A saúde das mães exige uma leitura segmentada, alinhada às diferentes fases da vida reprodutiva e familiar. A abordagem uniforme, ainda comum em parte dos serviços, contraria evidências epidemiológicas e compromete a efetividade do cuidado.


Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que aproximadamente 287 mil mulheres morreram em 2020 por causas relacionadas à gestação e ao parto, com maior concentração no período imediato após o nascimento. O recorte evidencia que os riscos e as demandas variam conforme o momento vivido, o que impõe a necessidade de protocolos diferenciados.


Durante a gestação, o acompanhamento pré-natal concentra esforços na prevenção de complicações clínicas e no monitoramento do desenvolvimento fetal. No puerpério, fase crítica que se estende pelas semanas seguintes ao parto, o foco se desloca para a recuperação física, o equilíbrio hormonal e a adaptação emocional. “O puerpério exige vigilância ativa. Há uma mudança abrupta no perfil hormonal e uma sobrecarga emocional significativa, o que demanda acompanhamento específico. Tratar a puérpera com o mesmo protocolo da gestante compromete a identificação precoce de intercorrências”, destaca a ginecologista Roberta Brando, especialista em estética íntima e terapia hormonal feminina.


A etapa seguinte, marcada pela lactação estabelecida, geralmente após os primeiros meses, apresenta um novo conjunto de desafios. Estudos publicados em bases científicas internacionais apontam que a manutenção do aleitamento está diretamente associada ao suporte profissional e às condições de saúde da mãe. “A mulher que amamenta há seis meses enfrenta outro cenário clínico. Há desgaste físico acumulado, impacto hormonal e, muitas vezes, alterações na libido e na qualidade do sono. O cuidado precisa acompanhar essa transição para evitar desfechos negativos”, completa.


Com o crescimento dos filhos, o eixo do cuidado materno incorpora fatores comportamentais e psicossociais. Levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que mulheres com filhos pequenos apresentam maior sobrecarga de trabalho não remunerado, o que repercute na saúde física e mental. Em famílias com adolescentes, a privação de sono e o estresse emocional tornam-se mais frequentes. “Existe a percepção equivocada de que, após a primeira infância, a mãe não precisa de acompanhamento estruturado. Isso não se sustenta. As demandas mudam, mas continuam relevantes e impactam diretamente a saúde”, confirma a ginecologista.


A literatura também aponta para a persistência de transtornos mentais ao longo da maternidade. Revisões sistemáticas indicam que até 20% das mulheres podem apresentar sintomas depressivos no primeiro ano após o parto, com possibilidade de manutenção ou recorrência em fases posteriores. “A saúde materna deve ser acompanhada de forma contínua, com avaliação periódica e individualizada. A ausência de seguimento favorece o agravamento de quadros que poderiam ser manejados de forma precoce.”

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No fim das contas, a segmentação do cuidado não constitui apenas uma diretriz técnica, mas uma exigência baseada em evidências. A diversidade de fases, que vai da gestação ao puerpério, para a lactação, à criação de filhos em diferentes idades, impõe ajustes clínicos e estratégicos. “A maternidade é um processo dinâmico, com demandas específicas em cada etapa. O reconhecimento dessas diferenças é fundamental para garantir assistência adequada e promover saúde de forma consistente”, acrescenta.

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