Saúde e rede de apoio: o que considerar antes da gravidez?
Estudo aponta aspectos ainda pouco monitorados na prática clínica; diferentes fatores influenciam os desfechos maternos e neonatais
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Um estudo, divulgado pela University of Southampton e publicado em abril de 2026 na revista científica The Lancet, identificou os principais indicadores que devem ser considerados antes da gestação. A pesquisa ouviu mais de cinco mil pessoas em 13 países, incluindo o Brasil, e ampliou o olhar sobre a saúde reprodutiva ao incluir fatores clínicos, emocionais e sociais que influenciam diretamente os desfechos maternos e neonatais.
Entre os principais pontos destacados estão a saúde mental e física, as condições financeiras, as relações sociais e o apoio familiar, além de comportamentos associados à saúde, como alimentação e tabagismo. Também entram na lista doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, e riscos genéticos, que podem impactar tanto a fertilidade quanto a evolução da gestação.
“Apesar dos avanços no pré-natal, a fase anterior à gravidez ainda é pouco monitorada de forma estruturada. Na prática, muitos desses fatores só passam a ser avaliados quando a gestação já começou, o que reduz a capacidade de prevenção e limita o planejamento adequado da maternidade”, comenta Martha Calvente, ginecologista da clínica CDPI e do Alta Diagnósticos, da Dasa, no Rio de Janeiro. A especialista afirma que a avaliação antes da gestação amplia a capacidade de identificar fatores de risco e permite intervenções mais precoces, contribuindo para melhores desfechos tanto para a mãe quanto para o bebê.
O acompanhamento desses fatores envolve diferentes especialidades médicas. Ginecologistas e obstetras atuam no planejamento reprodutivo; endocrinologistas avaliam as condições metabólicas, enquanto a genética médica contribui para a identificação de predisposições hereditárias. A atenção à saúde mental também ganha relevância nesse contexto.
“A gente ainda concentra grande parte do cuidado na gestação, mas muitos riscos poderiam ser identificados antes. Quando a avaliação é feita no período pré-concepcional, é possível orientar melhor o planejamento da gravidez e reduzir a chance de complicações”, afirma Martha. Parte desses fatores pode ser identificada antes mesmo da concepção por meio de exames clínicos, o que permite antecipar riscos e orientar decisões médicas com mais precisão.
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“Já é possível identificar fatores que impactam a gestação antes mesmo de ela ocorrer. Exames de sangue permitem avaliar marcadores metabólicos como glicemia, colesterol e função tireoidiana, além de ajudar na detecção de doenças crônicas. Testes hormonais também são fundamentais para entender a reserva ovariana e o equilíbrio do ciclo reprodutivo, orientando o planejamento da gravidez de forma mais segura”, explica Flávia Pieroni, endocrinologista do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica, em Minas Gerais.
Além dos exames laboratoriais e hormonais, métodos de imagem, como a histerossalpingografia, permitem avaliar a anatomia uterina e a permeabilidade das trompas, contribuindo para a investigação de causas de infertilidade.
Genética amplia a identificação de riscos
No campo da genética, os avanços têm ampliado a capacidade de identificar riscos que não são detectados em avaliações clínicas tradicionais. Entre as ferramentas disponíveis está o painel genético para infertilidade feminina, que analisa um conjunto de genes associados a condições como falência ovariana precoce e alterações que podem dificultar a concepção ou estar relacionadas com perdas gestacionais recorrentes, permitindo uma investigação mais direcionada.
“Os exames genéticos trazem uma camada adicional de informação ao planejamento reprodutivo. Eles permitem identificar predisposições hereditárias e orientar decisões clínicas com mais precisão, especialmente em casos de infertilidade sem causa aparente”, explica Gustavo Guida, geneticista dos laboratórios Sérgio Franco e Bronstein, da Dasa, no Rio de Janeiro.
“Já durante a gestação, exames como o NIPT, em versões básicas e ampliadas, permitem rastrear alterações cromossômicas de uma amostra de sangue materno, identificando com alta precisão condições genéticas ainda no início da gravidez”, completa. Entre as ferramentas disponíveis estão exames laboratoriais, testes hormonais, análises genéticas e métodos de imagem, que contribuem para uma avaliação mais completa da saúde reprodutiva e permitem uma abordagem mais preventiva.
No entanto, os pesquisadores mostraram que o planejamento familiar vai além do consultório e esbarra em variáveis socioeconômicas que ditam o bem-estar da mãe e do bebê. Especialistas alertam que a saúde mental materna está diretamente condicionada à previsibilidade financeira e à solidez de uma rede de apoio; sem esse suporte, o risco de sobrecarga e transtornos emocionais no pós-parto aumenta significativamente.
Ao integrar esses indicadores ao período pré-concepcional, o planejamento deixa de ser apenas uma escolha reprodutiva para se tornar uma estratégia de redução de vulnerabilidades, garantindo que a gestação ocorra em um ambiente de maior segurança e estabilidade.
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Contudo, a ausência de indicadores padronizados para a fase pré-concepcional ainda é um desafio para a comunidade médica. Sem métricas consolidadas, torna-se mais difícil estruturar políticas públicas e protocolos voltados para a prevenção. A tendência, segundo especialistas, é que o cuidado reprodutivo avance para um modelo mais integrado e multidisciplinar, com foco na identificação precoce de riscos e no acompanhamento antes mesmo do início da gestação.