Nos últimos anos, os peptídeos deixaram de ser um termo restrito aos laboratórios para se tornarem protagonistas no universo da dermatologia e da estética. Impulsionados por lançamentos da indústria dermocosmética, avanços na biotecnologia e pela viralização de rotinas de skincare nas redes sociais, eles passaram a ser apontados como uma nova fronteira no combate ao envelhecimento da pele.

Mas, junto com o crescimento do interesse, surgem também dúvidas e riscos. Para esclarecer o que é fato, tendência ou exagero, a dermatologista Carla Vidal explica o papel dos peptídeos, seus usos na medicina e os cuidados necessários antes de aderir a qualquer tratamento.

Segundo Carla, interesse crescente pelos peptídeos está diretamente ligado à evolução da ciência cosmética. Com a possibilidade de desenvolver moléculas mais estáveis e capazes de penetrar melhor na pele, a indústria passou a investir em ativos que atuam de forma mais direcionada. Além disso, o discurso de “tratamentos inteligentes”, ou seja, que estimulam a própria pele a se regenerar, ganhou força entre pacientes que buscam resultados mais naturais.

“Os peptídeos representam uma mudança significativa nos protocolos de dermatologia. Em vez de apenas tratar superficialmente, eles atuam como sinalizadores biológicos, estimulando funções da própria pele”, diz a médica.

Afinal, o que são?

“Peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos, os mesmos que formam proteínas como colágeno e elastina. Na pele, eles funcionam como mensageiros celulares, enviando sinais para que determinadas funções sejam ativadas, como regeneração, produção de colágeno ou ação anti-inflamatória”, explica Carla. “É como se fossem pequenas ‘instruções’ que orientam a pele sobre o que fazer. Por isso, têm um potencial terapêutico muito interessante.”

Os peptídeos não são exclusivos da dermatologia. Na medicina, eles já são utilizados em diferentes áreas, como endocrinologia, imunologia e até oncologia, com funções que vão desde regulação hormonal até modulação do sistema imunológico.

Na dermatologia, seu uso se divide principalmente em duas frentes:

  • Dermocosméticos: presentes em cremes e séruns, com foco em rejuvenescimento, hidratação e melhora da textura da pele
  • Procedimentos médicos: associados a protocolos que visam estimular colágeno, regeneração e melhora global da qualidade da pele

“Na dermatologia, os peptídeos ganharam espaço justamente por essa versatilidade. Conseguimos trabalhar desde prevenção até tratamento de sinais mais avançados de envelhecimento”, destaca Carla.

Entre os mais utilizados, estão:

  • Peptídeos sinalizadores: estimulam a produção de colágeno e elastina
  • Peptídeos transportadores: ajudam a levar minerais essenciais para a pele, como o cobre
  • Peptídeos com efeito neuromodulador (botox-like): atuam suavizando linhas de expressão
  • Peptídeos anti-inflamatórios: auxiliam na recuperação da pele e redução de irritações

“A escolha do peptídeo depende do objetivo do tratamento. Não existe um ativo universal, existe indicação correta e individualizada”, reforça a médica.

Apesar de serem considerados seguros, os peptídeos não devem ser usados de forma indiscriminada, especialmente em protocolos injetáveis ou manipulados. “A avaliação dermatológica é essencial. Precisamos entender o tipo de pele, histórico do paciente e, principalmente, a procedência do produto utilizado”, alerta a especialista.

Um dos pontos de maior atenção atualmente é a popularização de protocolos que utilizam peptídeos sem aprovação da Anvisa. No Brasil, qualquer substância injetável com finalidade estética ou terapêutica precisa de regulação e aprovação para garantir segurança e eficácia. “Quando falamos de substâncias aplicadas na pele ou no organismo, não estamos falando de algo trivial. A aprovação da Anvisa garante que aquele produto passou por testes rigorosos. E, para além dos testes, aquele produto passou por estudos científicos robustos, que tornam o seu uso seguro”, explica a especialista.

Nos últimos anos, cresceram práticas que envolvem o uso de “blends” de peptídeos manipulados, muitas vezes importados ou utilizados off-label, sem registro sanitário para fins estéticos.

Esses protocolos podem incluir:

  • Misturas injetáveis sem padronização
  • Substâncias sem estudos clínicos robustos para uso dermatológico
  • Produtos sem rastreabilidade ou controle de qualidade

“O grande risco é não saber exatamente o que está sendo aplicado. Isso pode levar a reações adversas, inflamações, resultados imprevisíveis e até complicações mais graves”, alerta Carla, reforçando: “Tratamentos seguros são aqueles respaldados por ciência, regulamentação e prática médica responsável. O resto é achismo e saúde não deve ser tratada como achismo.”

Abaixo, Carla esclarece o que é mito e o que é verdade sobre os peptídeos na dermatologia:

"Peptídeos substituem procedimentos estéticos"

Mito. “Eles são excelentes aliados, mas não substituem tecnologias e tratamentos feitos em consultório”, diz Carla.

"Peptídeos estimulam colágeno"

Verdade. “Essa é uma das suas principais funções e o motivo de tanto interesse”, explica a médica.

"Todo tratamento com peptídeo é seguro"

Mito. “Segurança depende da origem, da aprovação regulatória e da forma de uso”, alerta a dermatologista

"Quanto mais peptídeos, melhor o resultado"

Mito. “Não é quantidade, é qualidade e indicação correta”, afirma.

"Peptídeos podem ser usados em casa com segurança"

Verdade, mas com ressalvas. “Dermocosméticos são seguros, desde que bem indicados. Já procedimentos exigem acompanhamento médico”, explica Carla.

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O avanço dos peptídeos representa um avanço importante na dermatologia, mas exige um olhar crítico diante do excesso de informação e desinformação, especialmente alavancado pelas redes sociais. “Estamos diante de uma tecnologia promissora, mas que precisa ser usada com responsabilidade. O melhor caminho ainda é a medicina baseada em evidência e o cuidado individualizado”, finaliza Dra. Carla Vidal.

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