Durante décadas, a cirurgia do pâncreas foi considerada um dos maiores desafios da medicina moderna. Nesse cenário, o avanço das técnicas minimamente invasivas, que utilizam pequenas incisões, câmeras e instrumentos especiais, incluindo plataformas robóticas, sempre foi visto com cautela.

Foi para enfrentar essas questões que um grupo de 52 cirurgiões especialistas em pâncreas, com atuação em seis continentes, definiu novas diretrizes para o uso seguro e responsável da cirurgia minimamente invasiva no tratamento do câncer de pâncreas, uma das neoplasias mais letais da atualidade.

O consenso, resultado do Congresso PANCREAS 2025: Pancreatic Cancer Research, Education & Assistance Symposium, realizado em setembro do ano passado em São Paulo, foi publicado este ano no HPB Journal e marca um avanço ao estabelecer parâmetros para indicação, treinamento e implementação dessas técnicas em oncologia.

Câncer de pâncreas

Localizado profundamente no abdômen, cercado por grandes vasos sanguíneos e estruturas vitais, o pâncreas é um órgão que exige procedimentos de extrema precisão, pois há alto risco de complicações. Paralelamente, o câncer de pâncreas segue como uma doença de difícil detecção, frequentemente diagnosticada em fases avançadas e, dessa forma, associada a baixas taxas de sobrevida.

Embora amplamente adotadas em outras áreas da cirurgia, as técnicas minimamente invasivas no câncer de pâncreas permaneciam cercadas de dúvidas, sobretudo em relação à segurança, aos resultados oncológicos e à curva de aprendizado necessária.

Foi para discutir essas técnicas que nasceu o Consenso Internacional de São Paulo sobre Cirurgia Minimamente Invasiva do Pâncreas para o Câncer, o primeiro documento do gênero focado em tumores malignos, a discutir de forma estruturada, específica e baseada em evidências científicas o papel dessas técnicas no tratamento oncológico da doença.

“Esse é o primeiro consenso que discute de forma organizada a cirurgia minimamente invasiva especificamente para o câncer de pâncreas, tanto do tipo adenocarcinoma quanto dos tumores neuroendócrinos, os dois tipos mais comuns. Estamos falando de um procedimento de altíssima complexidade, que precisa unir técnica cirúrgica, resultado oncológico e segurança para o paciente”, afirma o cirurgião oncológico Felipe José Fernández Coimbra, coordenador do consenso, secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica, diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center.

Especialistas de todo o mundo

O documento é resultado de um processo rigoroso de construção científica. Ao longo de três rodadas de discussão estruturada, conhecidas como método Delphi, os especialistas analisaram mais de 2.500 estudos publicados nos últimos dez anos. Desses, 185 trabalhos foram selecionados por apresentarem dados relevantes sobre resultados cirúrgicos, segurança, complicações e desfechos oncológicos.

Os participantes, com mediana de 22 anos de experiência em cirurgia pancreática, representaram 17 países da América do Norte e do Sul, Europa, Ásia, África e Oceania. O objetivo não foi apontar superioridade entre técnicas abertas ou minimamente invasivas, mas estabelecer em quais situações essas abordagens podem ser consideradas equivalentes e, principalmente, quando não devem ser utilizadas.

O consenso final aprovou 22 recomendações, com concordância superior a 90% entre os especialistas, abordando desde a retirada da porção esquerda do pâncreas até cirurgias mais complexas, como a gastroduodenopancreatectomia, além de orientações sobre treinamento, infraestrutura hospitalar e acompanhamento de resultados.

As recomendações centrais do consenso evidenciam que a cirurgia minimamente invasiva no câncer de pâncreas representa um avanço relevante, mas que deve ser aplicada com extremo rigor.

“A cirurgia do pâncreas é uma das mais complexas da oncologia. Além da técnica, ela envolve um conjunto de fatores que impactam a sobrevida e o risco de recorrência da doença. Por isso, precisa ser realizada por equipes experientes, em hospitais com infraestrutura completa para tratar complicações e com suporte de radiologia intervencionista, patologia e outras especialidades. Isso aumenta a segurança e reduz a mortalidade”, reforça Felipe Coimbra.

Quando a técnica pode ser utilizada?

De acordo com o documento, há evidências consistentes de que, em tumores localizados na cauda ou no corpo do pâncreas, a cirurgia minimamente invasiva pode alcançar resultados oncológicos semelhantes aos da cirurgia aberta, desde que realizada por equipes experientes. Isso inclui taxas adequadas de retirada completa do tumor e número suficiente de linfonodos analisados, fatores essenciais para o controle da doença.

Entre os potenciais benefícios observados estão menor perda de sangue durante a cirurgia e recuperação funcional mais rápida, menos dor, infecção e hérnias da parede abdominal, sem prejuízo da segurança. Ainda assim, os autores ressaltam que os dados de longo prazo, como sobrevida em cinco anos, seguem sendo acompanhados.

Nas cirurgias mais complexas, como aquelas realizadas na cabeça do pâncreas, o consenso é ainda mais cauteloso. Embora estudos indiquem que os resultados podem ser comparáveis em centros especializados, a curva de aprendizado é longa, e a adoção indiscriminada fora desses centros pode aumentar o risco de complicações graves.

“A estrutura para tratar possíveis intercorrências na recuperação e o suporte adequado são fundamentais para a segurança e para reduzir o risco de complicações graves aos pacientes”, afirma o cirurgião.

Treinamento estruturado

Outro ponto-chave do consenso é a ênfase na formação dos cirurgiões. O documento recomenda que programas de cirurgia minimamente invasiva do pâncreas só sejam iniciados por profissionais já experientes em cirurgia pancreática aberta e em técnicas minimamente invasivas em geral.

Além disso, o treinamento deve incluir simulações, acompanhamento por mentores experientes e avaliação contínua de resultados. O consenso também defende que hospitais mantenham bancos de dados próprios ou participem de registros nacionais e internacionais, permitindo monitorar desfechos e corrigir rotas sempre que necessário.

Para os especialistas, a tecnologia por si só não garante melhores resultados. Plataformas robóticas, imagens tridimensionais e recursos de inteligência artificial podem ajudar, mas não substituem a experiência, o julgamento clínico e a estrutura hospitalar adequada.

Impacto para pacientes e sistemas de saúde

Embora o consenso seja direcionado principalmente a profissionais e gestores de saúde, seus reflexos alcançam diretamente os pacientes. Ao estabelecer critérios claros para a adoção da cirurgia minimamente invasiva, o documento ajuda a evitar indicações inadequadas e expectativas irreais.

Os autores destacam que muitos pacientes associam automaticamente cirurgia robótica e outras modalidades minimamente invasivas a melhores resultados, o que nem sempre é verdade. A indicação para cada caso deve ser minuciosa, e nem sempre a cirurgia minimamente invasiva deve ser realizada. Por isso, a decisão deve ser compartilhada, com explicações claras sobre riscos, benefícios e alternativas.

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No contexto de países de renda média, como o Brasil, o consenso também chama atenção para a necessidade de equilíbrio entre inovação e sustentabilidade. Antes de investir em novas tecnologias, é fundamental garantir o acesso a cuidados básicos de alta qualidade, como leitos de UTI, equipes treinadas e capacidade de manejar complicações pós-operatórias.

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