O número de diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento tem crescido nos últimos anos no Brasil. Dados do IBGE indicam que milhões de brasileiros vivem com algum tipo de deficiência, incluindo condições intelectuais e transtornos do desenvolvimento. Paralelamente, aumenta a busca por avaliações clínicas diante de atrasos na fala, dificuldades de aprendizagem e alterações comportamentais.

Mas, afinal: estamos diagnosticando mais porque há mais informação ou estamos confundindo sinais do desenvolvimento infantil?

Para a fonoaudióloga Angelika dos Santos Scheifer, a linguagem costuma ser um dos primeiros alertas. “O atraso de fala é frequentemente o que leva os pais ao consultório. Mas ele pode ter múltiplas causas. Nem todo atraso significa autismo, mas dizer isso não significa que ele possa ser ignorado com a ideia de que ‘cada criança tem seu tempo’, todo atraso nos mostra que algo no desenvolvimento infantil não está correndo bem”, explica.

Segundo ela, observar contato visual, intenção comunicativa e interação social é essencial para diferenciar um atraso simples de um possível TEA, e lembra que existem outros transtornos do neurodesenvolvimento que são específicos à linguagem e fala, como TDL e TMF, que quando não diagnosticados e tratados trazem prejuízos e limitações reais em toda a vida.

A neuropsicopedagoga especialista em desenvolvimento infantil Silvia Kelly Bosi reforça que o tempo é determinante. “O cérebro infantil tem janelas importantes de plasticidade. Diagnóstico não é rótulo, é acesso à intervenção. Quanto mais cedo identificamos, maiores são as chances de promover autonomia e qualidade de vida.”

Além dos transtornos mais conhecidos, como o TEA, há casos em que atrasos globais podem estar relacionados a síndromes genéticas e doenças raras. O geneticista Paulo Zattar Ribeiro destaca que a investigação etiológica faz diferença no prognóstico e no aconselhamento familiar. “Em alguns casos, o atraso de linguagem ou cognitivo é apenas a ponta do iceberg. Identificar a causa genética permite direcionar melhor o tratamento e oferecer informações precisas à família.”

No campo emocional, a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan alerta para outro fenômeno: a patologização da infância. “Vivemos um momento de maior acesso à informação, mas também de excesso de rótulos. É preciso cuidado para não transformar qualquer dificuldade em diagnóstico, mas também responsabilidade para não negligenciar sinais importantes. O impacto emocional sobre a família é profundo.”

Para Natália Lopes, mãe atípica e fundadora do Voz das Mães, o desafio vai além da clínica. “Entre a suspeita e o diagnóstico existe uma jornada exaustiva. Existe culpa, medo e muita desinformação. A romantização que vemos nas redes sociais não mostra a rotina real de terapias, adaptações e sobrecarga.”

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Os especialistas defendem uma abordagem integrada, baseada em evidências científicas e atuação multiprofissional. A mensagem é clara: escutar a infância com atenção, sem alarmismo e sem negligência, é o caminho para garantir desenvolvimento saudável e apoio adequado às famílias.

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