Publicidade

Estado de Minas COVID-19

OMS diz temer crise pior ainda

Representantes da entidade afirmam que variantes devem agravar pandemia no Brasil


02/04/2021 04:00 - atualizado 01/04/2021 22:35

Sarah Teófilo

Brasília – A líder técnica de resposta à COVID-19 na Organização Mundial da Saúde (OMS), epidemiologista Maria van Kerkhove, disse, em entrevista coletiva ontem, que a situação da pandemia no Brasil segue crítica. “Há uma situação muito séria no Brasil no momento, quando temos um número de estados que estão em situação crítica. Os desafios são diversos. Em termos de transmissibilidade, com a variante P.1 que foi detectada e está circulando no país, se tem vírus mais transmissível, tem mais casos, e isso pode sobrecarregar mais o sistema de saúde, que já está sobrecarregado”, afirmou.

Maria van Kerkhove disse que a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) está trabalhando com os estados e o país para se certificar de que tenham insumos para cuidar dos pacientes, como oxigênio, e todo o suporte necessário. A epidemiologista ainda ressaltou que a variante P.1 está predominante em 13 estados, e que há um aumento de hospitalizações e demanda por leitos de unidades de terapia intensiva (UTIs), com aumento de casos graves em todas as idades, incluindo os mais jovens, entre 20 e 60 anos.

Diretora-geral-assistente da OMS, a brasileira Mariângela Simão afirmou que a OMS "está muito preocupada com o Brasil”. De acordo com ela, a produção local de vacina é um aspecto muito importante neste momento, porque apesar de o país estar recebendo vacina pelo consórcio da OMS Covax Facility, o Brasil consegue produzir suas próprias vacinas pelo Instituto Butantan e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). “E isso é essencial, considerando a pressão que existe em relação aos insumos”, explicou. Mariângela reforçou que não basta se pautar na disponibilidade de vacina, mesmo quando o país tem boa cobertura de vacinação. De acordo com ela, é importante manter as medidas de prevenção, evitar aglomeração. “É importante que não haja uma falsa sensação de segurança por conta da disponibilização de vacina”, afirmou.

Esta não é a primeira vez que a OMS faz alertas ao Brasil. No início do mês, por exemplo, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, disse que a situação no Brasil no âmbito da pandemia da covid-19 é muito preocupante não só para o país, mas para a América Latina e para o mundo. Na ocasião, Tedros afirmou que o Brasil precisava adotar medidas de saúde "agressivas", enquanto distribuía a vacina aos brasileiros.

Ontem, o diretor pontuou os desafios de garantir vacina com equidade, e estimulou países que tenham doses excedentes de vacinas contra a COVID-19 a enviarem imunizantes para o mecanismo Covax, para que seja possível encaminhá-las a nações que ainda não tiveram acesso. Tedros também falou sobre a reunião nesta semana entre líderes de 23 países e a OMS, na se qual falou sobre a criação de um "tratado pandêmico", pensando em possíveis emergências futuras.

De acordo com ele, “sempre haverá novos patógenos com potencial pandêmico”. “Não é uma questão de ‘se’, mas de ‘quando’. Um aspecto-chave que pode ser consagrado no tratado é ter uma força de trabalho de saúde mais forte, que é a própria essência da resiliência dos sistemas de saúde”, afirmou. O diretor também exaltou a importância de funcionários da saúde em todo o mundo, e disse que antes da pandemia já se sabia que havia uma falta de cerca de 18 milhões de trabalhadores da área.

Reunião A OMS não consegue mais fixar prazo para o envio de cerca de 8 milhões de doses de vacina prometidas ao Brasil por meio do consórcio Covax Facility, segundo a senadora Katia Abreu (PP-TO), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado. Ela e o deputado Aécio Neves (PSDB-MG), que preside a mesma comissão na Câmara, se reuniram ontem com Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS. De acordo com a senadora, no encontro, os parlamentares ouviram que a organização não consegue mais se comprometer com o envio das doses, previstas para chegar no país até 31 de maio. “Ele disse que não podem mais dar cronograma. Dos 9 milhões de doses, nos só recebemos até agora 1 milhão, e o resto não se sabe mais quando chegará”, afirmou a senadora.

