Dois estudos recentes reforçam um alerta importante sobre o impacto da tecnologia na saúde mental de crianças e adolescentes, e trazem um ponto-chave: o problema não é apenas o tempo de tela, mas principalmente o padrão de uso, especialmente quando há características de comportamento viciante.
De acordo com a pediatra Anna Dominguez Bohn, “Durante muito tempo, a gente ficou focado no tempo de tela, mas esses estudos mostram que o ponto central é outro: é como essa tecnologia está sendo usada. Hoje, os desafios são muito mais complexos, porque envolvem diferentes tipos de plataformas e também as características individuais dos jovens”, explica.
- Quais os riscos do uso de redes sociais na infância?
- Especialista alerta para piora na saúde mental entre meninos da Geração Z
A primeira pesquisa, publicada na JAMA em 2025, acompanhou 4.285 jovens entre 10 e 14 anos por quatro anos e identificou que o uso viciante de redes sociais está associado a um risco até 2,39 vezes maior de comportamento suicida. Um dos dados mais alarmantes mostra que 18% dos adolescentes relataram pensamentos suicidas em um ano, quase um em cada cinco. Houve, ainda, um aumento significativo de ansiedade, depressão e comportamentos impulsivos.
Além disso, 31,3% dos adolescentes apresentaram trajetória crescente de uso viciante. “A gente está falando de uma população extremamente vulnerável, que são os adolescentes, uma fase de formação de identidade, de pertencimento. E os dados são realmente preocupantes: jovens com padrão de uso viciante chegam a ter mais que o dobro de risco de comportamento suicida. E quase um quinto relatou pensamentos suicidas em um único ano, o que é um número muito alto”, destaca.
Leia Mais
Outro achado relevante é que o tempo total de tela, isoladamente, não se mostrou associado a maior risco, reforçando a mudança de foco no debate sobre tecnologia.
Já o segundo estudo, publicado na JAMA Pediatrics em março de 2026, analisou 153 estudos longitudinais com mais de 18 mil jovens 2 e 19 anos, de diferentes países. A pesquisa encontrou um padrão consistente de associação entre o uso de redes sociais e piores desfechos no desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Os dados mostram associação com maior frequência de sintomas de depressão e ansiedade, comportamentos agressivos e impulsivos, pensamentos e comportamentos de autoagressão, além de maior uso de álcool, cigarro e outras substâncias. Também foram observadas associações com pior desempenho escolar e pior percepção de si mesmo.
- Só limitar o tempo de tela usado por crianças não evita prejuízos; entenda
- FOMO, FOLO e nomofobia: hiperconexão pode afetar a saúde mental
O estudo destaca que esses efeitos não aparecem de forma isolada, mas de maneira recorrente em diferentes populações e contextos, reforçando a consistência do padrão observado.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
“É urgente pensar de forma pública e social em como controlar, regular e proteger, porque os meios digitais evoluíram para se tornarem altamente viciantes”, afirma a pediatra. Segundo ela, isso envolve criar contrapontos dentro de casa e reduzir a dependência constante das telas. “A gente também precisa instrumentalizar as famílias. É importante oferecer outras formas de interação e saber identificar sinais de alerta quando algo não vai bem.”
Para a especialista, o enfrentamento exige ação coordenada. “É um conjunto: políticas públicas e ações específicas voltadas a crianças e adolescentes, para reduzir os impactos da exposição digital, especialmente na adolescência”, afirma.
