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Estado de Minas COVID-19

Sem jogos, árbitros mineiros precisam se desdobrar para garantir renda

Juízes que atuam no futebol amador aguardam ajuda da Federação Mineira de Futebol para repor perdas financeiras com a suspensão de campeonatos


postado em 04/04/2020 04:00

Antônio Carlos Barbosa viu a renda cair com a suspensão das partidas e a proibição de funcionamento da loja que possui no Bairro São Paulo(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Antônio Carlos Barbosa viu a renda cair com a suspensão das partidas e a proibição de funcionamento da loja que possui no Bairro São Paulo (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)


Os campos de terra de Minas Gerais se tornaram a “segunda casa”, nos fins de semana, de Antônio Carlos Barbosa, de 36 anos. Há um ano e meio, ele concilia a função de árbitro amador da Federação Mineira de Futebol (FMF) com a loja de chaves e manutenção para celulares que tem no Bairro São Paulo, Região Leste de Belo Horizonte. Nos últimos dias, porém, a rotina de viagens pelo interior, estádios pequenos e gramados irregulares deu uma pausa, diante da suspensão de eventos esportivos para evitar aglomeração de pessoas e, consequentemente, a disseminação da COVID-19. Com a paralisação do futebol, a renda do árbitro também diminuiu, uma preocupação a mais nesse período de pandemia.

Antônio Carlos apitou em várias cidades, como Brumadinho, Ravena Nova Lima, Ubá e Sabará. Recebe, em média, R$ 150 por partida, mas, quando há rodada dupla nas tardes de domingo, o cachê aumenta para R$ 225. Nos meses mais movimentados, chegou a receber R$ 1 mil. No entanto, vem sofrendo com os efeitos da crise econômica, que atingiu também diversos setores no Brasil.

Ainda foi prejudicado pelo decreto assinado pelo prefeito Alexandre Kalil, proibindo o funcionamento de lojas, bares e restaurantes. “Por causa do coronavírus, ficamos muito afetados. O cachê de árbitro complementa muito meu ganho mensal. Tenho alguns compromissos e contava com essa taxa para colocar tudo em ordem”, afirma Antônio Carlos, que relata cenário ainda pior de alguns colegas de profissão: “Muitos árbitros vivem dessa taxa. Acredito que deva estar um caos para todos com o fim dos jogos”.

Se os árbitros do estado passam dificuldade, aqueles que pertencem ao quadro da CBF e da Fifa terão a ajuda de uma taxa de jogo durante a pandemia. O valor a ser recebido será definido segundo a categoria em que o juiz tiver apitado em 2019. Integrante do quadro da CBF que tenha conduzido uma partida de Série A, por exemplo, receberá R$ 3,6 mil – os do quadro da Fifa embolsarão R$ 5 mil. O de Série B ganhará R$ 2,6 mil, enquanto os da séries C e D terão ajuda de R$ 1,4 mil e R$ 975, respectivamente. O pagamento será efetuado neste mês.

Em Minas, a FMF estuda uma forma de recompensar os árbitros amadores e os do quadro estadual no período em que estiverem parados. “Contamos com cerca de 150 árbitros amadores e da própria entidade. Conversei com o presidente (da FMF), Adriano Aro, e ele espera um suporte da CBF para ajudar a nossa federação, que passa por problemas financeiros, já que os campeonatos estão paralisados. Se tivermos essa ajuda, não mediremos esforços para ajudar os árbitros”, garante o presidente da comissão de arbitragem da FMF, Juliano Lopes Lobato.

Enquanto o auxílio não é consolidado, o Sindicato dos Árbitros de Minas Gerais passou a distribuir cestas básicas aos que dependem exclusivamente do pagamento recebido por partida.

Saúde

Os ganhos mensais dos árbitros não são fixos, dependendo do número de jogos apitados nos meios e fins de semana. Felipe Soares Rios, de 37, há cerca de duas décadas vive essencialmente do apito na várzea e nas categorias de base. Na melhor das hipóteses, chega a trabalhar em seis jogos por mês, recebendo de R$ 150 a R$ 400 por partida. Sem calendário, complementa sua renda com o trabalho de motoboy, nos serviços de delivery.

Apesar da perda, ele considera que zelar pela vida também é importante nesta grave pandemia: “Para nós que vivemos basicamente do futebol, o efeito é grande com a falta de jogos. A questão financeira é muito importante, porque ninguém consegue viver sem receita. Mas tem a questão de preservar a saúde da nossa família, o que é essencial neste momento”.

Já o assistente Marcos Vinícius Moura, de 27, que trabalha há três anos em jogos de base e amadores, seguirá seu dia a dia no trabalho de funcionário público em Nova Lima. Mesmo não dependendo muito da taxa de arbitragem, ele afirma que a paralisação dos torneios trouxe prejuízo: “Se você não apita, não ganha. Até consigo driblar um pouco a situação, pelo fato de ter outro trabalhar, mas é complicado”.

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