Em postagem nas redes sociais, Aécio Neves falou sobre a reunião: “Propusemos que a OMS reveja os critérios para a distribuição de vacinas ao redor do mundo, considerando o populacional, mas também a gravidade e a velocidade da transmissão. Propus também discutirmos no Congresso, nas comissões, a possibilidade de o Brasil evoluir da posição inicial contrária à quebra de patentes como forma de agilizar a produção. Temos uma indústria pública e privada capazes de acelerar a produção de vacinas. Não há uma emergência maior que essa hoje e isso foi dito por nós e pelo dr. Tedros”.
 
(foto: Richard Juilliart/AFP)
(foto: Richard Juilliart/AFP)

"Se tem vírus mais transmissível, tem mais casos, e isso pode sobrecarregar o sistema de saúde, que já está sobrecarregado"

Maria van Kerkhove, epidemiologista da Organização Mundial da Saúde (OMS)

 

Chile e Bolívia também barram os brasileiros

 
Brasília – A Bolívia e o Chile anunciaram ontem a suspensão do trânsito de pessoas saindo do Brasil para conter o avanço da COVID-19. No caso chileno, que registra aumento do número de casos, as restrições valerão para todas as suas fronteiras terrestres e aéreas durante abril, enquanto no boliviano o bloqueio é exclusivo para os limites com o Brasil, com duração de uma semana a partir de hoje. As medidas ocorrem depois de alerta da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) sobre os riscos de a crise sanitária em território nacional agravarem a situação em todo o continente. Março foi o pior mês da pandemia no Brasil, com mais de 66 mil mortes, mais que o dobro de julho de 2020, o mês mais letal até então.

Ao lado de Paraguai, Chile e Bolívia eram, na prática, as únicas nações da região que ainda permitiam a ida e vinda de brasileiros, mesmo com restrições. De acordo com o presidente boliviano, Luis Arce, que anunciou o fechamento temporário da fronteira de 3,4 mil quilômetros pelo Twitter, a medida é necessária para "proteger a população". Não está claro, no entanto, se as restrições também se serão aplicadas para viagens aéreas.

De acordo com o presidente, comunidades fronteiriças nas quais "se verificou a circulação de variantes" oriundas do Brasil serão "encapsuladas" ou postas em quarentena. No início da semana passada, La Paz já havia ordenado o início das campanhas de vacinação em regiões fronteiriças com o Brasil, onde há aumento de casos, diante de temores das novas cepas.

Existe preocupação especial com a variante amazônica, a P.1, mais contagiosa, descoberta primeiramente em Manaus. Até o momento, já foi encontrada em ao menos 15 países e territórios das Américas, incluindo Bolívia, Venezuela, Chile, Uruguai, Colômbia e Paraguai.

O Chile , por sua vez, anunciou que, a partir de segunda-feira, fechará por um mês todas as fronteiras "para cidadãos chilenos e para estrangeiros", com exceção apenas para viagens humanitárias. As fronteiras terrestres também serão bloqueadas, com a passagem permitida só para caminhoneiros que transportam produtos essenciais. Nesse caso, será necessário mostrar um teste negativo realizado até 72 horas antes.

RESTRIÇÕES Brasileiros, até o momento, podiam desembarcar no país, mas com muitas restriçoes, já que precisavam apresentar teste PCR no embarque e, ao chegar em Santiago, eram levados a uma residência sanitária para realizar novo exame, tentativa de conter a disseminação de novas cepas. Além disso, precisavam também fazer uma quarentena de 10 dias. “Precisamos com urgência fazer um esforço adicional diante do momento crítico da pandemia”, afirmou  porta-voz do governo, Jaime Bellolio, ao anunciar as medidas.

Já a Colômbia, no início de março, decidiu adiar por tempo indeterminado a retomada dos voos para o Brasil, algo que levou o presidente Iván Duque a cancelar sua viagem pré-agendada para Brasília. O Peru anunciou que manterá suspensos, ao menos até o dia 15, os voos com origem ou destino para o Brasil, Reino Unido e África do Sul. Já a Venezuela entrou na última segunda-feira em confinamento para impedir o avanço da P.1.

A Argentina e o Uruguai, como o Chile, proíbem a entrada de estrangeiros e mantêm suas fronteiras terrestres fechadas. Mas Buenos Aires permite voos reduzidos entre os dois países para cidadãos argentinos e residentes, enquanto Montevidéu permite unicamente viagens humanitárias desde meados de março. 


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade