Publicidade

Estado de Minas CEARÁ

Policiais grevistas afastados

Governo suspende 167 militares amotinados, que responderão a processos disciplinares e ficarão 120 dias inativos. Número de assassinatos sobe para 88 desde o início da paralisação


postado em 23/02/2020 04:00 / atualizado em 24/02/2020 07:20

Tropas do Exército vão patrulhar as ruas de Fortaleza e da região metropolitana por pelo menos 30 dias (foto: KLEBER GONÇALVES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO)
Tropas do Exército vão patrulhar as ruas de Fortaleza e da região metropolitana por pelo menos 30 dias (foto: KLEBER GONÇALVES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO)
Brasília – No quinto dia de motim dos policiais militares no Ceará, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do estado informou que 88 assassinatos foram registrados entre a 0h de quarta-feira e as 23h59 de sexta-feira. O governo do Ceará já afastou 167 policiais militares que participam da paralisação. O afastamento por 120 dias e a abertura de processos disciplinares foram divulgados no Diário Oficial do Estado de sexta-feira. Os agentes investigados ficarão fora da folha de pagamento a partir deste mês. Os policiais também deverão entregar identificações funcionais, distintivos, armas, algemas e outros itens que os caracterizem nas suas unidades.

Os ministros Fernando Azevedo e Silva (Defesa), Sérgio Moro         ( Justiça e Segurança Pública) e André Luiz Mendonça (Advocacia-Geral da União) desembarcam amanhã em Fortaleza. A comitiva interministerial acompanhará a Operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) que está sendo realizada no estado para tentar conter a onda de violência. Desde quinta-feira, 150 agentes da Força Nacional e 2,5 mil soldados do Exército reforçam a segurança no Ceará.

Desde o início da paralisação, na última terça-feira, homens encapuzados invadiram quartéis, depredaram e esvaziaram pneus de veículos da polícia. O grupo protesta contra a proposta de reajuste da categoria apresentada pelo governo. Os processos disciplinares contra os militares afastados serão conduzidos de duas maneiras. Um delas envolve os inquéritos militares que serão julgados pela Justiça Militar. Já os procedimentos administrativos disciplinares serão realizados pela Controladoria-Geral de Disciplina (CGD).

As estatísticas de crimes violentos e letais têm novos registros a cada dia. Na sexta-feira, foram 37 casos. Os registros incluem casos como homicídio doloso/feminicídio, lesão corporal seguida de morte e latrocínio. Na segunda-feira, foram registradas três mortes. Na terça-feira, cinco. Na quarta-feira, 29, e, na quinta, 22.

Várias cidades do Ceará cancelaram o carnaval por causa da insegurança gerada pelo motim dos policiais. É o caso de Canindé, Forquilha, Milagres, Paracuru, Paraipaba, Santana do Cariri, São Luís do Curu, General Sampaio e Horizonte. Já Aracati, que tem um dos principais carnavais do estado, contratou segurança privada e garante a realização da festa. “Contávamos com efetivo de aproximadamente 200 homens para fazer a segurança, mas, infelizmente, sem o apoio da Polícia Militar, fica muito difícil fazer um evento de grande porte”, afirmou o prefeito de Paracuru, Eliabe Albuquerque.

A tensão envolvendo o governo cearense e PMs e bombeiros começou por uma demanda de reajuste salarial em dezembro. Batalhões da PM foram atacados, desde terça-feira, segundo o governador do estado, Camilo Santana (PT), aliado político de Cid. As ações foram executadas por encapuzados. O governo suspeita que os responsáveis sejam policiais. Por isso, Santana solicitou o apoio de tropas federais para reforçar a segurança. O ministro da Justiça, Sérgio Moro, autorizou, na quarta, o envio da Força Nacional de Segurança Pública para o Ceará. Além disso, o presidente Jair Bolsonaro autorizou o emprego das Forças Armadas no estado. O governo propõe aumentar o salário de um soldado da PM de R$ 3,2 mil para R$ 4,5 mil, em reajustes progressivos até 2022, mas os manifestantes querem os R$ 4,5 mil já para este ano.
 
Homens encapuzados — que faziam piquete no batalhão onde o senador licenciado Cid Gomes (PDT-CE) foi baleado na quarta-feira — passaram a ocupar ontem um outro quartel, também em Sobral. As duas ocupações foram “tranquilas”, segundo o vereador do município Sargento Ailton, expulso do partido Solidariedade, nesta semana, por envolvimento com o motim. Ao menos 10 dos 43 batalhões da PM no Ceará estavam ocupados ontem.

O clima de tensão no estado é grande, principalmente por causa da participação de homens encapuzados. “Foi a primeira vez na vida que vimos um quartel ocupado dessa forma. Todos encapuzados. Não dá pra saber quantos são policiais nem se eles são mesmo policiais”, disse o senador Major Olímpio (PSL-SP), que visitou um dos batalhões ocupados na capital cearense. Ele integra a comitiva de senadores que está no Ceará para ajudar na solução da crise. O maior receio da comitiva é que o motim cause efeito dominó em outros estados onde policiais também reivindicam reajuste salarial.

A greve, que começou com as reivindicações salariais, ganhou outra pauta prioritária diante da escalada de tensão. O governador Camilo Santana (PT) já informou que não vai anistiar os policiais grevistas. “Quem pode resolver isso está fazendo uma estratégia equivocada. Os precisam lutar para garantir pelo menos a anistia”, afirmou o vereador de Fortaleza Sargento Reginauro, que também fez carreira política com mobilizações policiais dos últimos anos.
 



Publicidade