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Estado de Minas ENTREVISTA

'É preciso resolver complexos de colonialista e colonizado'

Professor emérito da Universidade do Porto, Arnaldo Saraiva fala ao Pensar de sua paixão por Fernando Pessoa e da problemática relação entre Brasil e Portugal


23/07/2021 04:00 - atualizado 23/07/2021 08:02

Sempre achei meio esquisita as relações entre a cultura brasileira e a portuguesa. Fora o autor da modinha, que reina absoluto durante algum tempo em Pindorama para, em seguida, e inevitavelmente, acabar caindo na vala comum do esquecimento, as relações entre as duas literaturas sempre foi inconstante.

Se desde o período salazarista importantes críticos portugueses acabaram morando por aqui, e contribuindo na divulgação da literatura portuguesa entre nós – basta pensarmos em nomes como Manuel Rodrigues Lapa, Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena, Jaime Cortezão ou Fidelino de Figueiredo –, o mesmo não acontece em Portugal: são poucos os críticos de peso que contribuíram para a divulgação das letras brasileiras na terra de Camões.

Daí a importância do trabalho de Arnaldo Saraiva para a cultura brasileira. Professor emérito da Universidade do Porto, ele é autor de livros fundamentais, como "Modernismo brasileiro e modernismo português" e "Conversa com escritores brasileiros". Grande amante da obra de Fernando Pessoa, ele foi ainda um dos fundadores do Centro de Estudos Pessoanos, que ajudou a tornar a obra do poeta português mais conhecida no planeta.

E é exatamente a junção dessas duas paixões, o Brasil e o poeta de "Mensagem", que podemos encontrar no volume "A entrada de Fernando Pessoa no Brasil", lançado pela editora carioca Batel. O professor também é estudioso da poesia de Carlos Drummond de Andrade, com quem manteve amizade estreita até a morte do poeta mineiro. Para conversar um pouco sobre sua obra, o Pensar entrevistou, por e-mail, o professor Saraiva. Confira, a seguir, os melhores trechos da entrevista.

(foto: divulgação)
(foto: divulgação)

"A ignorância mútua (entre Brasil e Portugal) ainda se faz sentir demasiado, mesmo depois da invenção da internet e das redes sociais, ou depois da multiplicação de voos entre os dois países, do aumento espantoso de emigrantes brasileiros em Portugal, de turistas de cá ou de lá, do incremento de exportações e importações de numerosos produtos, inclusive culturais"

Arnaldo Saraiva, professor emérito da Universidade do Porto


Como surgiu a ideia de escrever "A entrada de Fernando Pessoa no Brasil" ?
Quando estive pela primeira vez no Brasil, em 1965, os leitores brasileiros de Fernando Pessoa dispunham já de um volume, organizado por Maria Aliete Galhoz, com a então chamada “Obra poética”, sem equivalente ainda em Portugal. Mas estranhei o que me garantiram vários escritores, Drummond incluído: que Pessoa só chegara ao Brasil no fim dos anos 40 (quando o mesmo Drummond escreveu o “Sonetilho do falso Fernando Pessoa”).

Estranhava tal ideia por saber que Pessoa colaborara com estrondo em 1912 na revista A Águia, muito lida no Brasil, codirigira a revista luso-brasileira Orpheu (1915), que o relacionou com Ronald de Carvalho, e já nas décadas de 1910 e 1920 tinha no Brasil amigos e admiradores como o poeta e futuro editor dele Luís de Montalvor, o artista Correia Dias, que veio a se casar com Cecília Meireles, o escritor e editor do Anuário do Brasil, Álvaro Pinto, etc. Por isso, não tardei a publicar no Brasil e em Portugal um artigo a contrariar tal tese. Mas investigações minhas e de outros viriam a nos trazer surpresas, que Pessoa nunca cessa de provocar. Por exemplo: a colaboração de Pessoa com traduções dispersas pelos 24 volumes da monumental Biblioteca Internacional de Obras Célebres, preparados em 1911 e 1912, em Portugal, para serem vendidos no Brasil, onde ajudaram a formar escritores como Drummond, Cecília e Guimarães Rosa.

Uma dúzia de anos depois, surgia no Brasil a popular “enciclopédia” Tesouro da Juventude, na qual Pessoa também colaborou. Dessas e de outras por vezes insuspeitas referências de brasileiros a Pessoa ao longo das décadas de 1920, 1930 e 1940, dou conta nesta terceira edição ampliada do meu estudo, que prova que ainda em vida Pessoa começou a fecundar a literatura brasileira , onde nas décadas seguintes passou a ter uma presença comparável à de Camões, desmoralizando assim quantos criticaram os editores da Agir por, em 1957, terem incluído uma antologia pessoana na coleção Nossos Clássicos.

