É oficial: estamos mais próximos de 2050 do que do início do século. E o futuro, que já está logo ali no horizonte, não traz boas notícias. Em 2050 seremos mais de 4 bilhões de pessoas com sobrepeso ou obesidade, 1,3 bilhão de diabéticos, 152,8 milhões com demência e 35 milhões de pessoas terão algum tipo de câncer. O levantamento foi feito pelo Estado de Minas a partir de dados obtidos pelos principais órgãos de saúde do Brasil e do mundo (veja a arte), entre os quais a Organização Mundial de Saúde (OMS), a revista científica The Lancet e a Alzheimer's Diseases International.

Mas os números não param por aí. De acordo com a OMS, o câncer aumentará em 77% - serão 15 milhões de doentes a mais do que o registrado em 2022 (20 milhões), ou seja, uma em cada cinco pessoas desenvolverá câncer ao longo da vida; um quarto da população global - cerca de 2,5 bilhões de pessoas - viverá com algum grau de perda auditiva em 2050.

Com o aumento da expectativa de vida e o envelhecimento da população global, serão 25,2 milhões de pessoas no mundo diagnosticadas com Parkinson, um aumento de 112% em relação a 2021, segundo um estudo recente publicado na revista científica The BMJ.

Além disso, doenças ligadas à saúde mental terão uma escalada vertiginosa. Embora não haja uma estatística - atualmente não há dados exatos de quantos seres humanos estão ou estarão deprimidos e ansiosos -, a OMS já havia advertido que a depressão seria a doença mais comum do mundo em 2030. Prova disso são as publicações informando que a humanidade se tornou mais ansiosa após a pandemia da COVID-19.

Os transtornos mentais têm diversas causas, algumas delas biológicas, mas parte é decorrente de pressões ambientais, cada vez mais agressivas, e, obviamente, do estresse diário, ligado a problemas sociais e econômicos. Os transtornos mentais têm reflexo direto na saúde física. A dor lombar, por exemplo, chamada de lombalgia, já é uma epidemia mundial, afetando mais de 600 milhões de pessoas. Em razão da ansiedade, a tendência é de crescimento.

2 milhões de pessoas terão mais de 60 anos em 2050

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COMORBIDADES

Um levantamento da revista científica The Lancet mostra a ação das comorbidades (ocorrência de duas ou mais doenças relacionadas) sobre o corpo humano. Episódios de inquietação geram incômodos na região lombar, que são agravados por excesso de peso, sedentarismo e má postura. Isso sem falar que a depressão é vista como um fator de risco para o sedentarismo, que, por consequência, é uma das causas da obesidade.

Novas estimativas lançadas pelo Atlas Mundial da Obesidade 2026 focam na obesidade infantil e nas mudanças de hábitos associadas aos principais fatores da doença. Pelo menos 120 milhões de crianças em idade escolar, de 5 a 19 anos, apresentam sinais precoces de doenças crônicas causadas pelo IMC elevado, como doenças cardíacas, até 2040.

O risco de desenvolver sobrepeso na infância aumenta devido a diversos fatores conhecidos, incluindo o estado de saúde e os comportamentos de saúde das mães, os ambientes nutricionais iniciais e a prática inadequada de atividade física.


CANETAS EMAGRECEDORAS


Como parte de uma estratégia para evitar que essas projeções se concretizem, no ano passado a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a recomendar os hormônios análogos de GLP-1/GIP, popularmente chamados de canetas emagrecedoras, como parte do tratamento de longo prazo da obesidade.

A orientação se somou, um ano depois, à queda da patente da semaglutida, em março, à chegada das canetas nacionais, Olire e Lirux, e à inserção ainda inicial da semaglutida no sistema público de saúde do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, medida que contempla apenas três unidades do país e não significa que o fármaco esteja amplamente disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). Os desafios, no entanto, persistem e se somam às falsificações e à venda irregular no mercado paralelo.

Para a endocrinologista Mônica Tavares, da Med-Rio Check-up, a chegada desses medicamentos é, de fato, um divisor de águas que pode contribuir para uma possível redução das projeções, mas deve ser acompanhada de realismo, já que exige mudanças nos hábitos de vida.

“Eles atuam diretamente nos mecanismos da fome e da saciedade, promovendo perda de peso significativa e excelente controle glicêmico. Podem, sim, ajudar a desacelerar a curva, especialmente quando usados em pessoas com risco metabólico elevado. Mas a esperança precisa vir acompanhada de realismo: eles não funcionam sozinhos e não são para todos.”

