O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ainda é cercado por estigmas que impactam diretamente a vida escolar de milhares de crianças. No entanto, a neuroeducação vem promovendo uma mudança significativa nesse cenário ao propor uma leitura mais científica e empática sobre o transtorno — não como uma falha, mas como um funcionamento neurobiológico atípico.
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De acordo com a neuropedagoga Renata Haddad, o cérebro de crianças com TDAH apresenta particularidades, especialmente no córtex pré-frontal, região responsável pelas funções executivas. “Na prática, isso afeta habilidades como atenção sustentada, memória de trabalho e controle de impulsos. É importante desmistificar: não se trata de falta de vontade. Existe uma dificuldade real em filtrar estímulos e priorizar o que é importante, principalmente quando não há engajamento emocional ou recompensa imediata”, explica.
Desafios
No ambiente escolar, os sinais do TDAH costumam ser evidentes e desafiadores. Desatenção, esquecimento frequente, dificuldade em seguir instruções longas, inquietação motora e impulsividade estão entre os comportamentos mais comuns. Além disso, a especialista chama atenção para a oscilação no desempenho. “É comum que a criança apresente resultados inconsistentes — um dia realiza atividades com excelência, no outro parece não reconhecer o conteúdo. Isso gera frustração tanto para ela quanto para a família”, afirma.
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Outro ponto destacado por Renata é a diferença na manifestação do transtorno entre meninos e meninas. Enquanto os meninos tendem a apresentar comportamentos mais hiperativos e impulsivos, as meninas frequentemente manifestam um perfil predominantemente desatento. “Por serem mais quietas, muitas passam despercebidas, o que pode atrasar o diagnóstico e impactar diretamente a autoestima, além de favorecer o desenvolvimento de ansiedade”, alerta.
Dentro da sala de aula, o maior desafio está na execução das tarefas. “Existe um abismo entre saber o que fazer e conseguir fazer. A criança com TDAH muitas vezes entende a regra, mas não consegue organizar mentalmente as etapas ou conter impulsos. Isso torna atividades expositivas extremamente cansativas e pode levar à desmotivação”, pontua.
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O papel da neuroeducação
Diante desse cenário, a neuroeducação propõe estratégias pedagógicas acessíveis. A organização do ambiente e a previsibilidade das tarefas são fundamentais. Dividir atividades em etapas menores, utilizar recursos visuais como cores e checklists, além de permitir pausas curtas, são práticas que favorecem o desempenho. “O cérebro com TDAH precisa de pausas para ‘recarregar’. E o feedback rápido, valorizando o esforço, ajuda a manter o engajamento”, destaca a especialista.
A adaptação de atividades também é vista como uma aliada da inclusão, sem prejuízo para o restante da turma. “Flexibilizar não é facilitar, é oferecer diferentes caminhos para o aprendizado. Estratégias como posicionar o aluno próximo ao professor ou confirmar a compreensão das instruções beneficiam toda a classe”, reforça.
O uso da tecnologia, por sua vez, exige equilíbrio. Ferramentas digitais podem ser grandes aliadas quando utilizadas com intencionalidade pedagógica, auxiliando na organização e no engajamento. No entanto, o uso excessivo e sem mediação pode aumentar a dispersão. “A tecnologia não é vilã nem solução por si só. O que faz a diferença é como ela é aplicada no processo de aprendizagem”, ressalta Renata.
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Ao ampliar a compreensão sobre o TDAH, a neuroeducação contribui para um ambiente escolar mais inclusivo, acolhedor e eficiente, onde cada criança pode desenvolver seu potencial respeitando suas particularidades.
