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Estado de Minas ENTREVISTA

"Primeira missão é investir num sistema híbrido de transporte", diz especialista

Especialista diz que dependência de rodovias é insustentável para a economia e a democracia


postado em 03/06/2018 06:00 / atualizado em 03/06/2018 07:56

(foto: Viola Júnior/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Viola Júnior/Esp. CB/D.A Press)

Dez dias de greve, com adesão nacional e impactos na mesma escala. O movimento encabeçado pelos caminhoneiros, que na sua ascensão ganhou apoio generalizado dos brasileiros e conseguiu paralisar o país, é resultado de um “estado permanente de indignação que produz surtos de protesto”. A avaliação é do sociólogo e escritor Sérgio Abranches, para quem, além da questão dos preços dos combustíveis, o movimento deixa um legado importante. “Ficou claro que o nosso colonialismo nos deixou vulneráveis. Todo sistema de abastecimento depende do caminhão, do óleo diesel e da estrada asfaltada. Isso insustentável para a economia e para a democracia”, disse ele ao Estado de Minas.

 

 

Não é a primeira vez que os caminhoneiros fazem protestos, mas o que caracteriza esta greve?
É um movimento espontâneo, com um lado claramente associado ao locaute das transportadoras. Além de motoristas empregados, de carteira assinada, tinham terceirizados, fornecedores regulares de empresas e os autônomos solitários. Muitos desses autônomos entraram recentemente no mercado de fretes, com as facilidades do governo anterior, mas num momento em que a economia estava mal e ficaram sem condição de trabalho. O frete é explorado de forma muito violenta pelas empresas. Nos leilões, ofertam o menor frete possível. As estradas também são muito ruins e, por isso, a manutenção do caminhão custa muito. E ainda tem o preço do combustível nesse pacote.

Acredita mesmo que as empresas transportadoras usaram o movimento dos trabalhadores?

Sem a menor sombra de dúvidas houve locaute. Se fossem só autônomos, eles não aguentavam mais três, quatro dias. Porque o autônomo tem que pagar a conta. Eles não tem garantia de renda e, certamente, não aguentariam. Uma parte grande da pauta não é típica de trabalhador.

E de que de forma se organizam?

Esses caminhoneiros param nos postos, onde tem um mesmo refeitório, banheiros. Trocam telefones e número de WhatsApp, que passou a ser uma forma de segurança para eles, quase o que era o rádio. Eles se ajudam com as rotas nas estradas, trocam informações. O caminhoneiro tem uma coisa de abandono e no WhatsApp ele encontra seu próprio grupo, o que, de certa forma, define a identidade dessa categoria. O contato se realiza no físico, nos postos, e no virtual. E quando um deles diz que vai parar no WhatsApp, o outro se identifica e para também.
Em que esse movimento se assemelha e se diferencia das manifestações de 2013?
Vivemos em estado permanente de indignação que produz esses surtos de protesto. É um estado latente. Em 2013, foi o ônibus, todo mundo entra nessa causa e depois o movimento se dissipa em algo mais fluido. Esse movimento se assemelha a 2013 na espontaneidade e no uso das redes sociais como instrumento de mobilização, além de uma pauta difusa. E se diferencia porque foi um movimento de uma categoria só e com a participação das empresas.

Uma das razões da duração da greve foi a dificuldade do governo de negociar com a categoria, que não reconhecia os representantes em interlocução junto ao Palácio do Planalto. Como um movimento sem lideranças consegue se fortalecer e conquistar pautas?
Esse tipo de movimento, como o dos caminhoneiros, é mais indignado do que propositivo. Ele tem um problema e quer que seja resolvido. Se perguntam o que querem, vão divergir quanto à solução. De toda maneira, o que é interesse comum acabou sendo atendido, com a isenção do pedágio em caminhão e a redução do preço do diesel. E ele não acaba numa negociação, até porque eles não têm uma liderança. Um movimento horizontal. Existem influenciadores e não líderes. Então, ele cresce, explode, se sustenta e depois se esvazia. O movimento vai ficando cansado.

Muito tem se falado sobre a existência de “infiltrados”, que querem levar a discussão para a pauta política...
O movimento se esvaziou justamente porque passou para outra pauta, que é a rua sendo tomada por grupos organizados, configurando-se uma pauta política, e não mais a reivindicação dos caminhoneiros. Em 2013, a rua esvaziou quando vieram os black blocs. A gente está neste momento, em que começam a aparecer oportunistas, que agregam sua pauta neles.

Quais são as forças políticas que atuam sobre a greve?

Nenhuma força política atua especificamente. Tem gente de tudo quanto é jeito. Da direita, da esquerda, mas isso não tem impacto e ajudam a esvaziar o movimento, que não tem nada de político. Porque essa greve são movimentos de indignação que saem com a esperança de conseguir alguma coisa, mas não tem plataforma política. Por outro lado, aos poucos, começa a mudar a conversa e, ao invés desse cara que fala que não consegue sustentar a família do jeito que está, chega o outro que fala do golpe, dos militares.


Quais as consequências desse movimento para além do preço da gasolina?
Ele deixa um legado importante. Primeiro, ficou claro que o nosso colonialismo nos deixou vulneráveis. Todo sistema de abastecimento depende do caminhão, do óleo diesel e da estrada asfaltada. Isso é insustentável para a economia e para a democracia. A primeira missão é investir seriamente em sistema híbrido de transporte, misturando os modais: navegação de cabotagem, ferrovia, a hidrovia, com cuidado, para não tratar mal a nossa água.

E do ponto de vista da democracia...

O outro legado é político. Estamos numa fase que cada vez mais os movimentos de indignação surgem de forma espontânea. O sistema político não os representa, porque é analógico. A única forma de se mover é usar o digital, sabendo lidar com a sociedade digital e as novas formas de manifestação, sem contorno, que se apresentam em forma de caos. E elas são imprevisíveis. Tem uma lógica própria. Começam, expandem e acabam. Não sabemos nem quando vão acontecer nem qual será o próximo porquê.

Em que medida a greve impacta o governo Temer, já na reta final do seu mandato?

O governo Temer acabou em 17 de maio de 2017, com a gravação de Joesley (Batista, da JBS). A partir daí, o governo morreu e se mantém como refém, porque ainda persiste a ameaça de que seja novamente denunciado. É um governo fraco e deslegitimado, com capacidade pequena de reagir. Ele ainda foi incompetente, leu mal os sinais e não se antecipou, ficando refém do movimento.

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