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O pagador de promessas

Markin, quando a gente passar, prometo, oferecerei a você um Black Label paraguaio envelhecido na estante do boteco aqui do lado. Obrigado, camarada


postado em 06/04/2019 05:09



O Atlético está classificado para as oitavas de final da Libertadores. A culpa é de Marcus Vinicius Medeiros Coelho, o galo doido pagador de promessas. Markin, morador de Justinópolis, distrito de Ribeirão das Neves, filho de atleticano, neto de atleticano, bisneto de atleticano, tataraneto de atleticano, namorado de uma cruzeirense, prometeu e cumpriu. Se o Galo virasse, tatuava um Patric. O Galo virou. Markin fez um Patricão e um escudugalo no braço esquerdo. O Atlético está classificado.

Promessa não é dívida, porque dívida você rola, enrola, dá o cano, depois resolve com o Serasa. Promessa se paga. Telê prometeu caminhar a pé de Belo Horizonte a Congonhas do Campo depois do título brasileiro de 1971. Abordado no trajeto por milhares de atleticanos que voltavam do Rio pela 040, vindos da peleja derradeira contra o Botafogo, a caminhada não progredia a contento. Quando de repente viu-se apenas acompanhado do jornalista Nirlando Beirão, teve a ideia de tomar um táxi. Desembarcou às portas da cidade e foi recebido como um Amir Klink depois de cruzar o Atlântico de caiaque. Fake news!

Até que se livrasse da uruca pela promessa não cumprida, perdeu as Copas de 82 e 86, foi eliminado com o Galo da Copa União numa das jornadas mais tristes do ludopédio nacional. O Atlético, então, comeu o pão que o diabo amassou: 77, 80, 81, 85, 87, 96, 2001, 2005, 2012. Até que o sósia de Karl Marx, o homem lá em cima, perguntou a algum assistente sentado com Ele na nuvem: “Quem é aquele pessoal ali embaixo, naquele limbo?”. “São os atleticanos, Senhor”. “Uai, tinha esquecido desse povo”. Neste exato momento, como um encosto do bem, incorporou-se à perna esquerda de Victor, la canhota de Diós.

Markin é um rapper já meio desapegado da cantoria, falei com ele ontem pela manhã. Faz administração de empresas na Una, um batalhador. Acha que o Patric é “injustiçado igual o Galo”, que o bullying do qual é vítima “é racista, mano”, que “eu mesmo já zoei, mas o cara é guerreiro”. Desliguei o telefone pensando em tatuar meu próprio Patric, esse Deus da raça e da disposição, um Dinho, um Miranda, um Richarlyson a não desistir jamais da utopia de tornar-se Leônidas da Silva, o Diamante Negro inventor da bicicleta.

Na quarta-feira passada, o Atlético fez o pior primeiro tempo de uma década inteira, quiçá desde o time de Tite em 2005 não se via coisa mais medonha. Não havia – e não há – qualquer esquema de jogo. A gente não queria o Galo Doido? Aí está. Só que no lugar da doidera produtiva de alguns anos atrás, quando tínhamos elenco pra qualquer maluquice, agora nos assemelhamos à ala manicomial do governo – nada se produz, a não ser o caos, e não há gardenal capaz de reverter a situação.

Havia me esquecido, porém, que o revés por 2 a 0 é a nossa senha pra falar com Deus. Se eu fosse adversário do Atlético jamais me arriscaria a fazer o segundo, armaria uma retranca contra mim mesmo, botaria o meu zagueiro pra marcar o meu próprio centroavante. O Zamora, no entanto, foi com demasiada sede ao pote, e deu no que deu.

Luan foi o melhor em campo e levou o Motorádio. A moto ele deu para o Fábio Santos, que ao final, espera-se, livrou-se de toda a inhaca. O rádio ofereceu a Levir, um inconteste burro com sorte, eu desisto de criticar sua incapacidade inclusive como distribuidor de camisas. O abraço de Patric no Fábio Santos, depois do pênalti, é tudo que se pode almejar de nossas conges.

Bem, o Markin foi o melhor fora de campo, não há dúvida. Tivesse fraquejado no cumprimento de sua promessa, uma façanha apenas para os fortes, estaríamos condenados à inevitável derrota para o Cerro quarta que vem. Mas Markin não foi nada político: prometeu, e fez. Estamos classificados. Markin, quando a gente passar, prometo, oferecerei a você um Black Label paraguaio envelhecido na estante do boteco aqui do lado. Obrigado, camarada. Galo sempre!


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