Alzheimer: remédio para epilepsia pode evitar destruição de neurônios
Medicamento de baixo custo usado para pacientes de epilepsia mostra-se promissor no combate à formação de partículas tóxicas associadas ao Alzheimer
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Um medicamento amplamente usado contra epilepsia pode atuar em uma etapa crítica do desenvolvimento da doença de Alzheimer: a produção do principal componente de placas que se acumulam no cérebro ao longo dos anos. Publicado na revista "Science Translational Medicine", o estudo com o levetiracetam mostrou que o anticonvulsivante reduz a formação de um subproduto tóxico da proteína beta-amiloide (AB), que, em excesso, provoca a morte dos neurônios.
Caracterizado pela destruição gradual das células cerebrais, o Alzheimer deve afetar 130 milhões de pessoas em 2050, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Atualmente, as opções de tratamento são restritas aos sintomas, e os medicamentos específicos são para fases muito iniciais, além de poderem causar efeitos colaterais graves, como edema e sangramento cerebral.
As terapias aprovadas, hoje, atuam na remoção das placas já formadas e, por isso, têm resultados limitados. Diferentemente, o levetiracetam parece impedir a produção excessiva da beta-amiloide, evitando que cause danos nos neurônios.
O estudo, porém, está em fases iniciais, e ainda não há previsão de quando será clinicamente viável. Por enquanto, os cientistas da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, fizeram experimentos em modelos animais, em neurônios humanos e no tecido cerebral de pacientes de alto risco.
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"Pacotinhos"
No estudo, os pesquisadores descobriram um fragmento da proteína beta-amiloide particularmente tóxico chamado AB42 acumulado dentro das vesículas sinápticas — "pacotinhos" usados pelos neurônios para se comunicarem. Quando administraram o levetiracetam, um anticonvulsivante de baixo custo, o medicamento impediu a formação das partículas nocivas pelas células cerebrais. Segundo os cientistas, caso o resultado se confirme, essa poderá ser uma estratégia preventiva da doença.
"Em termos práticos, isso aponta para um uso do levetiracetam não só para lidar com crises epilépticas em pessoas com Alzheimer, mas possivelmente para 'fechar a torneira' da produção de AB42 antes que se formem muitas placas e ocorram danos irreversíveis", explica Philipe Marques da Cunha, professor da pós-graduação em neurologia na Afya Educação Médica BH. "Não é uma cura, mas uma estratégia potencial de prevenção ou de retardar a progressão, agindo muito cedo no processo da doença e posteriormente nos seus sinais e sintomas", esclarece.
Para um dos autores do estudo, Jeffrey Savas, os resultados "revelam uma nova biologia e também abrem as portas para alvos terapêuticos". Ele conta que durante o ciclo das vesículas sinápticas — um processo envolvido na base de cada pensamento, movimento, memória ou sensação —, o medicamento se une a uma proteína chamada SV2A, manobra que evita a produção dos fragmentos tóxicos.
Segundo Jeffrey Savas, se testes futuros comprovarem a ação do levetiracetam, ele deverá ser administrado muito precocemente em pessoas de alto risco. "Não se pode tomá-lo quando já se tem demência, porque o cérebro já sofreu uma série de alterações irreversíveis e muita morte celular."
Apesar dos resultados promissores, Marques da Cunha ressalta que, para os resultados serem aplicados a pessoas, há muitos obstáculos a serem superados. "O cérebro humano é infinitamente mais complexo do que os sistemas experimentais utilizados em pesquisas. Por isso, ainda é necessário identificar a dose adequada do medicamento para que ele tenha o efeito esperado em pacientes", diz.
"Além disso, não basta diminuir a produção da proteína - é fundamental provar que essa redução se traduz em melhorias reais, como menor perda de memória ou uma evolução mais lenta da doença." Outro aspecto destacado pelo especialista é que, além da beta-amiloide, o Alzheimer está associado a outras proteínas, como a tau, que não foram analisadas pela equipe de Northwestern.
Luciana Barbosa, coordenadora do serviço de Neurologia do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, também frisa a importância de não se utilizar o levetiracetam sem indicação médica — atualmente, ele é prescrito para evitar convulsões.
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"Precisamos de pesquisas criteriosas para que a medicação seja aplicada à prática clínica com segurança. O paciente não deve tomar a medicação de forma desnecessária, pois corre risco de efeitos adversos", lembra. A neurologista alerta, inclusive, que na apresentação disponível atualmente, o anticonvulsivante pode agravar sintomas da doença de Alzheimer, como irritabilidade e alterações de humor.