SAÚDE MENTAL

Alta de 44% nas lesões autoprovocadas por jovens no Brasil acende alerta

Na comparação entre 2013 e 2023, as internações por mutilação e tentativa de suicídio cresceram no país

Publicidade
Carregando...

Por Arthur Almeida - A infância e a adolescência representam fases delicadas da formação de uma pessoa: é durante esse período que a personalidade, as habilidades sociais e a resiliência costumam ser desenvolvidas. No entanto, essa efervescência emocional também torna os jovens mais vulneráveis diante de eventos estressores ou traumáticos.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

E, segundo estudo publicado em março nos Cadernos de Saúde Pública, o Brasil vive um momento crítico de crescimento nos casos de lesões autoprovocadas.

Por meio da análise de registros entre 2013 e 2023 do Sistema de Informações Hospitalares (SIH), que abrange principalmente dados do Sistema Único de Saúde (SUS), pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) identificaram que as internações relacionadas a esse tipo de ocorrência aumentaram em 44,3%, enquanto as mortes tiveram uma elevação de 26,3%. No total, o país documentou nessa série histórica 18.382 internações e 261 óbitos.

“Comportamentos autolesivos podem ser compreendidos como uma forma de lidar com um sofrimento emocional intenso, complexo e que não pode ser explicado por uma única causa”, analisa a médica Gabriela Garcia de Carvalho Laguna, que faz residência em Medicina de Família e Comunidade na UFSB e assina como autora correspondente do artigo. Vários fatores podem ter contribuído para o crescimento das internações e óbitos ao longo da década.

Os processos biológicos relacionados à construção da identidade e do senso de pertencimento são apenas a ponta do iceberg. De acordo com a Cartilha para prevenção da automutilação e do suicídio, do Ministério da Saúde, a vulnerabilidade de crianças e adolescentes aos sofrimentos psicológicos pode ser intensificada por negligência parental, conflito familiar, preconceito, exposição à violência (psicológica, física ou sexual), problemas de saúde, abuso de álcool e outras substâncias, privação de sono, transtornos mentais e até uso excessivo das redes sociais.

O acesso facilitado à tecnologia ajuda a aproximar pessoas e estimular conversas. Por outro lado, também pode criar ambientes hostis, marcados por isolamento, pressão estética e agressões recorrentes. “O bullying é muito mais do que ‘zoar’ e ser ‘zoado’. Existe uma violência, não apenas física, mas também psicológica, muito intensa. Há um estado de submissão ao agressor, em que a vítima se sente quase como refém”, pontua o psiquiatra Elton Yoji Kanomata, professor do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP), do Einstein Hospital Israelita.

Não à toa, a tendência de aumento das internações foi mantida praticamente durante toda a década. A única exceção é o ano de 2020, reflexo da subnotificação dos registros em meio ao enfrentamento da pandemia de COVID-19. “Provavelmente, os dados foram defasados pela sobrecarga dos serviços de saúde e pela redução do acesso a cuidados e redes de proteção, como as escolas”, avalia Gabriela.

“O maior número de mortes nesse ano sugere, porém, que os casos de autolesão foram mais graves, possivelmente associados às dificuldades de lidar com adversidades e gerenciar desafios psicossociais potencializados pela pandemia, incluindo isolamento social, dificuldades econômicas, conflitos interpessoais e maior tempo de uso das redes sociais.”

Do ponto de vista demográfico, o levantamento mostra que adolescentes de 15 a 19 anos, moradores das regiões Sul e Sudeste, foram os mais atingidos. Embora as internações tenham sido mais comuns entre o sexo feminino, os óbitos ocorreram com maior frequência entre os meninos, o que indica diferenças no padrão e na gravidade das tentativas de mutilação e suicídio.

Verificou-se ainda que pretos e pardos lideravam tanto os números de internações quanto os de mortes. Experiências de racismo, desigualdades socioeconômicas, desemprego parental e falta de acesso a direitos básicos, como saúde, educação, moradia e alimentação, foram diretamente relacionados ao sofrimento mental dessa população.

Sinais de risco e quando buscar ajuda

Alterações de humor, marcadas, sobretudo, por episódios de ansiedade, irritabilidade e tristeza, isolamento social, perda de vínculos de amizades, recusa em sair de casa, queda no rendimento escolar, diminuição de energia e aumento no tempo de consumo de telas são alguns dos sintomas típicos apresentados por pessoas em sofrimento psicológico. E merecem atenção.

Não existe um “passo a passo” para identificar se alguém está passando por algum tipo de vulnerabilidade emocional que pode levar a práticas de autolesão. Cada pessoa tem suas particularidades e, por isso, deve ser acompanhada considerando suas características específicas. Daí a importância da presença e participação de pais e mães no desenvolvimento infantil. “Devemos respeitar a privacidade e estimular a autonomia e a independência dos jovens, mas isso não significa não saber nada sobre a vida deles”, observa Elton.

Quando o sofrimento já é perceptível, mas não parece afetar a rotina, é recomendado que os responsáveis procurem conversar com professores e a coordenação pedagógica da escola. Assim, a instituição pode ficar mais atenta às dinâmicas do aluno frente à sala de aula e aos seus colegas.

Já quando o quadro apresenta maior gravidade, deve-se buscar ajuda profissional na área da saúde mental. Não existe um fluxo único a ser seguido: pode-se procurar por um psiquiatra ou um psicólogo. O ideal é que ambos sejam acionados, não necessariamente ao mesmo tempo.

“O direcionamento de políticas públicas para estratégias de prevenção na atenção primária pode contribuir para reduzir as internações hospitalares por autolesão, além de melhorar a qualidade de vida e a saúde mental dos jovens”, ressalta Gabriela Laguna. “Precisamos investigar situações de vulnerabilidade, como o bullying, e intervir precocemente, antes que a autolesão se estabeleça como mecanismo de enfrentamento.”

Também é essencial fortalecer a capacitação profissional para o acolhimento e manejo desses quadros, bem como ampliar programas de tratamento aos comportamentos autolesivos. Isso inclui, por exemplo, expandir o acesso ao suporte médico, psicológico e à psicoeducação, além de integrar iniciativas intersetoriais envolvendo escolas, organizações não governamentais e instituições privadas.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

“Sofrimento emocional todos nós enfrentamos. O grande desafio é diferenciar quando esse problema se torna desproporcional, gera dor intensa e leva à disfuncionalidade”, aponta Elton. “A partir do momento em que surgem sinais, é fundamental existir um canal de comunicação aberto entre pais e filhos, afinal, são eles que podem oferecer rede de apoio e auxiliar na busca por ajuda adequada.”

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay