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Estado de Minas ELEIÇÕES

Com nova tática, além das motociatas, Bolsonaro busca eleitores pelo rádio

Para correr atrás do eleitor e tentar desconstruir repercussões negativas, Bolsonaro cria maratona de entrevistas a emissoras do interior


08/08/2021 04:00 - atualizado 08/08/2021 07:42

Bolsonaro conduziu motociata pelas ruas de Florianópolis, onde voltou a desferir ataques ao Supremo e pediu voto impresso(foto: Jerônimo do Carmo/Ishoot/Estadão Conteúdo)
Bolsonaro conduziu motociata pelas ruas de Florianópolis, onde voltou a desferir ataques ao Supremo e pediu voto impresso (foto: Jerônimo do Carmo/Ishoot/Estadão Conteúdo)


Brasília – Depois de reinar nas redes sociais, que ainda mobilizam grande parte dos seus apoiadores mais radicais, há cerca de três semanas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) resolveu mudar a política de comunicação do governo.

Se antes as entrevistas eram concedidas a conta-gotas, agora, o mandatário investe em declarações diárias a emissoras de  rádio do interior do país como canal alternativo e com a intenção de ampliar o número de eleitores. É ainda uma estratégia complementar à conversa que mantém no chamado “cercadinho”, aquela transmitida por canais bolsonaristas na internet.

Porém, especialistas ressaltam que a tática não será suficiente para garantir a reeleição no próximo ano e que ele precisará apresentar programas sociais expressivos e melhora na economia.
 
Pressionado pela popularidade em baixa e tendo seu principal opositor político, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na liderança das pesquisas de intenção de voto, o mandatário também tem acenado ao eleitorado. A primeira entrevista da nova estratégia de comunicação ocorreu no dia 20 de julho à Rádio Itatiaia, de Minas Gerais, um dia após ter conversado com o programa de TV, “A Voz do Brasil”, da estatal Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
 

"Ele tem apresentado a sua defesa tentando eliminar a imagem de mandatário relapso na pandemia e no envolvimento em suposta corrupção"

Vera Chemim, mestre em direito público pela FGV

 
 
Nos dias seguintes, Bolsonaro concedeu entrevistas à Rádio Jovem Pan de Itapetininga, São Paulo; à Rádio Banda B, de Curitiba (PR), e à Rádio Grande FM, de Dourados (MS), respectivamente. A duração das entrevistas varia de 10 minutos a uma hora. Elas têm sido transmitidas pelo Facebook do chefe do Executivo. No fim de julho, ele falou à Rádio Arapuan, de João Pessoa (PB), à Rede Nordeste de Rádio, à Rádio Cidade Luís Eduardo Magalhães (BA) e à Rádio 89 FM de São Paulo.
 
Em entrevista transmitida pela Rede Nordeste de Rádio, Bolsonaro confirmou a nova estratégia. “Todo dia, de segunda a sexta-feira, falaremos a uma rádio diferente, não interessa o alcance dela, para exatamente ser questionado por qualquer pergunta. Estamos à disposição para levar a informação precisa ao nosso povo”, argumentou.
 
O assunto das conversas costuma se repetir e vai da defesa ao voto impresso às críticas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da COVID. Nesse catálogo de assuntos, são incluídos temas como ataque às urnas  eletrônicas e ao ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Luís Roberto Barroso, alfinetadas ao ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, defesa ao armamento, alegações diversas para justificar maior proximidade com o Centrão, a sanção do fundo eleitoral em R$ 4 bilhões, e programas sociais que promete turbinar.
 
Ontem, o presidente voltou a usar a estratégia das motociatas para se aproximar do eleitorado. O passeio foi realizado em Florianópolis (SC), onde ele aproveitou para conversar com apoiadores várias vezes durante o percurso, tendo criticado, mais uma vez, o STF e atacado, sem provas, o sistema eleitoral brasileiro.

Insuficiente A constitucionalista Vera Chemim, mestre em direito público pela Fundação Getulio Vargas (FGV), analisa que Bolsonaro segue estratégia semelhante à de Lula, em 2005, no auge do mensalão. O petista também tem tentado aparecer mais aos olhos dos eleitores e concedido entrevistas nos últimos meses. A finalidade, reforça, é a de se aproximar de parcelas significativas da população de diferentes regiões e com isso, angariar a sua confiança e voto para as próximas eleições.
 
“Trata-se de uma maratona política entre a direita conservadora e a esquerda contestadora, ambas correndo atrás do eleitorado brasileiro. No caso de Bolsonaro, a ideia é discutir temas polêmicos que o envolvem, procurando desconstruir narrativas que o prejudicam perante o eleitor. Ele tem apresentado a sua defesa tentando minimizar ou eliminar a imagem de um mandatário relapso na condução da pandemia e no seu envolvimento em supostos atos de corrupção na compra de imunizantes, ambos investigados pela CPI da COVID-19, além de temas de interesse da grande massa e que podem ser determinantes para a sua vitória ou derrota no pleito eleitoral de 2022”, analisa.
No entanto, ela aponta que o eleitor está saturado pela polarização e procura por uma terceira via. Para Raquel Borsoi, analista de risco político da Dharma Politics, após se unir à velha política que sempre criticou, o presidente enfrenta dificuldade de construir novo argumento e procura por um novo canal de interlocução com capilaridade.
 
“A campanha do Bolsonaro é baseada em nichos. É o nicho de caminhoneiros, agricultores, evangélicos. O governo tem tentado investir em nichos específicos para ganhar votos e tem mirado no interior numa tentativa de compensar a perda de votos das capitais com votos do interior. Tanto o populismo de esquerda ou de direita atuam em construir canais paralelos de comunicação”, afirma. Raquel Borsoi observa que Bolsonaro sofreu, inclusive, desarticulação recente devido às investigações dos atos antidemocráticos e por fim, esses canais paralelos de comunicação podem se utilizar desse diálogo direto em que ele fala com estações menores que estão fora de uma rede maior.
 
O cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Aninho Irachande ressalta que ao procurar veículos menores de pequenas cidades, Bolsonaro tenta atingir um público cuja informação ainda não está totalmente elaborada e tende a crer na narrativa do presidente. No entanto, destaca que o plano não terá resultado caso não seja aplicado a uma política significativa de programas sociais.
“A estratégia é encontrar nichos de pessoas para fazer valer essas ideias. É possível que funcione numa parcela um pouco menor e pode ter efeito de pouca valia porque vai acrescentar uma parcela pequena. Elas têm sensibilidade maior ao atendimento de suas necessidades do que ao discurso propriamente dito. A população espera políticas sociais, isso gera um apelo melhor.”
 
 


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