Câncer terminal: a importância da telemedicina no fim da vida
Pesquisa brasileira associa acompanhamento remoto em cuidados paliativos a menos admissões hospitalares e menor uso de UTI no período final da doença
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A incorporação da telemedicina aos cuidados paliativos oncológicos pode ajudar a reduzir internações hospitalares, admissões em unidades de terapia intensiva e intervenções consideradas agressivas ou pouco benéficas no fim da vida de pacientes com câncer avançado. É o que mostra um estudo brasileiro apresentado no congresso mundial de oncologia ASCO 2026, realizado entre 29 de maio e 2 de junho, em Chicago, nos Estados Unidos.
A pesquisa retrospectiva avaliou 116 pacientes oncológicos em cuidados paliativos que realizaram consultas por telemedicina nos últimos 30 dias de vida. Os resultados mostraram associação entre o acompanhamento remoto e menores taxas de hospitalização, internação em UTI e utilização de tratamentos modificadores de doença considerados fúteis no contexto de terminalidade.
“Na oncologia moderna, um dos principais indicadores de qualidade em cuidados paliativos é justamente evitar que o paciente passe os últimos dias de vida no hospital, especialmente em terapia intensiva, submetido a intervenções que não modificam o curso da doença e podem aumentar sofrimento físico e emocional”, afirma Igor Morbeck, oncologista da Oncoclínicas e um dos pesquisadores envolvidos no estudo.
Segundo ele, o objetivo dos cuidados paliativos não é apenas controlar sintomas, mas também preservar dignidade, autonomia e qualidade de vida no período final da trajetória da doença. “O que observamos é que a telemedicina pode funcionar como uma ferramenta importante para ampliar suporte, orientar famílias e favorecer um cuidado mais humanizado e centrado no paciente, muitas vezes dentro do próprio ambiente domiciliar”, explica.
Cuidados paliativos ganham espaço
Historicamente associados apenas aos momentos finais da vida, os cuidados paliativos vêm passando por uma transformação importante dentro da oncologia. Hoje, diretrizes internacionais recomendam que esse acompanhamento seja integrado mais precocemente ao tratamento de pacientes com câncer avançado, com foco não apenas no controle de sintomas físicos, mas também no suporte emocional, social e familiar.
Nas últimas décadas, estudos demonstraram que a integração precoce dos cuidados paliativos pode melhorar a qualidade de vida, reduzir o sofrimento psicológico, diminuir intervenções desnecessárias e até impactar positivamente alguns desfechos clínicos.
Nesse cenário, a discussão sobre o local onde o paciente recebe assistência também ganhou relevância. Em muitos países, morrer em ambiente hospitalar, especialmente em unidades de terapia intensiva, passou a ser considerado um indicador indireto de cuidado excessivamente medicalizado no fim da vida.
“Nem sempre prolongar intervenções significa prolongar qualidade de vida”, afirma Alexandra Arantes, paliativista da Oncoclínicas e autora responsável pela apresentação do estudo na ASCO. “Grande parte dos pacientes deseja permanecer ao lado da família, em um ambiente conhecido, com conforto e controle adequado de sintomas. O desafio é oferecer estrutura para que isso aconteça com segurança.”
Segundo a especialista, a telemedicina surge como uma ferramenta capaz de ampliar acesso a equipes especializadas, principalmente em momentos de maior fragilidade clínica.
Telemedicina amplia acompanhamento e reduz deslocamentos
Embora o uso da telemedicina tenha se expandido de forma acelerada durante a pandemia de COVID-19, sua incorporação aos cuidados oncológicos permanece em evolução, especialmente em áreas que exigem acompanhamento frequente e suporte multidisciplinar.
Pacientes em cuidados paliativos frequentemente enfrentam limitações físicas importantes, dores, fadiga intensa e dificuldade de locomoção, o que pode transformar deslocamentos hospitalares em experiências desgastantes tanto para os pacientes quanto para seus familiares.
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“O acompanhamento remoto permite monitorar sintomas, ajustar medicações, orientar cuidadores e apoiar decisões importantes sem que o paciente precise sair de casa constantemente”, explica a autora sênior Sarah Ananda, oncologista da Oncoclínicas com atuação em cuidados paliativos. “Além do impacto assistencial, isso também reduz o desgaste emocional e físico em uma fase particularmente delicada da doença.”
Segundo os pesquisadores, os resultados do estudo sugerem que a telemedicina pode ajudar a reduzir internações evitáveis e intervenções agressivas sem comprometer a qualidade do acompanhamento clínico.
A discussão ganha relevância em um momento em que diferentes sistemas de saúde buscam modelos mais sustentáveis e centrados no paciente, especialmente diante do envelhecimento populacional e do aumento da incidência de doenças crônicas e oncológicas avançadas.
Fim da vida menos medicalizado se torna discussão global
Nos últimos anos, sociedades médicas internacionais passaram a discutir de forma mais ampla o conceito de “fim de vida de qualidade” dentro da oncologia. Isso inclui temas como planejamento antecipado de cuidados, alinhamento de expectativas terapêuticas e redução de procedimentos invasivos sem benefício clínico relevante.
Estudos internacionais mostram que uma parcela significativa de pacientes com câncer avançado ainda recebe tratamentos agressivos nas últimas semanas de vida, incluindo internações em UTI, quimioterapia em fase terminal e procedimentos invasivos que pouco alteram o desfecho da doença.
Para especialistas, parte desse cenário está relacionada à dificuldade de comunicação sobre prognóstico, à ausência de acompanhamento paliativo estruturado e ao entendimento equivocado de que cuidados paliativos representam “desistência” do tratamento.
“O cuidado paliativo não significa abandonar terapias, mas sim garantir que as decisões estejam alinhadas às necessidades e prioridades reais daquele paciente”, afirma Alexandra Arantes. “Muitas vezes, o melhor cuidado possível envolve conforto, presença familiar e qualidade de vida, e não necessariamente mais intervenções hospitalares.”
Segundo Igor, os dados apresentados na ASCO reforçam uma transformação importante dentro da oncologia contemporânea, na qual indicadores de qualidade assistencial passam a incluir não apenas sobrevida, mas também experiência do paciente ao longo da doença.
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“Mais do que discutir tecnologia, estamos falando sobre como oferecer um cuidado mais digno, individualizado e humanizado”, afirma. “A telemedicina não substitui o atendimento presencial quando ele é necessário, mas pode ampliar suporte, facilitar acesso e ajudar pacientes e famílias a atravessarem esse período com menos sofrimento e maior acolhimento.”