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Estado de Minas RESENHA

Em 'Cheiro de jenipapo', Cláudio Bento resgata os aromas da infância

Poeta mineiro evoca vida interiorana do Jequitinhonha, usando coisas simples e imperceptíveis como matéria-prima


03/06/2022 04:00 - atualizado 03/06/2022 03:37

Pollyanna de Mattos Vecchio*
Especial para o EM

poeta mineiro Cláudio Bento
(foto: divulgação)

“Cheiro de jenipapo” é o novo livro do poeta mineiro Cláudio Bento, que, já no título, diz a que veio. Trata-se de uma obra poética em que os cheiros que povoavam uma vida pacata e interiorana são evocados pelo autor e provocam no leitor a sensação de abstrair-se de seu tempo/espaço atual para inebriar-se por uma profusão de aromas. 

Nascido na cidade de Jequitinhonha, em 1959, escritor premiado e relevante produtor cultural da região, Cláudio Bento vem se firmando como um poeta que, aos moldes da tradição de Manoel de Barros e Cora Coralina, escreve sobre coisas simples, reles, imperceptíveis aos olhos comuns, mas não aos do poeta. Sua matéria-prima são as insignificâncias que nos rodeiam e dizem tanto sobre o que somos. 

A infância, a terra, os bichos e a água já foram seu objeto em obras anteriores. Agora é o cheiro, os cheiros, sobretudo o do jenipapeiro do quintal da casa onde cresceu, que se transformam na argila necessária para a construção de mais uma trilha poética. 

O livro está organizado de forma que pode ser lido como um único poema, em que a reiterada expressão “cheiro de jenipapo” emoldura o amálgama de lembranças composto por pelo menos três elementos que convivem na memória do poeta: a infância, a pequena cidade no Vale do Jequitinhonha e os personagens que a habitavam. O cheiro da fruta amadurecendo no pé, estatelada e podre no chão do quintal ou amassada no doce sendo feito pela mãe: todos esses aromas inundavam a paisagem de outrora e ainda marcam a mente do poeta-menino. E a do leitor.  

Mas os cheiros não são só os agradáveis e não se restringem a alimentar o saudosismo. Eles também servem de denúncia ou são maus cheiros, fedores que habitavam aquele tempo/lugar/pessoas e que também contam sua história. É o caso, por exemplo, do forte odor de estrume, de curral, de peixe, de fruta podre, de rua boêmia. Há também os cheiros que marcam épocas, como o lança-perfume no carnaval. E, por fim, os cheiros que merecem denúncias, como o de fogo na mata, acirrando a seca, e das enchentes do rio que se antropomorfiza na escrita do poeta, tal qual o Capibaribe de João Cabral de Melo Neto.  

Aqui me despeço, pois a crítica raramente é capaz de levar o leitor às sensações estéticas que só o texto literário pode proporcionar. Deixo-lhes a seguir um pequeno trecho da obra e convido os leitores a também sentirem os cheiros da poesia de Cláudio Bento e tirar suas próprias conclusões. Boa leitura!  

“A minha vida era feita de cheiros
De sons de quintais
De frutas e peixes
Principalmente
Daquele forte cheiro de jenipapo
Feito uma tatuagem corrosiva e nua
Pairando o coração reinventando odores”

* Pollyanna de Mattos Vecchio é escritora e doutoranda do Cefet-MG

capa do livro 'Cheiro de jenipapo'

“Cheiro de jenipapo”
De Cláudio Bento
65 páginas
Princeps Editora
Pode ser comprado no site caravanagrupoeditorial.com.br 
R$  40


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