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Estado de Minas POETA

Referência da poesia moderna: uma cerveja com Rimbaud

Editora Chão da Feira reúne os últimos escritos do poeta francês em tradução inédita no Brasil


23/07/2021 04:00 - atualizado 23/07/2021 07:48

O poeta português Mário Cesariny explica, em uma das notas de sua tradução de Rimbaud, que “Saison” (literalmente “temporada/estação” em francês) é também o nome de uma “cerveja à moda de Charleville”, cidade do autor francês que é uma referência incontornável na poesia moderna. Daí deriva, segundo o tradutor do recém-publicado “Iluminações/Uma cerveja no inferno” (Chão da Feira), a opção pelo termo etílico (cerveja) em substituição ao mais convencional (temporada), que remeteria à passagem de um determinado período.

A escolha do termo que estampa o título da obra, ademais, atesta muito bem o paradigma de tradução de Cesariny, que arrisca bastante, para, muitas vezes na dissonância, encontrar a convergência com a radicalidade poética de Jean-Arthur Rimbaud (1854-1891). De qualquer forma, o termo “saison” (temporada ou cerveja) remete à imersão que o poeta faz no inferno, junto com a linguagem, poética. E esse é o grande interesse de ler, mais uma vez, uma versão em português daqueles que são considerados, em conjunto, os testamentos poéticos do jovem poeta vidente, que abandonaria a literatura pouco tempo depois de escrevê-los.

E o que lega aos leitores de hoje esse testamento de Rimbaud, na tradução, por assim dizer, irrequieta e às vezes elétrica de Cesariny? Ora, um dos inusitados sentidos que podemos dar, passados tantos anos, à expressão “poeta vidente” é a de artista que foi capaz de produzir uma súmula radical daquilo que viria depois de si. Rimbaud está presente em tudo o que de mais significativo a poesia do século 20 produziu, seja de forma mais evidente ou mais incidental, porque foi capaz de se vincular profundamente a uma época, transfigurando-a de modo essencial, de sorte que tudo se transforma em outra coisa dentro de sua poética, em que o belo e o terrível deslizam numa linguagem que é puro romper de paradigmas: “Sendo a realidade espinhosa demais para a minha grande personalidade [...] Tudo se tornou sombra e aquário ardente”.

Em referência a qualquer outro poeta, essas afirmações seriam chavão e teriam lá o seu quê de postiço, mas, em Rimbaud, elas têm sentido amplificado e real em termos poéticos, ontológicos e históricos. Como obras de vidente, “Iluminações” e “Uma cerveja no inferno” anunciam e problematizam o destino moderno da poesia através de um mergulho no presente e nas veleidades mais íntimas do poeta realizado através da provocação dos limites da linguagem poética. Acerca disso, são reveladores os últimos períodos da quarta seção do poema “Juventude”: “Quanto ao mundo, que te mostrará ele, quando saíres? Em todo o caso, nada das aparências atuais”.

Antonio Candido, de forma arguta, indica a lógica de “transfusões” que a poética de Rimbaud opera, “entre mostrar e esconder o mundo visível”; o que seria, de acordo com o crítico, o núcleo de “um tipo novo de poesia, que alterava os hábitos e propunha modalidades insólitas de percepção”. Este testamento poético que chega agora ao leitor de língua portuguesa exprime muito bem a ponte que Rimbaud estabelecera entre um padrão poético passado que é preciso “desconjuntar” e um padrão futuro que é preciso iluminar. Como diz o próprio poeta em “alquimia do verbo”: “O ferro-velho poético fornecia muita mão de obra à minha alquimia do verbo”.

Eis a consistência de seu percurso pelo inferno, o seu grande legado de alguém que, lembrando mais uma vez Antonio Candido: “Soube sugerir de maneira muito pessoal que a poesia é capaz de elaborar um tipo próprio de comunicado, não regido pela necessidade de transmitir mensagens explícitas”. Nesse diapasão, ajustam-se muito bem as tonalidades de entorpecimento que levam a outro grau de lucidez indicadas no título “Uma cerveja no inferno”, conforme a interpretação de Cesariny, e que se fazem presentes, por exemplo, em “Manhã de embriaguez”: “Temos fé no veneno. Sabemos dar a nossa vida inteira todos os dias”.

