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Estado de Minas BOLSONARO X TEICH

Após discordância com Bolsonaro e queda de secretário, Teich cancela coletiva sobre quarentena

Ministro da Saúde falaria nesta quarta-feira com a imprensa, mas cancelou a entrevista


postado em 13/05/2020 21:51 / atualizado em 13/05/2020 22:54

Nelson Teich, ministro da Saúde(foto: José Dias/PR)
Nelson Teich, ministro da Saúde (foto: José Dias/PR)
O Ministério da Saúde cancelou a entrevista coletiva agendada para esta quarta-feira, quando seriam anunciadas diretrizes para a flexibilização do isolamento social durante a pandemia de COVID-19.

Entretanto, a falta de consenso entre União, Estados e Municípios pode não ter sido a única causa da não realização da coletiva. A discordância entre o ministro da Saúde, Nelson Teich, e o presidente Jair Bolsonaro, també podem ter tido influência na decisão.

Discordância com Bolsonaro

Na segunda-feira, Nelson Teich passou por um constrangimento público, após descobrir por meio da imprensa que Bolsonaro havia inclído diversas atividades no rol das "essenciais", que poderiam voltar a funcionar durante a pandemia.

“Se você criar um fluxo que impeça que as pessoas se contaminem, se criar condições e pré-requisitos para que você não exponha pessoas a risco de contaminação, você pode trabalhar retorno de alguma coisa. Agora, tratar isso como essencial, é um passo inicial, que foi decisão do presidente, que ele decidiu. Saiu hoje isso? Falou agora?”, perguntou o ministro, visivelmente embaraçado. 

Decisão de? Quem é...Manicure, academia? Isso aí não é... Não passou, não é atribuição nossa. Isso é uma decisão do presidente”, disse o ministro durante coletiva no Palácio do Planalto.

No decorrer da semana, mais um episódio de discordância em presidente e ministro. Na terça-feira, Teich se manifestou pelo Twitter, apresentando algumas ressalvas sobre o uso do medicamento cloroquina no tratamento da COVID-19.

“O @minsaude em 23.03 informou que a cloroquina pode ser prescrita para pacientes hospitalizados (https://bit.ly/3fIcIQe). O Medicina_CFM, em 23.04, entendeu a excepcionalidade em que vivemos e possibilitou o uso em outras situações. Um alerta importante: a cloroquina é um medicamento com efeitos colaterais. Então, qualquer prescrição deve ser feita com base em avaliação médica. O paciente deve entender os riscos e assinar o “Termo de Consentimento” antes de iniciar o uso da cloroquina”, afirmou o Teich por meio da rede social.

Nesta quarta, o presidente Jair Bolsonaro, devoto do uso da cloroquina medicamento que não tem eficácia cientificamente comprovada – desautorizou a palavra de seu ministro, sem citar dados ou fontes.

“O meu entendimento, ouvindo médicos, é que ela deve ser usada desde o início por parte daqueles que integram o grupo de risco. Pessoas com comorbidades ou de idade, já deve ser usada a hidroxicloroquina”, disse o presidente.

Sobre a discordância entre seu discurso e o do ministro da Saúde, Bolsonaro afirmou: “Olha só, todos os ministros, eu já sei qual é a pergunta, têm que estar afinados comigo. Todos os ministros são indicações políticas minhas e quando eu converso com os ministros eu quero eficácia na ponta. Nesse caso, não é gostar ou não do ministro Teich, é o que está acontecendo”.

“Velha política”

Ainda nesta quarta, o administrador de empresas Francisco de Assis Figueiredo foi demitido do cargo de Secretário de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde. O ato, publicado no Diário Oficial da União (DOU) dessa terça-feira, foi assinado pelo ministro da Casa Civil, Braga Netto.

Como parte da negociação do governo Jair Bolsonaro com partidos do Centrão, o posto deve ser ocupado por um nome indicado pelo PL, sigla comandada pelo ex-deputado Valdemar Costa Neto, condenado no mensalão.

Sob pressão de aliados e após sofrer sucessivas derrotas políticas, o presidente começou a negociar cargos com partidos do bloco informal formado por, além do PL, o Progressistas (antigo PP), Republicanos, PTB, Solidariedade, DEM e PSD em troca de votos no Congresso, ressuscitando a velha prática do “toma lá, dá cá”, criticada por Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018.

Figueiredo atuava no ministério desde 2016. Ele foi indicado ao cargo pelo Progressistas durante a gestão do ex-ministro Ricardo Barros (Progressistas-PR). A demissão já era esperada desde a chegada de Nelson Teich ao cargo de ministro da Saúde.

A composição da equipe de Teich irá refletir acordos do governo Bolsonaro para costurar apoio tanto da ala militar como de partidos do Centrão no Congresso, avaliam integrantes do governo Bolsonaro e gestores do SUS.

Teich tem sido acompanhado em reuniões pelo secretário-executivo da pasta, o general Eduardo Pazuello, apontado em tom irônico por secretários de Estados e municípios como verdadeiro chefe da Saúde. Além de Pazuello, mais de uma dezena de militares já ganharam ou devem receber cargos na secretaria-executiva.

Gestores do SUS que participaram recentemente de reuniões com o ministro afirmaram que Teich parece "perdido", sem dar uma diretriz sobre o que pretende fazer no ministério.

O ministro fez poucas nomeações "na sua cota". Um de seus indicados é o médico e biofísico Antonio Carlos Campos de Carvalho, que assumiu a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Alguns técnicos de dentro do ministério têm sido promovidos a chefes substitutos. A ideia de Teich é nomeá-los definitivamente, o que ainda depende de aval do Planalto.


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