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Estado de Minas SÉRIES

Dilemas morais em McMillions

Produção documental da HBO retrata a história delirante de fraude em uma das ações de marketing mais conhecidas do McDonald's nos Estados Unidos, o jogo Banco Imobiliário


postado em 08/03/2020 04:00

McMillions mostra que US$ 24 milhões foram desviados da campanha em que o consumidor poderia ganhar batata frita ou até US$ 1 milhão(foto: Daniel Boczarski/HBO)
McMillions mostra que US$ 24 milhões foram desviados da campanha em que o consumidor poderia ganhar batata frita ou até US$ 1 milhão (foto: Daniel Boczarski/HBO)

A história por trás de McMillions – série documental da HBO também disponível no streaming – é intricada e precisa de um contexto para espectadores não americanos. É o seguinte: entre os anos 1980 e o início dos 2000, uma das ações de marketing mais conhecidas do McDonald's nos Estados Unidos era o seu jogo de Monopoly (Banco Imobiliário). Como na experiência de tabuleiro, o objetivo do jogo era acumular propriedades e riquezas, que podiam ser trocadas por prêmios – de uma porção de batata frita até US$ 1 milhão. As peças eram coladas nas embalagens dos produtos vendidos nas lojas e também em outros suportes, como revistas.

O problema é que por mais de 10 anos o esquema foi manipulado: alguém surrupiava as peças vencedoras e distribuía para membros da família, amigos e eventualmente sócios no "esquema". Exatos US$ 24 milhões foram "desviados" dos arcos dourados do McDonald's. A série é produzida por Mark Wahlberg e dirigida por James Lee Hernandez e Brian Lazarte, e teve seus primeiros episódios exibidos no Festival de Cinema de Sundance, no final de janeiro.

"Nenhum tipo de instituição jamais tinha oferecido isso: prêmios no valor de US$ 1 milhão apenas por comprar uma batata frita ou um refrigerante por 99 cents", explicou Lazarte. "Era um fenômeno cultural. As pessoas viajavam para McDonald's em diferentes cidades, fazendo 'road trips' para recolher as peças necessárias." Hernandez conta que o jogo fez parte da sua infância – a ponto de seu primeiro trabalho, aos 16 anos, ter sido em um dos restaurantes da rede. "Quando soubemos que existia uma fraude, quisemos simplesmente mergulhar de cabeça no assunto."

O documentário conta: em 2000, o FBI recebeu uma pista anônima de que um tal de "Tio Jerry" estava roubando, internamente, as peças do jogo e as vendendo, comprometendo a campanha nacional do McDonald's. Uma investigação foi lançada – e entre uma operação secreta com agentes disfarçados e uma nova campanha de marketing, desta vez acompanhada pelas autoridades para pegar os salafrários no flagra, o julgamento para o caso começou em 10 de setembro de 2001. Os acontecimentos em seguida também já se concluíram, mas a reportagem  vai evitar spoilers para o espectador pouco familiarizado com a história, que tem lados mirabolantes, explorados à exaustão em McMillions.

INOCÊNCIA PERDIDA

Um achado importante foi um homem chamado Doug Matthews – um dos agentes do FBI que participou da investigação – carismático e bonachão. Os dois diretores concordam que a história pode parecer inocente. Por que investigar e dedicar tanto tempo e dinheiro numa produção sobre o assunto? "Bom, primeiro porque é uma história divertida, e diz muito respeito à nossa infância", diz Lazarte. "Mas acho que pode representar também um marco da última década 'da inocência' da América, justamente por ter acontecido logo antes do 11 de setembro. Os americanos viviam numa bolha que foi rompida pelos ataques terroristas."

James Lee Hernandez também comenta que foi interessante explorar os dilemas morais de muitas das pessoas envolvidas no esquema. "Existia uma pergunta: 'Será que posso simplesmente levar essa grana, porque não vai machucar ninguém? É um crime sem vítimas, é um apenas um jogo...'". Mesmo assim, a série evidencia que mesmo pequenas ações fora da lei podem ter consequências complicadas. (Estadão Conteúdo)

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