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Estado de Minas ARTIGO

Futebol-arte ou futebol-verdade? O árbitro de vídeo entre Nietzsche e Platão

A questão agora é que buscamos uma verdade absoluta, mediada pela técnica. O racionalismo platônico-ocidental invadiu os campos de futebol


postado em 01/09/2019 04:00 / atualizado em 31/08/2019 21:47

Consultas ao árbitro de vídeo (VAR) têm provocado polêmicas entre os torcedores(foto: FETHI BELAID/AFP %u2013 1/6/19)
Consultas ao árbitro de vídeo (VAR) têm provocado polêmicas entre os torcedores (foto: FETHI BELAID/AFP %u2013 1/6/19)

O juiz apita, mas ainda não podemos comemorar. Ele, religiosamente, se afasta dos mortais jogadores. Ao colocar a mão no ouvido, ele espera a resposta oracular dos deuses do futebol, que agora estão nas cabines superiores. Tudo está em suspenso. Tenho tempo de sobra para ir em direção à geladeira e abrir mais uma cerveja. Corro os olhos na estante de livros. O futebol agora dá até tempo para aquela melancolia filosófica. No estádio ainda é pior, pois não tem a cerveja!

Fico pensando onde foi que erramos. Até aceito o futebol como esporte de alto desempenho, tudo bem até aí. As futuras lesões podem ser quantificadas. Sem problemáticas, apenas solucionáticas. O ideário cientificista, positivista, invade os centros de treinamentos e não temos mais atletas, mas máquinas que podem ser melhoradas a cada momento. Uma espécie de laboratório de ciências. Tudo em busca do ideal platônico de perfeição! Lembro de meu pai, citando Chaplin: “És um homem. Máquina é que não sois! (só mais tarde descobri que essa frase é do filme O grande ditador)”. Mas até aí tudo ia relativamente bem.

O que me incomoda mesmo, agora, é esta sede de verdade que invadiu o futebol. E não qualquer verdade. Antigamente, era a minha verdade contra a sua verdade. Meu time era melhor do que o seu e o seu time era melhor do que o meu. E isso rendia várias cervejas. A questão agora é que buscamos uma verdade absoluta, mediada pela técnica. O racionalismo platônico-ocidental invadiu os campos de futebol, e essa busca por uma unidade definidora das coisas desconsidera a multiplicidade de eventos que necessita da fluidez do jogo para existir. Desculpem-me os tecnocratas do futebol, mas a beleza é fundamental! O futebol não é uma busca racional pela verdade, mas uma trajetória estética em busca da beleza, seja o que esse conceito significar para cada um.

O filósofo Nietzsche, conhecido por suas críticas ao racionalismo platônico, nos diz que “temos a arte para não morrer da verdade”. Resgato essa frase para ressuscitar o futebol. Futebol é arte, paixão, emoção, grito, desespero, alegria, tristeza. O VAR desmaterializou o ímpeto profundo, que sobe das entranhas, e toma a forma do grito de GOL!! Futebol não é ciência!

O fato é que continuaremos na resistência nietzschiana frente a esses escravos da velha verdade. Vamos amar o futebol como ele é! Com erros do juiz, gol de mão, cartão mal aplicado e tudo mais. Por isso, nas mesas de boteco, celebrando Dionísio, ainda discordaremos do tal de árbitro de vídeo, xingaremos o juiz e diremos que tudo foi comprado, como uma grande armação imperialista para tirar nosso time da competição. Continuaremos em busca da beleza, e não da verdade.
 
* Renato de Faria 
Filósofo. Mestre em ética e doutorando em educação. Apaixonado por futebol 



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