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Estado de Minas

Do prestígio à demissão em menos de 14 horas

Após aparecer ao lado de Bolsonaro em transmissão ao vivo nas redes sociais, secretário de Cultura publica vídeo em que faz discurso carregado de símbolos nazistas e é exonerado


postado em 18/01/2020 04:00 / atualizado em 18/01/2020 07:15

Roberto Alvim, secretário de Cultura demitido:
Roberto Alvim, secretário de Cultura demitido: "Foi apenas uma frase do meu discurso na qual havia uma coincidência retórica. (...) Mas a frase em si é perfeita: heroísmo e aspirações do povo é o que queremos ver na arte nacional%u201D (foto: Reprodução/Internet)

Às 19h de quinta-feira, o então secretário nacional de Cultura Roberto Alvim participava pela primeira vez de uma transmissão ao vivo ao lado do presidente Jair Bolsonaro. “Depois de décadas, agora sim temos um secretário de cultura de verdade. Obrigado por ter aceitado essa missão”, disse Bolsonaro. Menos de 14 horas depois, na manhã de ontem, o Palácio do Planalto avisava a lideranças do Congresso Nacional e do Poder Judiciário que Alvim seria demitido.
 
Em vídeo em que anuncia o Prêmio Nacional das Artes, Alvim, citou textualmente trechos de um discurso do ideólogo nazista e ministro da Propaganda do regime de Hitler, Joseph Goebbels. A reação negativa ao vídeo foi imediata, com duros repúdios e críticas dos poderes Legislativo e Judiciário. Por unanimidade, todos os ministros de Bolsonaro, inclusive os da ala militar, também condenaram o discurso de Alvim.
 
Diferentemente do que aconteceu com os três ministros demitidos pelo presidente Bolsonaro, que ficaram semanas recebendo críticas, a queda de Roberto Alvim foi quase instantânea. No início da tarde, uma publicação extra do Diário Oficial da União (DOU) oficializou a exoneração do secretário de Cultura, e o presidente Bolsonaro usou suas redes sociais para anunciar a demissão. “Comunico o desligamento de Roberto Alvim da Secretaria de Cultura do Governo. Um pronunciamento infeliz, ainda que tenha se desculpado, tornou insustentável a sua permanência”, escreveu o presidente. Ele ainda disse “repudiar ideologias totalitárias e genocidas”, além de “qualquer tipo de ilações às mesmas”.
 
Já fora do cargo, Alvim se desculpou por meio das redes sociais e disse que não sabia que seu texto tinha muitas semelhanças com o discurso do ministro de Adolf Hitler. “Ontem (quinta-feira) lançamos o maior projeto cultural do governo federal. Mas no meu pronunciamento, havia uma frase parecida com uma frase de um nazista. Não havia nenhuma menção ao nazismo na frase, e eu não sabia a origem dela. O discurso foi escrito a partir de várias ideias ligadas à arte nacionalista, que me foram trazidas por assessores. Seu soubesse da origem da frase, jamais a teria dito”, justificou Alvim. Ele pediu perdão à comunidade judaica e afirmou que colocou imediatamente seu cargo à disposição para proteger Bolsonaro.
 
Ainda pela manhã, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), pediu a cabeça de Alvim e tratou as referências ao discurso de Goebbels como inaceitáveis. “O secretário de Cultura passou de todos os limites. É inaceitável. O governo brasileiro deveria afastá-lo urgente do cargo”, escreveu Maia em suas redes sociais.
 
Por meio de nota, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), considerou o discurso “acintoso, descabido e infeliz”, além de uma “assombrosa inspiração nazista”. “Como primeiro presidente judeu do Congresso Nacional, manifesto veementemente meu total repúdio a essa atitude e peço seu afastamento imediato do cargo”, disse. Segundo Alcolumbre é inadmissível que alguém use o cargo para explicitar simpatia pela ideologia nazista. “No interior do Amapá, na localidade de Ariri, participando da retomada do programa 'Luz Para Todos', somente agora tive o desprazer de tomar conhecimento do acintoso, descabido e infeliz pronunciamento de assombrosa inspiração nazista do secretário de Cultura”, disse o parlamentar.
 
Assim como os líderes do Poder Legislativo, o presidente do STF, ministro Dias Toffoli condenou com palavras duras o discurso de Roberto Alvim e as considerou uma “ofensa ao povo brasileiro”. “Há de se repudiar com toda a veemência a inaceitável agressão que representa a postagem feita pelo secretário de Cultura. É uma ofensa ao povo brasileiro, em especial à comunidade judaica”, afirmou o chefe do Poder Judiciário.