“O medicamento isolado é como um colete salva-vidas: ajuda quem já está no mar agitado, mas não evita que as pessoas caiam na água”, exemplifica. A endocrinologista destaca que a estratégia deve combinar prevenção desde a infância, diagnóstico precoce para identificar o risco metabólico antes da instalação da doença, acompanhamento médico personalizado e políticas públicas que garantam acesso e regulação de alimentos. “Esses são os limites reais e não podem ser ignorados.”

Ela ainda destaca que o acesso ainda é muito restrito para obesidade, e o custo não é acessível para a maioria. “Além disso, a obesidade é uma doença crônica, o que significa que o tratamento, muitas vezes, é para a vida toda. E, talvez o mais importante, estudos mostram que, sem mudança de hábitos, a interrupção do medicamento leva ao ganho de peso na maioria dos casos. A droga não ensina a comer melhor nem a se movimentar; ela é uma aliada, não uma substituta”, enfatiza.

Soraia Piva

SAÚDE COGNITIVA

A escassez de recursos para tratar a maior parte das doenças também é um agravante frente a esse cenário. Por isso, esses estudos e estatísticas não apenas chocam, mas também mostram a magnitude dos desafios que a sociedade tem pela frente. Ainda mais se levarmos em consideração a estimativa da OMS de que a população mundial deve ultrapassar 9,7 bilhões de pessoas em 2050, entre as quais dois bilhões terão idade superior a 60 anos.

O neurologista Drusus Pérez Marques, ex-presidente da Sociedade Mineira de Neurologia (SMN), vê com preocupação o crescimento exponencial de doenças neurológicas, como Alzheimer, Parkinson e outras demências. “Até o presente momento, tanto o Alzheimer quanto o Parkinson são doenças que, do ponto de vista de tratamento, têm resultados frustrantes no sentido de mudar a história natural e retardar a progressão”, comenta.

No caso das demências, que afetarão 152,8 milhões de pessoas em 2050, elas são multifatoriais, sendo que o declínio cognitivo pode ser gerado pelas duas condições ou pela doença de Lewy (declínio cognitivo causado por alucinações visuais recorrentes, entre outros fatores) e até mesmo por uma deficiência de B12. "A causa mais comum de demência no Brasil é o Alzheimer, e a segunda é a demência vascular cerebral, sendo que esta última é prevenível", complementa.

Arquivo pessoal

""É importante aprender coisas novas, como um idioma, música, artesanato e até habilidades profissionais. Isso ajuda muito o cérebro, como se fosse uma ginástica""
por - Drusus Pérez Marques, neurologista

PREVENÇÃO

Drusus destaca que, por não haver tratamento específico e apenas medicamentos para os sintomas, o ideal é que a população se previna contra esses males com alimentação fresca, atividade física regular e intensa, atividades cognitivas regulares, qualidade do sono e socialização. “Por incrível que pareça, o cafezinho tem um fator de proteção contra a doença de Parkinson, então, quem não tem histórico de problemas cardíacos, pode virar amigo do café”, acrescenta.

“Tem também o excesso de telas”, relembra Drusus sobre os fatores de risco. A ciência, como ele cita, ainda não sabe quais são as consequências do hábito cada vez mais presente das telas na rotina e até na hora de dormir. No entanto, já se sabe que o aumento da miopia é explicado pela longa exposição aos meios digitais.

Uma recente pesquisa publicada na revista científica da Academia Americana de Oftalmologia, JAMA Open Space, mostra que o risco de a criança desenvolver miopia aumenta 23% após 60 minutos em frente às telas. O levantamento foi feito com mais de 300 mil crianças e também revela que o risco aumenta com até quatro horas de uso, quando a elevação do risco começa a ser gradual. Isso significa que, quanto maior a exposição às telas, maiores são os danos à visão.


ZOONOSES

Outra preocupação é a relação entre o corpo humano e o ambiente, que tem se tornado cada vez mais frágil diante de um planeta em rápida transformação. O aumento das temperaturas, o desmatamento, as alterações nos ciclos naturais e a migração de animais silvestres para áreas urbanas compõem um cenário propício a incômodos físicos e psicológicos, além de favorecer surtos de doenças infecciosas, como dengue, gripe aviária e até novos vírus com potencial pandêmico.

De acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de 2023, as emissões de gases de efeito estufa, o uso insustentável da terra e da energia, incluindo o desmatamento, aliados aos estilos de vida e aos padrões de consumo de países e indivíduos, alimentam o aquecimento global.

