Alzheimer: um desafio para a mente todo o mundo
Doença ligada a genética e estilo de vida tem vulnerabilidade global e projeções alarmantes, apesar de avanços no diagnóstico e tratamento
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Cerca de 55 milhões de pessoas no mundo vivem com algum tipo de demência, segundo o Relatório Mundial sobre Alzheimer 2025, publicado pela Alzheimer’s Disease International (ADI). As projeções apontam que esse número pode triplicar até 2050, alcançando aproximadamente 150 milhões de indivíduos.
No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais convive com a condição, representando aproximadamente 2 milhões de casos. Até 2050, a projeção é que mais 5,7 milhões de pacientes sejam diagnosticados no país. A doença de Alzheimer é a principal causa de demência neurodegenerativa, podendo contribuir para 60% a 70% dos casos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Alzheimer: e quem cuida dos cuidadores?
A enfermidade é caracterizada como progressiva, irreversível, sem cura e fatal, manifestando-se pela deterioração cognitiva, especialmente, mas não apenas, e da memória, além de comprometimento progressivo das atividades de vida diária e de uma variedade de sintomas neuropsiquiátricos e alterações comportamentais.
O geneticista João Paulo Faria, doutor em medicina molecular, explica que a doença pode ser dividida em duas principais formas: a autossômica dominante (ADAD), ou seja, hereditária, que representa menos de 1% dos casos e é causada por mutações em genes que alteram a produção da proteína amiloide, responsável por desempenhar papéis importantes na regulação de diversas funções celulares essenciais. “Elas seguem herança mendeliana, transmitidas de pais para filhos, e estão associadas à doença de início precoce, frequentemente antes dos 65 anos.”
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Já a forma de início tardio representa mais de 90% dos casos e possui causa complexa e multifatorial. O chamado alelo APOE E4 é o fator genético mais forte nesse cenário, aumentando o risco em até quatro vezes para pessoas que herdam essa variação genética de um dos país e em até 12 vezes quando a herança vem dos dois pais.
“Para essa forma, parentes de primeiro grau têm um risco cumulativo ao longo da vida de cerca de 1,5 a 2 vezes o risco da população geral. A maioria dos parentes de primeiro grau não desenvolverá a doença. Mesmo para portadores do APOE E4, o risco não é uma sentença: até 75% das pessoas com uma cópia do alelo permanecem livres da doença de Alzheimer”, detalha.
Avisos ignorados
Entender o que acontece no corpo humano para o surgimento da doença de Alzheimer por si só, já é um desafio. Além disso, estudos de associação genômica ampla identificaram mais de 40 variantes genéticas adicionais associadas ao risco de doença de Alzheimer. Paralelamente, estudiosos apontam 14 fatores de risco modificáveis relacionados ao surgimento da demência.
Um estudo liderado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) associou esses agentes a quase 60% dos casos de demência no Brasil. Segundo os pesquisadores, as três condições evitáveis com maior impacto são:
- Baixa escolaridade no início da vida
- Perda da capacidade visual não tratada
- Depressão
Os outros 11 fatores modificáveis que aumentam o risco de demência, segundo a pesquisa, são:
- Isolamento social
- Poluição do ar
- Traumatismo cranioencefálico
- Hipertensão arterial
- Diabetes
- Obesidade
- Falta de atividade física
- Tabagismo
- Consumo excessivo de álcool
- Perda auditiva
- Colesterol elevado
“Não é uma patologia que começa no final de semana. Ela tem um longo período de evolução”, enfatiza o neuropsiquiatra geriátrico Sérgio Fonseca, também presidente da Associação Brasileira de Alzheimer, regional Minas Gerais (Abraz-MG). Para ele, o grande problema está na percepção do que é prioridade. Hoje, segundo o especialista, os bens materiais acabam ocupando espaço central na vida das pessoas, o que vem acompanhado de doenças crônicas.
“Eu acho que falta a gente olhar também um pouco para nossa qualidade de vida, porque isso tem um preço que vem por meio da hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo e afins”. O neuropsiquiatra acrescenta que, diante dessa negligência – própria e com quem está ao redor –, a doença costuma ser diagnosticada em fase moderada a grave. Segundo especialistas, as alterações biológicas associadas à condição começam a surgir de 15 a 20 anos antes do diagnóstico, fase em que o paciente ainda não tem sintomas observáveis.
