SBCP volta a condenar uso de PMMA após relato de jornalista
Ju Massaoka descobriu substância perigosa aplicada sem seu consentimento; entenda o drama médico que acendeu um alerta nacional de saúde
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O relato da repórter Ju Massaoka durante o programa da Ana Maria Braga reacendeu o debate sobre os riscos associados ao uso do polimetilmetacrilato, conhecido como PMMA, em procedimentos estéticos. A jornalista contou que quase perdeu parte do nariz após descobrir a presença da substância, aplicada sem seu conhecimento durante uma rinoplastia realizada anos atrás.
Segundo ela, a descoberta ocorreu durante uma nova cirurgia, inicialmente indicada para corrigir um desvio de septo. Durante o procedimento, os médicos identificaram o PMMA e precisaram retirar o material. A presença da substância tornou a operação mais delicada e exigiu a reconstrução da região com enxerto retirado da costela.
A repórter segue em tratamento, incluindo sessões de câmara hiperbárica e drenagem linfática, devido ao risco de necrose e às complicações no processo de cicatrização.
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Por que o PMMA é considerado perigoso?
De acordo com o cirurgião plástico Fernando Amato, o uso do PMMA na estética apresenta diversos riscos. Por se tratar de um preenchedor definitivo, a substância não é absorvida pelo organismo e pode desencadear reações inflamatórias ao longo do tempo.
“Os preenchedores definitivos, como é o caso do PMMA, por serem substâncias estranhas ao corpo, podem causar formação de biofilme e inflamação local crônica, além de aumentar a possibilidade de infecção, que, se não tratada adequadamente, pode levar a complicações mais graves”, explica.
O especialista afirma que, em alguns casos, o preenchimento com PMMA pode provocar um processo inflamatório granulomatoso. Esse tipo de inflamação pode aumentar a produção de uma enzima chamada alfa-hidroxilase, responsável por converter a vitamina D obtida por exposição ao sol, bronzeamento artificial, suplementação oral ou injetável.
“Essa vitamina D convertida pode ocasionar a hipercalcemia, que é o excesso de cálcio no sangue. Esse cálcio será absorvido pelo intestino e também retirado dos ossos. O aumento do cálcio pode interferir no funcionamento adequado dos rins, com formação de cálculos, podendo evoluir até para insuficiência renal”, alerta Fernando.
Por isso, o cirurgião reforça que vitaminas e suplementos não devem ser usados sem orientação médica, como se fossem substâncias inofensivas. Segundo ele, caso a pessoa decida realizar algum procedimento de preenchimento, é fundamental conversar com o cirurgião plástico e informar todos os medicamentos em uso, incluindo vitaminas e suplementos.
Entidade reforça alerta
Diante da repercussão do caso, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) reforçou seu posicionamento contrário ao uso do polimetilmetacrilato em procedimentos estéticos e reconstrutores. “A SBCP não recomenda o uso do PMMA por cirurgiões plásticos em nenhuma circunstância”, destaca a entidade.
Segundo a sociedade médica, a recomendação é sustentada por preocupações relacionadas à segurança dos pacientes, à gravidade das possíveis complicações e à falta de evidências científicas robustas que sustentem o uso estético da substância.
A SBCP afirma ainda que já se manifestou formalmente junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) defendendo o banimento do PMMA. Para a entidade, a manutenção das indicações atualmente aprovadas no Brasil contraria o entendimento técnico da especialidade.
O tema também está em discussão na Câmara dos Deputados. A sociedade informa que foi consultada pela relatora do Projeto de Lei nº 403/2021 e contribuiu com uma nota técnica, na qual destacou preocupações relacionadas à segurança, às complicações graves associadas ao PMMA e à necessidade de maior rigor regulatório.
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A entidade também orienta seus membros a não utilizarem a substância, independentemente da quantidade ou da indicação, e reafirma seu compromisso com uma medicina baseada em evidências. Para a SBCP, o aumento dos relatos de complicações graves envolvendo procedimentos estéticos reforça a necessidade de ampliar o debate sobre segurança, fiscalização e informação à população.