Estimulação cognitiva melhora memória e saúde mental, aponta USP
Há poucos estudos com esse perfil no contexto brasileiro; entre os achados do estudo estão a redução nas queixas cognitivas e nos sintomas depressivos
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Há quem acredite que palavras cruzadas, caça-palavras e jogos dos sete erros sejam suficientes para manter o cérebro saudável. Embora essas atividades façam parte da rotina de muitos brasileiros, especialmente entre idosos, pesquisadores mostram que o cuidado com a saúde cognitiva pode ir além.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revelou que programas estruturados de estimulação cognitiva trazem benefícios significativos para a memória, a saúde mental e a qualidade de vida na terceira idade.
O que diz o estudo?
Publicado na revista International Psychogeriatrics, o estudo acompanhou mais de 200 pessoas com 60 anos ou mais ao longo de 24 meses. A pesquisa foi baseada em um ensaio clínico randomizado, controlado e cego - considerado padrão-ouro em estudos sobre intervenções em saúde.
Os participantes foram divididos em três grupos:
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Treino (GT): participaram do programa de estimação cognitiva
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Controle Ativo (GTA): assistiram a aulas sobre envelhecimento saudável
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Controle Passivo (GCP): não receberam intervenção
Todos os participantes eram idosos saudáveis, sem diagnóstico de comprometimento cognitivo ou demência. As avaliações ocorreram aos 6, 12, 18 e 24 meses, permitindo observar os efeitos ao longo do tempo.
O programa envolve atividades variadas, como uso de ábaco, exercícios de papel e lápis voltados para memória, linguagem e raciocínio, além de jogos de tabuleiro e dinâmicas em grupo. Esse formato multicomponente, que combina estímulos cognitivos, interação social e acompanhamento especializado, foi o foco da análise dos pesquisadores. O estudo amplia o entendimento sobre estratégias eficazes de cuidado com o cérebro e reforça a importância de intervenções baseadas em evidências científicas.
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Ganhos permanecem com o tempo
Segundo a gerontóloga e professora do Departamento de Gerontologia da USP, Thaís Bento Lima da Silva, uma das autoras do estudo, os efeitos positivos não se encerram com o fim das atividades. “O treinamento terminou no mês 18, mas no mês 24 os ganhos continuam presentes”, explica. Esse efeito é associado ao conceito de reserva cognitiva, uma espécie de proteção construída ao longo do tempo.
Ela destaca ainda que houve redução nas queixas cognitivas, como esquecimentos do dia a dia. “Observamos que os participantes tornaram-se mais autoconfiantes e mais dispostos a aprender coisas novas”, afirma. Segundo a pesquisadora, essa melhora se reflete em práticas da rotina, como lembrar compromissos, tomar medicamentos e manter relações sociais.
Impactos também na saúde mental
Outro destaque do estudo é o impacto positivo na saúde emocional. A participação em atividades em grupo favoreceu a socialização, ampliou redes de apoio e aumentou a motivação para sair de casa e realizar novas atividades.
Esse conjunto de fatores contribuiu para a redução de sintomas depressivos e aumento do bem-estar. “Observamos até um ganho de ânimo e alegria”, aponta a pesquisadora.
Entre os principais achados do estudo estão:
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Redução de 60% nas queixas cognitivas
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Melhora de cerca de 45% na memória ao longo de um ano
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Redução de 29% nos sintomas depressivos
Os dados reforçam a eficácia de intervenções não farmacológicas como estratégia de promoção, ou complementação, da saúde cerebral.
As pesquisadoras do estudo destacaram que as pesquisas com esse foco no contexto brasileiro ainda são escassas, o que reforça os resultados da pesquisa para a saúde pública e práticas já presentes no cotidiano.
Nesse contexto, a parceria com o método Supera também foi mencionada no estudo. “Nosso objetivo é nos manter pautados pela ciência. É a forma mais segura de verificar se um método ou hábito realmente dá resultados”, afirma Bárbara Perpétuo, vice-presidente do Supera - Estimulação Cognitiva. Ela destaca ainda que durante a pandemia foi observado um aumento no declínio cognitivo entre idosos, associado ao isolamento social, à ansiedade e à redução de estímulos. “A cultura da prevenção com abordagens multicomponentes pode mudar a forma de viver”, diz.
Envelhecimento saudável
O envelhecimento da população brasileira reforça a importância de estudos nessa área. Em 2022, o país tinha mais de 22 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, o equivalente a 10,9% da população. Já a população idosa com 60 anos ou mais de idade chegou a 32.113.490 (15,6%), um aumento de 56,0% em relação a 2010, quando era de 20.590.597 (10,8%).
No mundo, estima-se que cerca de 55 milhões de pessoas vivem com demência. No Brasil, calcula-se que haja 2,46 milhões de casos, número que pode ser ainda maior devido à subnotificação.
Por isso, a estimulação cognitiva é apontada como uma ferramenta importante para preservar autonomia, segurança e qualidade de vida na velhice. De acordo com a neurologista Sônia Brucki, também autora do estudo, o declínio cognitivo pode ser, em parte, prevenido. “O comprometimento cognitivo não deve ser normalizado no envelhecimento. Ele é evitável. Claro, nem todas as pessoas vão deixar de ter algum declínio, mas é possível reduzir essa proporção”, afirma.
Entre os principais fatores de proteção estão:
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Prática de atividade física e cognitiva
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Controle dos 14 fatores de risco para demência (ilustração abaixo)
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Alimentação equilibrada
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Boa qualidade do sono
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Além disso, é fundamental manter-se ativo intelectualmente, ou seja, aprendendo coisas novas, como leitura, jogos digitais, discussões, e participando de atividades prazerosas. “Encontre o que você gosta e acima de tudo, tenha objetivos e perspectivas. Em resumo, nunca pare”, recomenda Sônia.