O anúncio do lançamento do energético “Tadala”, edição limitada da marca Baly Energy Drink para o carnaval de Salvador, provocou ampla repercussão nas redes sociais e acendeu um alerta entre especialistas em saúde. A campanha faz alusão direta à tadalafila, medicamento de prescrição indicado para o tratamento da disfunção erétil e da hipertensão arterial pulmonar (HAP), o que motivou o repúdio do Conselho Federal de Farmácia (CFF).
Embora apresentado como uma propaganda, o uso de trocadilhos e referências explícitas a um fármaco, como a cor azul, levanta preocupações do ponto de vista sanitário e da saúde pública. Para o CFF, associar um medicamento a uma bebida recreativa, especialmente em um contexto festivo como o carnaval, contribui para a banalização do uso de fármacos e pode estimular a automedicação - prática considerada um problema histórico no Brasil.
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A tadalafila não é uma substância isenta de riscos. O medicamento atua no sistema cardiovascular e seu uso exige avaliação clínica prévia. Entre os possíveis efeitos adversos estão:
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Queda da pressão arterial
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Cefaleia intensa
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Alterações visuais
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Taquicardia
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Priapismo (ereção dolorosa, anormal e persistente não acompanhada de desejo sexual ou excitação)
Em situações específicas, pode haver eventos cardiovasculares graves, sobretudo quando há consumo concomitante de álcool ou interação com outros medicamentos, como os nitratos, utilizados por pessoas com doenças cardíacas.
Segundo o CFF, a mensagem implícita transmitida por campanhas desse tipo reforça no imaginário coletivo a ideia equivocada de que medicamentos podem ser usados de forma simples, segura e sem consequências. O alerta é ainda mais claro em ambientes como o carnaval, marcados por consumo excessivo de álcool, longos períodos de exposição ao calor e menor atenção aos sinais do próprio corpo.
“Medicamento não é produto de entretenimento, não é acessório de festa e não deve ser tratado como brincadeira”, destaca o Conselho. A entidade reforça que o uso racional de medicamentos pressupõe indicação correta, dose adequada, tempo de tratamento definido e acompanhamento profissional - princípios que se perdem quando fármacos são transformados em símbolos de marketing.
Resposta
Procurada, a Baly afirmou, em resposta ao Estado de Minas, que o produto não é um medicamento. “Referente ao nosso produto Baly Tadala, conforme consta no rótulo, não é um medicamento. É um produto incrível, com um sabor muito diferente de tudo que tem no mercado, com notas afrodisíacas e picantes, que em breve chega aos pontos de venda”, informou a marca.
Apesar da afirmação, especialistas apontam que a referência direta ao nome de um medicamento de prescrição é, por si só, problemática. Para o CFF, cabe às autoridades sanitárias acompanhar e avaliar campanhas publicitárias que flertam com a medicalização do consumo recreativo, sobretudo quando podem induzir comportamentos de risco.
Uso fora da indicação
Além da polêmica envolvendo o energético, a tadalafila tem sido alvo de outro fenômeno preocupante: o uso indevido em academias. Frequentadores passaram a consumir o medicamento com a justificativa de que sua ação vasodilatadora, resultado da inibição da enzima PDE-5 e do aumento do fluxo sanguíneo, poderia melhorar o desempenho físico.
A dose utilizada nesses casos costuma ser de 5 mg ao dia, inferior à dose de 20 mg indicada para disfunção erétil. Ainda assim, médicos alertam para a falta de evidências científicas que sustentem esse uso. Um estudo publicado no “British Journal of Sports Medicine" avaliou os efeitos de uma dose única de tadalafila em atletas saudáveis e não encontrou impacto significativo na performance esportiva.
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Para o CFF, esse cenário reforça a necessidade de educação em saúde e do fortalecimento do papel do farmacêutico como agente fundamental na orientação da população. “É esse profissional que esclarece riscos, identifica interações medicamentosas e atua como uma das principais barreiras contra o uso inadequado de medicamentos.”
