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Estado de Minas COVID-19

Esportistas e profissionais da saúde temem volta das torcidas

Prefeitura do Rio liberou os jogos com público nas arenas a partir de 10 de julho, mas decisão foi contestada pelo risco que representa


postado em 29/06/2020 04:00 / atualizado em 28/06/2020 23:36

Jogadores entraram em campo com faixa de protesto afirmando que as vidas são mais importantes que o futebol(foto: Vitor Silva/Botafogo/Divulgação)
Jogadores entraram em campo com faixa de protesto afirmando que as vidas são mais importantes que o futebol (foto: Vitor Silva/Botafogo/Divulgação)


A decisão da Prefeitura do Rio de liberar jogos de futebol com público a partir de 10 de julho, em plena pandemia da COVID-19, causa muita preocupação tanto em gente ligada ao esporte quanto aos profissionais da saúde. Todos alertam para o risco de disseminação do novo coronavírus, ainda que haja protocolo de segurança a ser seguido.

Em um primeiro momento, o decreto municipal permite que as arenas recebam torcedores até um terço de sua capacidade. O estádio do Maracanã, por exemplo, pode acomodar até 22 mil pessoas. São Januário, 7 mil torcedores. E no Engenhão, 14 mil. “E uma situação muito complicada, ainda estamos com curva de contágio em ascendência, os números de infectados e mortos só aumentam. E sabemos que o vírus fica viável em alguns locais por mais de uma semana. E no ambiente de futebol as pessoas gritam, os perdigotos podem se propagar com mais facilidade. Um torcedor fica abaixo do outro. É uma situação crítica”, afirma a virologista Jordana Coelho dos Reis.

Ela não é contra a volta do futebol, até por entender que é um esporte importante para muitas pessoas e pode ajudar na saúde mental delas. Porém, não acha que seja o momento de ter audiência nos estádios, ainda que todos os cuidados sejam tomados. “Não há como garantir a segurança, estamos muito preocupados. Teria como diminuir o impacto disponibilizando álcool em gel na arquibancada, o sistema de segurança exigir uso de máscara, garantir distanciamento, banheiros em funcionamento perfeito. Mas será que vamos conseguir, é exequível?”

As reações à decisão da Prefeitura do Rio, imediatamente encampadas pela Federação de Futebol do Estado do Rio (FFERJ), foram imediatas e partiram de vários lugares do Brasil. Muitos torcedores lembraram que em países em que a situação da COVID-19 está bem mais controlada, como Alemanha, Itália, Inglaterra e Espanha, o futebol voltou, mas sem público nos estádios. “Alô, @Prefeitura_Rio e @FFERJ, com essa volta do público no futebol carioca, sugiro uma promoção: o torcedor que adquirir ingresso concorre ao sorteio de um plano de auxílio-funeral”, escerveu o historiador, professor, compositor e escritor carioca Luiz Antônio Sima, referindo-se aos riscos que quem for ao estádio correrá.

Entre os próprios clubes há quem seja contra a medida. O presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, por exemplo, disse, em entrevista ao Estado de Minas, que só é favor da volta do futebol com o aval das autoridades sanitárias. E que não conta com público nos estádios em 2020, ainda que isso não seja interessante financeiramente para a Raposa. Pensa até em mandar jogos em locais mais baratos que o Mineirão. Marcus Salum, do América, acredita que tudo tem de ser feito com o máximo de respeito a jogadores e também ao torcedor. Então, acredita que ainda haverá muita discussão antes de que se possa permitir a entrada de torcedores nos locais do jogos.

PROTESTOS Ontem, no retorno do Botafogo aos gramados, chamou mais atenção os protestos do que a goleada por 6 a 2 sobre a Cabofriense, no Engenhão. O clube carioca é contra a retomada das partidas neste momento em que a pandemia ainda não está controlada no Rio de Janeiro e no país, e os atletas entraram em campo com uma faixa em que estava escrito: “Protocolo bom é o que respeita vidas”.

Além disso, o técnico Paulo Autuori preferiu não participar do jogo, em sinal de protesto, e acompanhou a partida das cabines, deixando o auxiliar Renê Weber no gramado. O treinador havia sido suspenso pelo TJD do Rio de Janeiro por 15 dias após criticar a Ferj em uma entrevista, mas obteve liminar concedida pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) para dirigir o time. Mesmo assim, preferiu ficar de fora.

“O Botafogo retorna triste, foram mil mortos em 24 horas. A gente só ouve falar de futebol no Rio, todo o restante preocupado com a doença, nosso técnico sob protesto, não aceitando essa situação, jogadores preocupados...”, disse Carlos Augusto Montenegro, ex-presidente e atual membro do comitê gestor do Botafogo.

Outro clube contrário à volta do futebol agora, o Fluminense, entrou em campo para enfrentar o Volta Redonda, no Engenhão, com uniforme preto em sinal de luto pelas mais de 50 mil vítimas do novo coronavírus no Brasil. E atuou com de camisa branca e com uma mensagem no peito agradecendo os profissionais de saúde que estão na linha de frente nesta pandemia.

“Dia de jogo sempre foi e sempre será o melhor dia das minhas semanas. Hoje, pela primeira vez, saio de casa triste para ver meu tricolor. Jogadores de máscara, estádio sem público e um campeonato que volta às pressas, sem sabermos que interesses querem atender. Milhares de pessoas ainda morrem no Brasil, enquanto somos obrigados a jogar futebol sem nenhuma segurança”, escreveu, em uma rede social, o presidente do Tricolor, Mário Bittencourt.

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