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Estado de Minas

Defesa vai alegar insanidade mental do esfaqueador para pedir transferência

Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, um dos advogados de Adelio, Marcelo Manoel da Costa, disse que pedido se baseia em declarações do acusado sobre o uso de remédios controlados e histórico de questões neurológicas e psiquiátricas


postado em 09/09/2018 07:00 / atualizado em 09/09/2018 07:49

(foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
(foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Juiz de Fora – Nas investigações do ataque ao candidato Jair Bolsonaro (PSL) por Adelio Bispo de Oliveira, em Juiz de Fora (MG), entre as muitas perguntas à espera de resposta, uma torna-se relevante. Assim como não se sabe quase nada sobre o passado recente do agressor, por que ele teria se estabelecido numa cidade com a qual não tem vínculo familiar ou um trabalho e se há outros envolvidos no caso, se questiona especialmente a formação da equipe de advogados que representa Adelio no caso. São quatro profissionais envolvidos na defesa: Zanone Manuel de Oliveira Júnior, Fernando Costa Oliveira Magalhães, Marcelo Manoel da Costa e Pedro Augusto de Lima Felipe e Possa. Zanone, inclusive, usou um avião do qual é dono para deixar Belo Horizonte às pressas rumo a Juiz de Fora, onde participaria da defesa de Adelio.

O primeiro questionamento a respeito do grupo de defensores partiu de um dos coordenadores da campanha de Bolsonaro. O deputado federal Fernando Francischini (PSL-PR) questionou o fato de o homem ter tantos advogados particulares. “Nos chama muita atenção. (…), mas alguém, em situação de pobreza como a gente viu, ter quatro advogados e não ter a defensoria pública acompanhando… Só aí eu deixo para vocês de que não há indícios de que não é um ‘lobo solitário’ sem estrutura financeira nenhuma”, declarou na sexta-feira.

Os quatro advogados seriam bancados por uma ‘congregação evangélica’ de Montes Claros. Ao menos foi isso o que garantiu o advogado Fernando Magalhães. “Fomos contratados a partir de uma congregação de Montes Claros que pediu sigilo”, disse.

Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, porém, o advogado Marcelo Manoel da Costa colocou em xeque a versão do próprio companheiro de defesa. Segundo ele, a banca que trabalha no caso prioriza a “visibilidade”, e não o valor classificado como “irrisório”. “Tenho certeza de que não há participação política ou um grupo bancando nossos honorários. A visibilidade, para nós, é bem-vinda. Chegamos primeiro”, disse.

O advogado descartou qualquer participação de igrejas no caso, embora o acusado tenha dito que agira a mando de Deus. “Adélio usou essa frase como uma metáfora para falar de Jair Bolsonaro, que, na opinião dele, é lobo em pele de cordeiro e uma ovelha negra do rebanho. Disse ainda que não concorda com as ideias políticas do presidenciável, principalmente em relação aos negros e quilombolas.”

“Como já existe a confissão, acreditamos que estamos pisando num terreno bem confortável”, resumiu o advogado. Amanhã, a defesa vai instaurar um incidente de insanidade mental, que poderá resultar na transferência de Adelio para um hospital psiquiátrico, onde poderá passar até 45 dias para fazer exames. Marcelo negou a existência de problemas mentais, mas disse que os advogados se baseiam, para o pedido, em declarações do acusado sobre o uso de remédios controlados e histórico de questões neurológicas e psiquiátricas. O advogado aproveitou para informar que Adélio não tem curso superior – pedagogia – conforme fora divulgado.

PARCEIROS No voo no dia seguinte ao ataque, Zanone Júnior teve a companhia do advogado Fernando Magalhães. Os dois se juntaram a Marcelo e Pedro Augusto na audiência de custódia em que foi definida a transferência de Adelio do Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) de Juiz de Fora para a penitenciária federal.

Zanone e Fernando são velhos parceiros. Os dois trabalharam juntos, por exemplo, na defesa do ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, envolvido na morte de Eliza Samúdio, ex-namorada do ex-goleiro Bruno. Ambos advogam em Belo Horizonte e na região metropolitana da capital, mas não são do mesmo escritório. Os dois foram acionados por Marcelo e Pedro Possa, que são de Barbacena, também na Zona da Mata, e acompanham o caso desde o início.

Sobre o contato com os advogados para um caso de repercussão internacional, pois envolve um candidato à Presidência da República em primeiro lugar nas pesquisas, Marcelo explicou que o primeiro contato se deu por meio de um parente de Adelio, que fora aluno de Zanone, e telefonou para ele. A questão do pagamento será combinada depois”, disse o advogado.

ANDARILHO  Adelio é natural de Montes Claros, no Norte de Minas. O homem de 40 anos, entretanto, deixou a cidade e passou por cidades de Santa Catarina e do próprio estado em que nasceu. Ele estava há cerca de 15 dias em Juiz de Fora, na Zona da Mata, onde atacou Jair Bolsonaro no cruzamento entre as ruas Halfeld e Batista de Oliveira, no Centro.

Assim que chegou à Polícia Militar (PM) na quinta-feira, Adelio assumiu que esfaqueou Bolsonaro por motivações políticas e religiosas. “Esclarece que recebeu uma ordem de Deus para tirar a vida de Bolsonaro, haja vista que, embora ele (o presidenciável) se apresente como evangélico, na verdade não é”, lê-se em trecho do boletim de ocorrência.

De acordo com uma sobrinha de Adelio, ele se tornou missionário da Igreja do Evangelho Quadrangular há oito anos. Daí em diante, começou a vida de andarilho. “Ele sempre ficava viajando entre Uberaba, Uberlândia e Santa Catarina”, relatou a mulher ao EM.

Não há, entretanto, informação precisa a respeito de qual congregação teria bancado os advogados na defesa de Adelio. Outra versão indica que ele, na verdade, é testemunha de Jeová. Na tarde de ontem, o EM visitou igrejas nas proximidades da pensão em que Adelio morou em Juiz de Fora. Nenhum entrevistado confirmou ter visto o homem em encontros religiosos na região.

SILÊNCIO Se por um lado os advogados se contradizem sobre o financiador da defesa, por outro, conseguiram convencer antigos conhecidos de Adelio a adotar o silêncio durante o processo de investigação. Após seguidas entrevistas, familiares do acusado que vivem em Montes Claros se negaram a conversar com a reportagem com o intuito de “não atrapalhar as investigações”. “Só podemos dizer que não sabemos de nada”, disse uma sobrinha do agressor de Bolsonaro ao Estado de Minas. “Não vou responder nenhuma pergunta. Vou sempre dizer não, não e não”, completou.

Para evitar a insistência de repórteres e eventuais represálias, os familiares partiram para a zona rural do município. Apenas o pedreiro Eraldo Fábio Rodrigues Oliveira, de 47 anos, companheiro de uma sobrinha de Adelio, seguiu no imóvel na zona urbana. Ele se envolveu em uma briga com o acusado em abril de 2013. No boletim de ocorrência, a Polícia Militar relata que os dois se desentenderam por causa do não pagamento da conta de luz do barracão em que viviam. O caso foi tratado como uma ‘desavença familiar’.

 

 

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