O lado positivo do carnaval: economia em alta e saúde mental fortalecida
Além de movimentar bilhões na economia, a maior festa popular do Brasil oferece benefícios comprovados cientificamente para o bem-estar psicológico
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O carnaval brasileiro vai muito além da folia, do samba e das cores vibrantes. Enquanto milhões de pessoas se preparam para os blocos, desfiles e festas de rua, dados recentes revelam que a celebração é um potente motor econômico e, ao mesmo tempo, um aliado da saúde mental. Seja dançando no meio da multidão ou aproveitando o feriado para descansar, a festa popular traz impactos positivos que a ciência já comprova.
No campo econômico, as projeções para 2026 são recordes. Segundo estimativas da FecomercioSP e da Confederação Nacional do Comércio, o carnaval deve movimentar R$18,6 bilhões apenas em fevereiro, com 65 milhões de foliões em todo o país – crescimento de 10% em relação ao ano anterior. No Rio de Janeiro, o governo estadual estima impacto de R$10 bilhões na economia, com geração de 50 mil a 70 mil empregos diretos e indiretos em setores como turismo, comércio, serviços, logística e cultura. Estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV) reforçam o poder multiplicador: cada real investido em cultura, incluindo o carnaval, pode retornar até R$7,59 para a sociedade em forma de empregos e renda, superando o multiplicador de R$3,76 observado no setor automobilístico.
Esse retorno não se limita aos grandes centros. Em todo o Brasil, o evento aquece pequenos negócios, hotéis, bares, restaurantes e o comércio informal, gerando renda imediata para milhares de famílias e contribuindo para a inclusão social. O carnaval consolida a economia criativa como estratégia de desenvolvimento sustentável.
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Benefícios para a saúde mental
Mas o grande diferencial da festa vai além dos números financeiros. Especialistas em saúde mental destacam que o carnaval promove bem-estar psicológico de formas distintas, dependendo do estilo de cada um. O professor Rodrigo Nicolato, do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, explica que a interação social durante a folia – reencontros com amigos, novos contatos e o convívio coletivo – fortalece o senso de pertencimento e reduz sentimentos de isolamento, especialmente após períodos de restrições. “A música conecta gerações, promove celebrações alegres e impacta positivamente o cérebro”, afirma o especialista. As fantasias permitem um escape lúdico do estresse diário, liberando a criatividade e aliviando a pressão social de forma leve e divertida.
Rodrigo Nicolato também observa que o carnaval faz bem à saúde mental das crianças. Além de verem os pais felizes e aproveitando, elas participam das festas, saem de casa, fazem novas amizades e se desconectam um pouco do mundo virtual. "Por que não deixar as redes sociais de lado e ir para a rua com segurança? Existem blocos infantis e familiares que se adaptam ao estilo delas. As crianças acabam gostando de samba e das músicas, e esses momentos ajudam a formar adultos mais saudáveis e felizes".
A ciência corrobora esses efeitos. Uma revisão sistemática de 27 estudos, envolvendo 1.392 participantes, publicada em 2025, concluiu que dançar é tão eficaz quanto o exercício físico convencional para o cérebro e a saúde mental – e, em alguns aspectos, superior. A prática libera endorfinas, serotonina e dopamina, neurotransmissores associados ao prazer, ao humor elevado e à redução de estresse, ansiedade e sintomas depressivos. Além disso, melhora a função cognitiva, a motivação, a autoestima, a socialização e as relações interpessoais. O estudo destaca que dançar em grupo potencializa esses benefícios, criando um senso de comunidade que a folia carnavalesca proporciona naturalmente.
O relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2019, que analisou mais de 900 publicações globais, reforça o papel da arte: atividades como dança e música melhoram a saúde mental e física, reduzem ansiedade, dor e pressão arterial, e apoiam o tratamento de condições como demência e Parkinson. Em contextos de celebração coletiva, como festivais e carnavais, estudos internacionais mostram que participar de eventos com música ao vivo aumenta em mais de 20% a sensação de bem-estar percebido, eleva a autoestima em 25%, fortalece laços sociais e proporciona estímulo mental significativo.
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Descanso também cura
Para quem prefere o lado mais tranquilo da data, o carnaval também faz bem. O professor Nicolato ressalta que o feriado permite romper com a rotina estressante do dia a dia, seja ficando em casa, assistindo filmes, recebendo amigos ou viajando. Benefícios semelhantes aos das férias são amplamente documentados: o descanso reduz o cortisol (hormônio do estresse), melhora a qualidade do sono, restaura energias mentais e previne o esgotamento. Pesquisas sobre pausas prolongadas indicam ganhos em clareza mental, criatividade e equilíbrio emocional – exatamente o que muitos buscam no “carnaval do sofá”.
Consagração do espírito na alegria coletiva
Nas religiões de matriz africana, como candomblé e umbanda, o carnaval não é visto como oposto à espiritualidade, mas como uma extensão dela. A festa representa uma descarga energética coletiva, um momento de circulação do axé – a força vital ancestral –, onde o corpo dança, a memória se move e a resistência se manifesta nas ruas. Os ritmos dos tambores, as homenagens aos orixás nos enredos das escolas de samba e os blocos afros transformam a folia em celebração da ancestralidade negra, reafirmando identidade, pertencimento e vitalidade espiritual. Muitos praticantes participam com consciência, proteção e firmeza espiritual, vendo na alegria compartilhada uma forma sagrada de honrar a vida, dissolver tensões e renovar energias. Assim, o carnaval se torna uma consagração do espírito: um território onde o sagrado pulsa no profano, unindo fé, luta e celebração em um grande ato de afirmação cultural e existencial.
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