CARTA BRANCA Apesar de não ter status de ministro oficialmente no governo de Jair Bolsonaro – a Secretaria Especial de Cultura faz pate do Ministério da Cidadania –, Roberto Alvim tinha carta branca do Planalto para fazer a nomeações e coordenar os programas do setor no governo. Ele era valorizado por ser um dos poucos representantes do setor cultural alinhado com ideias políticas conservadoras. É quarta e a mais rápida baixa importante do governo Bolsonaro em um ano.
 
Gustavo Bebianno, ex-ministro da Secretaria-geral da Presidência, se envolveu em uma disputa com o filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro, em fevereiro do ano passado e foi o primeiro a cair. Após duas semanas de trocas de acusações nas redes sociais e divulgação de conversas pessoais, o Planalto decidiu exonerar Bebianno.
 
Já o ex-ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez enfrentou uma verdadeira guerra interna na pasta que durou mais de um mês. O ministro colombiano se viu em meio a um embate de assessores ligados ao escritor e guru do governo, Olavo de Carvalho, com a chamada ala militar. Ele foi alvo também de ataques de parlamentares, que criticavam sua gestão à frente do MEC. A “fritura” de Vélez se arrastou por semanas, até que a situação ficasse insustentável. Bolsonaro o exonerou do cargo em abril.
 
Outro que passou semanas enfrentando ataques foi o ex-ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz. Desde março, ele também se envolveu em disputas com o vereador Carlos Bolsonaro e com Olavo de Carvalho e fez críticas às postagens polêmicas do filho do presidente e do guru do governo nas redes sociais. Em junho, após dois meses de intensas trocas de farpas públicas, o Palácio do Planalto exonerou o general do cargo, desagradando à ala militar do governo.

Vídeo polêmico em tom nazista e ao som de ópera

Brasília – Em vídeo no qual anuncia o Prêmio Nacional das Artes, o secretário de Cultura, Roberto Alvim, ao som de Wagner, cita textualmente trechos de um discurso do ideólogo nazista Joseph Goebbels. "A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada", diz Alvim no vídeo.
 
"A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada", disse Goebbels em pronunciamento para diretores de teatro, de acordo com o livro Goebbels: a biography, de Peter Longerich.
 
O texto lido por Alvim em tom solene e pausado é bem mais longo, com outros trechos claramente inspirados pela ideia copiada de Goebbels. A peça escolhida de fundo pelo secretário é um trecho da ópera Lohengrin, de Richard Wagner, que Hitler disse sua autobiografia ter tido importância capital em sua vida.
Em sua longa fala, Alvim diz que a cultura sob Bolsonaro terá inspiração nacional, religiosa. "Trata-se de um marco histórico nas artes brasileiras", diz ele, sobre o prêmio. "2020 será o ano de uma virada histórica. 2020 será o ano do renascimento da arte e da cultura do Brasil", encerra.

”Coincidência retórica” Após a repercussão negativa da sua fala, Alvim, fez uma nota de esclarecimento em sua conta no Facebook acerca do discurso. Ele disse que a "esquerda" está fazendo uma "falácia de associação remota" entre sua fala e o ideólogo do nazismo. Omite o fato de que recebeu críticas de seu guru, Olavo de Carvalho, e de outros expoentes da ala olavista da cultura.
 
"Com uma coincidência retórica em UMA frase sobre nacionalismo em arte, estão tentando desacreditar todo o Prêmio Nacional das Artes, que vai redefinir a Cultura brasileira… É típico dessa corja", escreve Roberto Alvim em seu post.
 
"Repito: foi apenas uma frase do meu discurso na qual havia uma coincidência retórica. Eu não citei ninguém. E o trecho fala de uma arte heroica e profundamente vinculada às aspirações do povo brasileiro. Não há nada de errado com a frase. Todo o discurso foi baseado num ideal nacionalista para a Arte brasileira, e houve uma coincidência com UMA frase de um discurso de Goebbels… Não o citei e JAMAIS o faria", afirmou.
 
No final da mensagem, porém, o secretário elogia a ideia de Goebbels: "Mas a frase em si é perfeita: heroísmo e aspirações do povo é o que queremos ver na rte nacional".





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