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Estado de Minas HISTÓRIAS DE TRAIÇÃO

Alckmin sofre da "cristianização" que, em 1950, fez Cristiano Machado perder para Vargas

Candidato é preterido por colegas de coligação que apoiam Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência


postado em 07/10/2018 01:00 / atualizado em 07/10/2018 07:57

Estacionado nas pesquisas de intenção de voto, Alckmin não conseguiu manter fidelidade dentro da sua coligação(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press - 12/9/18)
Estacionado nas pesquisas de intenção de voto, Alckmin não conseguiu manter fidelidade dentro da sua coligação (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press - 12/9/18)

Vítima da infidelidade dos correligionários de seu partido, o PSDB, e coligados, o presidenciável Geraldo Alckmin vive a encarnação do mau tempo de campanha nos anos de 1950 do então candidato à Presidência Cristiano Machado, ex-deputado federal mineiro, à época traído pelos companheiros. Na corrida com Getulio Vargas, petebista dono de uma força popular única, Cristiano Machado, que dá nome à famosa avenida de Belo Horizonte, foi preterido pelos colegas do antigo PSD, que optaram por apoiar Vargas na briga pela cadeira no Palácio do Catete.


Surgiria ali a expressão “cristianização”, que, 68 anos depois, acomete o ex-governador de São Paulo. Estacionado na rabeira das pesquisas de intenção de voto, Alckmin foi “cristianizado”, diante do abandono por vários candidatos a governador e outros aliados do PSDB, que optaram por apoiar Jair Bolsonaro, do PSL. Representando os partidos de Centro, o tucano já foi eleito três vezes para governar o estado mais rico da nação e contou com a metade do tempo da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. Mesmo assim, não decolou.


No interior de Minas Gerais, a debandada foi protagonizada por prefeitos, candidatos a deputado e outras lideranças que são do campo dos pessedebistas, mas abraçaram a fórmula “Bolsonasia”, apoiando o capitão reformado para a Presidência da Republica e o senador Antônio Anastasia (PSDB) para governador.


O professor Carlos Horta, do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ressalta que, assim como ocorreu em 1950, quando Cristiano Machado foi” trocado”  por aliados seduzidos pelo populismo de Getúlio, agora Geraldo Alckmin foi traído por integrantes dos partidos de centro, que optaram por Jair Bolsonaro. “Mas, o evento atual é mais grave e ocorre de uma forma mais complexa e mais significativa do que a situação de 1950. De lá pra cá, o país alcançou diversidade em vários setores, como na religião, por exemplo”, comenta Horta.


O cientista político salienta que o eleitorado dos partidos de centro é composto por um “núcleo formador de opinião”, que vota por mudanças e está em busca de um candidato que possa satisfazer os interesses desse segmento, oposto ao PT e aos movimentos de esquerda.  “Mas, o Alckmin não foi capaz de contemplar essas pessoas”, avalia.


Em 1950, o deputado Cristiano Machado foi abandonado por integrantes do PSD em favor de Getulio Vargas (PTB)(foto: Arq. CM Foto 134/2/FGV)
Em 1950, o deputado Cristiano Machado foi abandonado por integrantes do PSD em favor de Getulio Vargas (PTB) (foto: Arq. CM Foto 134/2/FGV)
Horta destaca que, na mídia, houve muita divulgação das denúncias de corrupção, dando muita ênfase ao Partido dos Trabalhadores, em razão dos escândalos do Mensalão e dos desvios na Petrobras, investigados na Operação Lava-Jato, mas, lembra,  também envolvidos em irregularidades do MDB e o DEM. “Dessa forma, parte da população manifestou desgosto pela política e pelos partidos”.


O cientista político salienta, que Bolsonaro é favorecido por essa “insatisfação” de grande parte do eleitorado e acabou atraindo partidários do “cristianizado” Alckmin.  “A população optou por votar no Bolsonaro como  ele  fosse um salvador da pátria, sem se importar com as propostas do candidato, não ligando por exemplo se ele quer combater violência com violência”. Horta também destaca que o candidato do PSL se apresenta como o “novo”, embora já esteja na política há 28 anos.


O professor da UFMG também faz críticas à proposta de Jair Bolsonaro de facilitar a venda de armas, que, segundo ele, tende a aumentar as mortes violentas no país.. “Acredito que isso vai contribuir para o aumento de balas perdidas, para que médicos tenham mais serviço para extrair balas de feridos e para o aumento do trabalho das funerárias”, disse.

Abandono

Para o cientista político Fábio Wanderley Reis, professor aposentado da UFMG,  o ex-governador paulista sofreu o abandono de correligionários durante a campanha por demonstrar a falta de capacidade de reação nas pesquisas para chegar ao segundo turno.


“O Alckmin foi candidato a presidente da República em 2006 em circunstâncias muito mais favoráveis e perdeu a eleição para o Lula, que estava fragilizado por causa do escândalo do mensalão (2005)”,  comentou. “Além disso, em São Paulo, ele ganhou o apelido de “Picolé de chuchu”, completou o cientista político, citando a “fraqueza política” do tucano.
Fábio Wanderley afirma que a liderança de Bolsonaro nas pesquisas contribuiu para a traição a Geraldo Alckmin, com o candidato do PSDB recebendo o apoio de lideranças dos partidos de centro.  “O Bolsonaro tem mais presença junto ao eleitorado”, disse o cientista político.


Ele lembrou que  coordenou uma pesquisa junto a pessoas de nível universitário,  em 1991 e 1992, em que foi questionado aos eleitores se eles votariam em “um candidato mais enérgico”. “Quase a unimidade dos entrevistados respondeu que sim. Isso está sendo visto agora com o Bolsonaro”, disse Fábio Wanderley. “Estamos correndo o risco de ver o Bolsonaro ganhar a eleição para presidente e depois não saber o que vai acontecer”,  analisa.


"Bolsonasia" avança

No interior de Minas Gerais surgiu o fenômeno “Bolsonasia”, o apoio de lideranças a Jair Bolsonaro para presidente da República, em lugar de Geraldo Alckmin, e ao senador Antonio Anastasia (PSDB) para governador. No Norte do estado, é expressivo o número de prefeitos, vereadores e até mesmo candidatos a deputado de partidos coligados com Geraldo Akcmin em nível nacional que acompanham Anastasia para governador, mas para presidente apoiam Bolsonaro, informa um dirigente de partido, que já coordenou várias campanhas políticas na região.

“Muitos estão com Bolsonaro em silêncio por causa da fidelidade partidária. Outros já falam abertamente”, informa o experiente articulador político. “Na verdade, os integrantes de partidos ligados ao Alckmin estão apoiando Bolsonaro por causa do voto útil. Eles querem votar em candidato que tenha condições de ir para o segundo turno e impedir a volta do PT”, afirma fonte, citando o caso do deputado Marcos Montes (PSD), candidato a vice de Anastasia, que chegou a declarar apoio ao capitão reformado.

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