Dificuldades que repercutem na rotina
O neurologista Leonardo Cruz, professor adjunto da Faculdade de Medicina da UFMG, confirma esse cenário e destaca que não pode haver uma normalização dos sintomas apenas pelo fato de os indivíduos serem idosos. Dificuldades progressivas de memória, linguagem e raciocínio, quando começam a repercutir na rotina, precisam ser observadas e investigadas, alerta. “Dificuldade de reter novas informações, esquecimentos constantes e progressivos e repetições são um alerta”, destaca.
Procurar um especialista nesses casos é imprescindível para excluir possíveis condições associadas, como alterações hormonais ligadas à tireoide e deficiência de vitamina B12, ambas capazes de afetar a memória e a disposição. Vale destacar: envelhecer não deve ser sinônimo de perda da mobilidade, memória e autonomia. Por isso, a falta de diagnóstico da doença no país, que varia entre 70% e 80% dos casos, se apresenta como um dos principais desafios diante da desinformação e dos estigmas que rondam o tema.
O professor Leonardo Cruz explica que o primeiro passo é o paciente ou algum familiar procurar um profissional especializado. Posteriormente, é realizada uma entrevista clínica para caracterizar as dificuldades observadas. “Podem ser desde memória, linguagem ou cálculo. Uma conversa também é realizada com o acompanhante para entender o quanto as dificuldades repercutem no cotidiano do paciente.”
Em seguida, são feitas testagens cognitivas, com testes de memória e linguagem, para mensuração do grau de comprometimento dessas habilidades. Já no âmbito laboratorial, Leonardo Cruz informa que os exames servem tanto para exclusão de outras demências quanto para dar um diagnóstico específico da doença de Alzheimer.
Entre essas ferramentas de diagnóstico estão a ressonância magnética e a dosagem das proteínas amiloides, que se acumulam no Alzheimer. O especialista destaca, no entanto, que esses exames de biomarcadores devem ser indicados individualmente e de forma restrita, levando em consideração uma série de critérios. Além disso, não há exames de rastreio, como ocorre nos casos dos cânceres. “O que existe são testagens genéticas para detectar mutações associadas à doença, mas que também são restritas e normalmente indicadas para pessoas com histórico familiar.”
Para qualquer teste genético, é essencial a consulta com um geneticista para aconselhamento pré-teste. Na consulta é realizada a avaliação e revisão detalhada da história familiar. “Com essas informações, já é possível estimar um cenário estatístico”, informa Leonardo Cruz, acrescentando que, caso haja indicação, pode ser solicitado o sequenciamento de genes específicos ou análise do DNA. “É importante registrar que, caso já exista uma variante identificada na família, em parentes de até terceiro grau, é sugerida a investigação específica após aconselhamento genético pré-teste”, detalha o geneticista João Paulo Faria.
“Dificuldade de reter novas informações, esquecimentos constantes e progressivos e repetições são um alerta”
- Leonardo Cruz, neurologista e professor-adjunto da Faculdade de Medicina da UFMG
A progressão da doença
Atualmente, o diagnóstico precoce também possibilita que o indivíduo faça escolhas sobre o próprio tratamento, além de iniciar o uso de medicamentos voltados para a redução da progressão da doença. Não se trata de uma cura, mas de uma possibilidade de ampliar a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, no início deste ano, o uso do lecanemabe, medicamento inédito no país para o tratamento da doença de Alzheimer.
De acordo com o registro, o novo medicamento é indicado para pacientes adultos com diagnóstico clínico de comprometimento cognitivo leve ou demência leve decorrentes da doença de Alzheimer em fase inicial, com patologia amiloide confirmada e que não tenham duas cópias do alelo APOE e4.
O medicamento deve ser administrado por infusão intravenosa, durante aproximadamente uma hora, uma vez a cada duas semanas. Assim como ele, o donanemabe, outra droga recente voltada para o tratamento, também atua ligando-se a esses aglomerados de proteínas amiloides, que se acumulam no Alzheimer, reduzindo-os e retardando a progressão da doença. “Esses medicamentos ainda não são amplamente acessíveis pelo valor (ver quadro) e são indicados para o estágio inicial.