A reunião das duas últimas obras de Rimbaud em uma única edição, à parte a polêmica secular que se estabeleceu historicamente acerca da anterioridade de “Uma cerveja no inferno” em relação a “Iluminações”, dá oportunidade de ponderar o quanto elas são, ao mesmo tempo, muito semelhantes e, também, relativamente distintas. Une-as, por exemplo, a rebeldia da linguagem realizada como espelho da necessidade concreta da utopia e da revolução.

SUPERAÇÃO DA MODERNIDADE

Rimbaud havia acompanhado com interesse e presencialmente o movimento da Comuna de Paris em 1871 e é na esteira desses acontecimentos políticos que as obras são escritas. Considerando esse contexto, não será despropósito considerar que a “operação infernal” da poética de Rimbaud nessas duas obras está vinculada a uma certa concepção de base: o poeta é o representante do que de melhor a modernidade pode deixar viver contra si. Ou seja: a obra de Rimbaud é algo que prefigura a possibilidade/necessidade de superação radical da modernidade.

Num tempo em que muitos ainda eram crentes em suas possibilidades, o poeta vidente convoca os parâmetros convencionais da modernidade a um mergulho no inferno. Desse modo, não se pode utilizar convencionalmente os elementos da tradição para ponderar o alcance estético dessa obra, tendo em vista que ela pede o “desregramento de todos os sentidos” críticos. Como alerta o poeta em “Mau sangue”: “Não sou prisioneiro da minha razão” – e por que o seriam os leitores?

Em suma, são aspectos de similitude entre os dois escritos a tentativa de levar ao limite do exprimível a linguagem poética, o período histórico posterior à Comuna de Paris, a disposição viajante do olhar poético e a lógica poética das “transfusões” entre a referência e o símbolo. Mas há também aspectos disjuntivos para os quais vale a pena atentar. Entre esses, ocupa lugar central o “inferno”, que, em “Iluminações”, possui uma consistência de sombra, de ameaça, mas que é, há um só tempo, alusão e estrutura. Em “Uma cerveja no inferno”, por sua vez, o infernal é o próprio ar que a voz lírica/poética/narrativa respira. Também quanto ao modo literário essas obras de Rimbaud se distinguem. Nas “Iluminações”, por exemplo, destaca-se o tipo de composição imagética/retórica, organizada segundo um princípio basicamente descritivo.

Em “Uma cerveja no inferno”, diferentemente, certos mecanismos e princípios ficcionais colaboram com a estrutura, sendo, talvez, o seu ponto de partida e traço distintivo mais evidente. Nessa obra, assim, verifica-se que a narratividade insólita e alucinante é o que comanda o jorro retórico infernal que caracteriza o conjunto. Para além disso, o uso da prosa poética dá a tudo um ar de insolência para com os aparatos mais bem comportados do padrão poético vigente. É o que se vê numa frase presente na abertura de “Uma cerveja no inferno” e que bem caracteriza também as “Iluminações”: “Uma noite, sentei a beleza nos meus joelhos. – E vi que era amarga. – E injuriei-a”.

Rimbaud é, mais do que todos, sempre novo, porque nada se fecha definitivamente na sua arquitetura poética de signos e de sugestões, movimentada por uma rede de associações posta em movimento numa velocidade alucinante. Algo que só ele, e por pouco tempo, foi capaz de fazer, como se vê no testamento poético que são esses seus últimos escritos. Ninguém como ele, apesar de tantas tentativas posteriores, teve mais legitimidade para, como poeta, dizer: “Só eu tenho a chave desta parada selvagem”.

“Iluminações / Uma cerveja no inferno”
• Jean-Arthur Rimbaud
• Tradução de Mário Cesariny
• Editora Chão da Feira
• 208 páginas
• R$ 60

Os dois livros

“Iluminações” é um conjunto de 42 poemas em prosa, sem ordem de sucessão determinada pelos manuscritos de Rimbaud. Os textos são autônomos, com temas diversos.  Já “Uma cerveja no inferno” reúne oito textos escritos entre abril e agosto de 1873, durante um dos surtos campestres do poeta. A tradução publicada pela Editora Chão da Feira, sediada em Belo Horizonte, é assinada por Mário Cesariny (1923-2006), nascido em Lisboa e considerado um dos expoentes do surrealismo português.

*Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília e poeta, autor, entre outros, de “Tangente do cobre” (Laranja Original, 2021)


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