Essa reportagem é a segunda parte de um levantamento feito pelo Estado de Minas a partir de dados obtidos pelos principais órgãos de saúde do Brasil e do mundo, entre os quais a Organização Mundial de Saúde (OMS), a revista científica The Lancet e a Alzheimer's Diseases International. É oficial: estamos mais próximos de 2050 do que do início do século. E o futuro, que já está logo ali no horizonte, não traz boas notícias.
A professora Rita Louback, de 65 anos, compartilha suas preocupações com o envelhecimento e as doenças relacionadas à idade. "Há cânceres por parte materna e paterna - além da herança do reumatismo. Por isso, previno fatores que levam ao câncer, fazendo mamografia e exames ginecológicos", conta. "Meus indicadores são ótimos em relação a diabetes, hipertensão etc.", celebra a docente, que terá 89 anos em 2050.
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Porém, ela não vê a mesma preocupação por parte dos jovens. “Eles estão em uma fase de muitos excessos, naquele deslumbramento com a fase adulta. São jovens que poderiam viver mais que outras gerações, principalmente por conta do avanço da medicina. Isso meio que anula esses ganhos. Então, é mostrar ao jovem que o corpo dele é o maior patrimônio que ele tem, assim como sua saúde”, recomenda.
A professora universitária Rita Louback é mãe, filha e divide sua rotina entre o autocuidado e suas responsabilidades. Em 2050, a docente terá mais de 80 anos
Em meio a essa preocupação, casos de diabetes tipo 2, que respondem por 90% do total dos casos de diabetes e têm maior prevalência entre idosos, já começam a aparecer também em faixas etárias mais jovens, segundo médicos e entidades que acompanham o tema. Em geral, o diagnóstico desse tipo da doença é mais associado a fatores ambientais e marcado por uma resistência do organismo à ação da insulina. Mas o que os estudos têm destacado é que a diabetes ocorre cada vez mais precocemente em razão da expansão da obesidade, que está acometendo mais cedo a vida das pessoas.
Para se ter uma ideia, atualmente, uma em cada sete pessoas têm obesidade no mundo - o equivalente a mais de um bilhão de indivíduos. Para 2050, espera-se que mais de quatro bilhões de pessoas sejam obesas. A doença não transmissível (DNT) pode levar a múltiplas complicações associadas, como o risco de desenvolver diabetes, hipertensão, doença cardiovascular, aparecimento de alguns tipos de cânceres, além do risco de morte precoce e impacto sobre a qualidade de vida.
ULTRAPROCESSADOS
A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), destaca que a doença pode ser evitada com a promoção de atividade física, alimentação balanceada e diminuição do consumo de ultraprocessados - esses muito mais acessíveis que alimentos frescos e orgânicos.
Enquanto isso, Maria Eduarda, de 23 anos, que terá 47 anos na metade do século, já expressa uma preocupação com sua saúde, especialmente por conta de um quadro alérgico de asma crônica, que prejudica o funcionamento completo de seus pulmões. “Pratico atividade física semanalmente, tenho acompanhamento com nutricionista, realizo exames de rotina, como hemograma, e tenho acompanhamento com alergista e pneumologista.” Porém, como os cuidados não são baratos, ela ressalta que “o acesso a eles não é igualitário”.
A estudante Maria Eduarda, de 21 anos, faz atividade física, acompanhamento com nutricionista e check up periódicos
“Penso que algumas especialidades poderiam ser ofertadas à população com maior eficiência de tempo, especialmente os problemas respiratórios, principalmente pós-pandemia. Nem todos têm a oportunidade de pagar um médico particular para serem atendidos prontamente”, destaca.
“Além disso, certos medicamentos para tratamento são caros e nem sempre disponíveis nas farmácias populares. Um estudo de campo seria eficaz para verificar, nos municípios brasileiros, as pessoas que mais necessitam de um auxílio médico atencioso”, complementa.
CUSTO ALTO E MENOR EFICÁCIA
Com exceção de doenças genéticas, como as neurológicas, tanto a OMS quanto pesquisas divulgadas nas revistas científicas The Lancet, Nature, entre outras, direcionam as causas dos males para um caminho: a sindemia, termo usado para um conjunto de problemas de saúde interligados, e que contribuem para a carga excessiva de doenças na população.
Esse quadro tende a reduzir a eficácia do tratamento e a aumentar os custos da saúde. “Más condições de todos os tipos são mais propensas a emergir sob situações de desigualdade causadas pela pobreza, estigmatização, estresse, violência estrutural e falta de acesso ao SUS e aos programas sociais”, explica a ex-presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica/Regional Minas Gerais (biênio 23/24), Aline Camille Yenia, também médica intensivista.
Para ela, as condições sociais aumentam a suscetibilidade e reduzem a função imunológica, contribuindo para a evolução das doenças. Quando o assunto são os programas de bem-estar social relacionados à saúde, o Brasil não chega a ser um exemplo, como aponta a presidente de honra da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Angélica Nogueira, também professora da UFMG. “O país tem uma taxa de cobertura para prevenção primária e de rastreamento muito abaixo do necessário”, destaca.
CÂNCER
Além disso, Angélica se diz preocupada com as estimativas, pois um número considerável das doenças é fator de risco para o câncer. “O cenário é realmente preocupante em relação ao número de casos. Em 2030, por exemplo, será a principal causa de morte por doenças no Brasil”, alerta.
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A presidente de honra explica que se os programas de prevenção fossem eficazes, algumas doenças já poderiam ter sido controladas. Ela cita o já existente controle do papilomavírus humano (HPV), principal causador do câncer de colo de útero. “Ele pode ser evitado com a vacina quadrivalente, distribuída gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças entre nove e 14 anos”, destaca. No entanto, a baixa adesão é só mais uma preocupação para incluir na lista de medidas a serem combatidas para diminuir as estimativas para 2050.