O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza quatro tipos de medicamentos focados em ampliar o cuidado nas outras fases da doença”, explica o neurologista e professor Leonardo Cruz. Em 2025, o SUS ampliou o uso do medicamento donepezila para casos graves. Além dele, o sistema público oferece outros medicamentos para o tratamento da doença, como a memantina, para quadros graves, e a rivastigmina e a galantamina, para quadros leves e moderados, conforme diretrizes definidas no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Alzheimer.
O documento também enfatiza um cuidado multidisciplinar, de acordo com as diversas particularidades e sintomas da doença, envolvendo terapias não medicamentosas e atenção psicossocial ao paciente e aos familiares.
O acesso a esses medicamentos ocorre pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF), estratégia do SUS que visa garantir a distribuição de remédios usados em tratamentos de maior complexidade, de forma ambulatorial. Para receber os medicamentos, o paciente precisa se enquadrar nos critérios definidos pelo Ministério da Saúde e apresentar a documentação exigida em uma unidade indicada pelo estado.
Além dos remédios, o SUS também oferece acompanhamento para pessoas com Alzheimer e outras doenças neurológicas. Esse atendimento pode envolver diferentes profissionais de saúde e é feito em unidades especializadas, como centros de referência em neurologia. Em alguns casos, o cuidado também pode ser realizado em casa, pelo “Programa Melhor em Casa". A proposta é evitar internações longas e permitir que o paciente receba assistência com mais conforto, perto da família.
Sem consenso
Dentro das possibilidades de tratamento, há relatos de famílias e especialistas que observam melhora em sintomas comportamentais com o uso da cannabis medicinal. Mas ainda não há consenso médico sobre a indicação da substância no tratamento da doença de Alzheimer. Entidades como a Federação Brasileira das Associações de Alzheimer (Febraz) e a Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) se posicionam de forma contrária ao uso como conduta terapêutica para a doença, diante da falta de evidências científicas robustas.
A Febraz destaca que, com base nos estudos disponíveis até o momento, não há comprovação de benefícios cognitivos associados às terapias à base de cannabis, como melhora de memória, atenção ou raciocínio. Também não foi identificado impacto na progressão das demências. A entidade, no entanto, ressalta a importância da continuidade das pesquisas, com ensaios clínicos mais amplos, maior número de participantes, acompanhamento em longo prazo e publicação em periódicos científicos revisados por pares.
Para o neuropsiquiatra geriátrico Sérgio Fonseca, presidente da Abraz-MG, o uso da cannabis medicinal no contexto do Alzheimer permanece como uma decisão médica individualizada, mas não deve ser tratado como terapia estabelecida. Para ele, também não seria correto classificá-la como uso off-label, já que não há indicação formal para esse fim. “Na verdade, a cannabis é considerada uma substância, então não é nem uma questão de medicamento. A indicação dela, pelo que a gente vê, eu nem vou chamar de off-label. Se fosse off-label, teria que ter uma bula, algum trabalho, alguma coisa assim”, explica.
O especialista afirma que, na prática clínica, o que se observa são relatos pontuais de famílias que dizem perceber melhora em sintomas como agitação, resistência ao banho, insônia, perambulação noturna ou episódios de confusão. Ainda assim, ele reforça que esses relatos não substituem estudos científicos capazes de comprovar eficácia e segurança.
“Alguém fala: ‘Estou usando cannabis com THC, tantas gotas e melhorou’. Melhorou o quê? Às vezes, o comportamento. O paciente já não deixava se aproximar para trocar uma roupa, para o banho, não dorme, perambula a noite inteira, chuta a porta, quer sair para a rua achando que aquela casa não é a casa dele. Em alguns casos, a gente escuta falar que tem usado esse tipo de substância. Mas é uma coisa própria de cada família”, pontua.
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Na avaliação de Sérgio Fonseca, diante da ausência de consenso e de comprovação científica, a prioridade deve seguir sendo o uso de medicamentos já incorporados às diretrizes clínicas, além do cuidado multidisciplinar, do suporte ao cuidador do paciente e das estratégias não medicamentosas voltadas à rotina, segurança e qualidade de vida da pessoa diagnosticada.