeto de atendimento multiprofissional a pacientes de câncer de bexiga localizado no Centro Universitário da FMABC) e Instituto Oncoguia, que trabalharam conjuntamente na elaboração das recomendações. O documento incorpora evidências científicas mais recentes e traz mudanças importantes para o diagnóstico, o acompanhamento e o tratamento da doença.

A atualização ocorre em um momento de atenção crescente para a doença. Segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar 13.110 novos casos de câncer de bexiga este ano.

"O câncer de bexiga é uma doença frequentemente subdiagnosticada e que exige abordagem multidisciplinar. Esta diretriz representa um marco por reunir especialistas de diferentes áreas em torno de recomendações baseadas em evidências e adaptadas à realidade brasileira", afirma Roni Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

Combate mais efetivo a reincidências

Entre as principais novidades está o reforço de medidas que podem reduzir significativamente o risco de o tumor voltar após o tratamento inicial. Uma delas é a recomendação mais enfática para que determinados pacientes sejam submetidos a uma segunda avaliação cirúrgica poucas semanas após a primeira retirada do tumor.

Outra é a aplicação de quimioterapia diretamente na bexiga nas primeiras 24 horas após a cirurgia, estratégia que reduz em cerca de 35% o risco de recorrência em pacientes selecionados.

Segundo o coordenador do Departamento de Uro-oncologia da SBU e fundador da Cabem mais vidas, Fernando Korkes, essas recomendações refletem evidências já consolidadas, mas que ainda precisam ser mais amplamente incorporadas à prática clínica. “Sabemos que uma parcela importante dos pacientes pode apresentar doença residual após a primeira cirurgia. Por isso, a reavaliação cirúrgica em casos selecionados passa a receber ainda mais destaque.”

Para evitar a recorrência da doença, a diretriz recomenda a vacina de BCG intravesical. “A terapia com BCG permanece como a principal forma de evitar a recorrência do câncer de bexiga não-músculo invasivo, recomendada para situações de risco intermediário e alto. Em situações de muito alto risco a cistectomia radical deve ser considerada, e em algumas situações outros tratamentos podem ser considerados, incluindo quimioterapia intravesical, BCG associado a imunoterapia sistêmica ou imunoterapia sistêmica isolada”, complementa Fernando.

Outro avanço importante é a criação de uma estratégia mais clara para classificar os pacientes conforme o risco de progressão da doença. A partir dessa avaliação, os médicos conseguem definir de forma mais precisa quais pacientes podem ser acompanhados de forma mais conservadora e quais precisam de tratamentos mais intensivos.

Para a Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), essa mudança reforça a importância de diagnósticos cada vez mais detalhados e padronizados. “O patologista ocupa uma posição central na jornada do paciente com câncer de bexiga. É a partir do laudo anatomopatológico que são definidos fatores prognósticos essenciais para a estratificação de risco e para a seleção do tratamento mais apropriado", afirma Isabela Werneck da Cunha, patologista e membro da SBP.

“A adoção de critérios diagnósticos padronizados, conforme as novas diretrizes, aumenta a reprodutibilidade dos laudos, fortalece a integração multidisciplinar e contribui para que cada paciente receba uma conduta baseada nas melhores evidências disponíveis", complementa.

Imunoterapia e terapia-alvo

A nova diretriz também acompanha a chegada de novas imunoterapias e terapias-alvo para o tratamento do câncer de bexiga. O documento passa a incorporar evidências recentes que ampliam as opções para pacientes com tumores mais agressivos ou em estágios avançados, incluindo recomendações para tratamentos antes e depois da cirurgia.

Outro diferencial é o olhar ampliado para toda a jornada do paciente. As diretrizes dedicam uma seção específica à experiência do paciente, defendendo estratégias de navegação que ajudem a reduzir atrasos no diagnóstico, facilitar o entendimento do tratamento e melhorar a adesão ao acompanhamento médico.

Para o Instituto Oncoguia, essa é uma evolução importante porque muitos pacientes ainda enfrentam dificuldades para chegar rapidamente ao diagnóstico e iniciar o tratamento.

“Quando diferentes especialidades e representantes dos pacientes constroem uma diretriz juntos, estamos dizendo algo muito importante: o cuidado de qualidade não acontece de forma isolada. Essa atualização reforça que o tratamento do câncer de bexiga precisa ser pensado de forma integrada, com decisões compartilhadas, atuação multiprofissional e suporte ao paciente ao longo de toda a jornada. Porque o que está escrito na diretriz precisa, de fato, chegar à vida das pessoas.”, afirma Luciana Holtz, presidente do Oncoguia.

A diretriz também reforça que o tratamento do câncer de bexiga deve ser conduzido por equipes multidisciplinares. Além de urologistas e oncologistas clínicos, especialistas em radioterapia participam cada vez mais das decisões terapêuticas, especialmente em estratégias que permitem preservar a bexiga em pacientes selecionados.

No contexto da radioterapia, essas diretrizes são relevantes para definir critérios de indicação, esquemas de tratamento, associação com quimioterapia, técnicas modernas de planejamento e acompanhamento da resposta terapêutica. A abordagem multidisciplinar possibilita oferecer uma alternativa com potencial curativo à cistectomia em pacientes selecionados, preservando a bexiga, mantendo a qualidade de vida e a função urinária, sem comprometer os desfechos oncológicos quando aplicada de forma criteriosa.

De acordo com o radio-oncologista Wilson José de Almeida Jr, presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), diretrizes construídas de forma colaborativa fortalecem a prática clínica, reduzem a variabilidade no tratamento e promovem um atendimento mais seguro, eficiente e alinhado às melhores evidências científicas disponíveis.

Fatores de risco

O tabagismo continua sendo o principal fator de risco para o câncer de bexiga, sendo responsável por grande parte dos casos diagnosticados. Outros fatores associados ao desenvolvimento da doença incluem:

  • Exposição ocupacional a substâncias químicas, como aminas aromáticas utilizadas em indústrias químicas, têxteis, de tintas, couro e borracha;
  • Exposição prolongada a derivados de petróleo
  • Histórico de radioterapia pélvica
  • Uso prolongado de alguns medicamentos específicos
  • Idade avançada
  • Histórico familiar e algumas síndromes genéticas hereditárias

As novas diretrizes reforçam, inclusive, a importância da cessação do tabagismo como parte integrante do cuidado ao paciente.

Sinais de alerta

O principal sintoma do câncer de bexiga é a presença de sangue na urina (hematúria), geralmente sem dor. Outros sinais que merecem investigação incluem:

  • Aumento da frequência urinária
  • Ardência ou dor ao urinar
  • Urgência urinária
  • Dor pélvica ou lombar em estágios mais avançados

O presidente da SBU alerta que qualquer episódio de sangue na urina deve motivar avaliação médica, principalmente em fumantes e pessoas acima dos 50 anos. “Esse tipo de sintoma não pode ser minimizado. O diagnóstico precoce salva vidas”, pontua.

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De 2021 a 2025, a média de mortes por câncer de bexiga foi de 14 pessoas por dia, de acordo com o Sistema de Informações de Mortalidade, do Ministério da Saúde.

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