Além de eventos extremos, como enchentes no Sul do Brasil e períodos de seca, o aquecimento global e o desmatamento criam condições ideais para a proliferação de doenças transmitidas por vetores e animais, como arboviroses, além do aumento da presença de escorpiões, morcegos e macacos em áreas urbanas.

“O aumento da temperatura e a irregularidade das chuvas favorecem a reprodução do Aedes aegypti, o que eleva os casos de dengue, zika e chikungunya”, explica Gláucio Diré, biólogo e professor da Estácio e da UERJ. Ele ressalta que o negacionismo científico dificulta a compreensão, por parte da população, de como tudo está interligado na biosfera.

Com a maior proximidade entre humanos e animais silvestres, cresce também o risco de zoonoses, doenças transmitidas de animais para pessoas. “É o caso da raiva, da febre amarela e de possíveis novas doenças, como a própria COVID-19”, afirma o professor. “Há especulações de que o ‘ponto zero’ da pandemia esteja relacionado a esse desequilíbrio ambiental. Independentemente da origem exata, o risco existe e tende a crescer.”

Mais recentemente, a gripe aviária, a mpox e novas variantes da COVID reacenderam os traumas ligados à pandemia e reforçam as teorias dos pesquisadores. O vírus influenza, responsável pelos casos de gripe aviária (subtipo H5N1) no Brasil e nos Estados Unidos, apresenta alto grau de contágio entre aves domésticas e selvagens. “Pode atingir humanos que tenham contato com animais ou ambientes contaminados com relativa facilidade”, explica Gláucio. Ele destaca quatro dimensões do problema: a avicultura, a saúde pública, o impacto ambiental e o risco de pandemia.

“Em humanos, os casos ainda são raros, mas podem ser graves. A taxa de letalidade pode superar 50% dos casos conhecidos”, alerta. Em países com sistemas sanitários mais frágeis, como na Ásia e na África, o risco de mutações do vírus é ainda maior. Uma vez adaptado à transmissão entre humanos, o cenário pode se tornar crítico.

Já a mpox, responsável pela declaração de emergência feita pela OMS em 2024, é uma doença zoonótica causada pelo vírus MPXV. Sua manifestação mais característica são as lesões cutâneas, que apresentam alta carga viral e funcionam como importante via de transmissão. Na maioria dos casos, os sintomas desaparecem espontaneamente em poucas semanas. No entanto, em algumas pessoas, o vírus pode provocar complicações médicas e até levar à morte.

Recentemente, pesquisadores identificaram uma nova variante resultante da combinação genética entre linhagens dos clados 1 e 2. Casos foram detectados no Reino Unido, em dezembro de 2025, e na Índia, em setembro do mesmo ano. Embora os casos confirmados sejam considerados leves ou moderados, sem registro de óbitos, a dinâmica de infecção reforça a necessidade de vigilância contínua e da qualificação dos profissionais de saúde para evitar novos surtos. A infecção caracteriza-se por febre, dor de cabeça, lesões cutâneas e potencial transmissão em situações de contato próximo. Até o fechamento desta reportagem, o Brasil havia confirmado 185 casos de mpox apenas em 2026, além de 508 suspeitos, segundo o Ministério da Saúde.

A COVID-19 também segue apresentando novas variantes, sendo a mais recente a “Cicada”, ou BA.3.2. Ela não é exatamente nova: foi identificada pela primeira vez em novembro de 2024, no continente africano. No entanto, voltou a chamar atenção com o surgimento de novos casos em outros países, especialmente nos Estados Unidos, onde já há registro de circulação em pelo menos 29 estados. Os casos começaram a aumentar em setembro do ano passado.

A variante “Cicada” ainda não teve infecções confirmadas no Brasil. Há registros em 23 países, segundo dados atualizados pela última vez em fevereiro. De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), ela é descrita como “altamente divergente”. O principal ponto de atenção são as 70 a 75 mutações concentradas na proteína spike, estrutura que o vírus utiliza para invadir as células humanas.

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O CDC ressalta que, embora o escape imune possa aumentar a probabilidade de infecções, isso faz parte da evolução natural do vírus. A recomendação atual é manter as precauções padrão e focar na proteção de grupos de risco. “Neste momento, a COVID faz parte do nosso dia a dia, de forma semelhante à gripe”, afirma Neil Maniar, diretor de saúde pública da Northeastern University.

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