Em “A Entrada de Fernando Pessoa no Brasil”, na cronologia referente ao ano de 1922, o senhor escreve que “salvo Ronald de Carvalho, os homens da Semana de Arte Moderna ou os modernistas brasileiros, ignoraram Pessoa”. Por que os modernistas brasileiros não perceberam a grandeza de Pessoa?
Desde logo, por falta de informação. Na década de 20, entre os modernistas, além de Ronald de Carvalho, talvez só Cecília Meireles tenha lido alguma coisa de Pessoa, amigo, como já disse, do seu marido, Correia Dias. Mas, em 1922, até em Portugal havia ainda muito poucos a dar-se conta da genialidade de Pessoa e de Sá-Carneiro (ou do mais velho Camilo Pessanha). Antes da publicação de “Mensagem”, em 1934, Pessoa quase só existia em revistas, que mal chegariam ao Brasil, aonde a bem dizer nem chegou a principal revista modernista portuguesa, Orpheu, por sinal idealizada em Copacabana por Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho, diretores do primeiro número.

Às dificuldades de comunicação luso-brasileira, agravadas durante a guerra, juntara-se, nas vésperas das celebrações do primeiro centenário da independência brasileira, algum desprezo, antipatia ou preconceito em relação ao pequeno e velho Portugal por parte de alguns intelectuais, um ou outro marcado pelo integralismo, o que poderia levar o próprio Drummond a dizer em registro jocoso que Portugal era “um país que gerou ‘Os lusíadas’ e morreu” (imagine-se, com Pessoa a escrever a "Mensagem"!).

Seu encontro com a obra de Drummond foi, como o senhor já disse, quase uma “epifania”. Conheceu primeiro lendo os poemas em uma antologia. E, mais tarde, numa antologia de literatura brasileira em francês: uma tradução de “A flor e a náusea”. Ainda estudante, escreveu um artigo sobre ele que saiu no Diário de Notícias. Pode contar como foi este primeiro contato?
Fiz a história sintética do meu encontro e dos meus encontros com Drummond no “folheto”, publicado há dois anos, “Carlos Drummond de Andrade, uma pedra (preciosa) no meio do (meu) caminho”. O que chamei “epifania” drummondiana aconteceu quando, aluno do primeiro ano da Faculdade de Letras de Lisboa, encontrei por acaso e comecei a ler a "Anthologie de la Poésie Brésilienne Contemporain" (1954) com organização e traduções de um esquecido poeta nascido em Campos (RJ, e não como vem nalguns livros, ES), António Dias Tavares-Bastos; a certa altura, tropecei no nome e num poema de Drummond, “La fleur et la nausée”, e tive um tremendo abalo emotivo.

Não descansei enquanto não li o original em português, e quis logo ler tudo quanto encontrasse em Portugal do autor; não encontrei muito, mas o que li impeliu-me para a publicação no Diário de Notícias lisboeta de um artigo sobre o grande poeta que nessa altura poucos portugueses conheciam.

Foi um amigo de Drummond quem o apresentou a Drummond. Quem foi esse amigo?
Na faculdade, conheci o professor Thiers Martins Moreira (curiosamente, também nascido em Campos, quatro anos depois de Tavares-Bastos), que suspendera a docência na UFRJ para servir como adido cultural na embaixada do Brasil em Lisboa. Ele leu o meu artigo e pediu-me para o enviar a Drummond. Manifestando-lhe a minha dificuldade em fazê-lo, com receio de que o poeta o achasse fraco, foi ele próprio quem lho enviou. E algum tempo depois fui surpreendido com uma carta de agradecimento de Drummond – carta que naturalmente estimulou ainda mais o meu empenho no seu estudo, até em tese universitária, e iniciou uma amizade que durou até a sua morte.

“Sonetilho do falso Fernando Pessoa”, que está em "Claro enigma", foi escrito em 1948. Drummond foi mesmo o primeiro poeta a escrever sobre Pessoa?
No meu estudo “A entrada de Fernando Pessoa no Brasil”, dou conta das várias referências no Brasil a Pessoa desde 1912 até meados do século, e digo que quase todos os poetas brasileiros das últimas décadas homenagearam ou se valeram de Pessoa. Drummond foi o primeiro; mas a grandeza de Pessoa, que sem reter o seu nome ele lera em tradução quando andaria pelos 11 ou 12 anos, já antes do “Sonetilho” tinha sido reconhecida por Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, Cecília Meireles e Murilo Mendes.

O senhor foi o responsável por Drummond topar publicar o livro "Uma pedra no meio do caminho". Poderia contar esta história?
Dispondo-me a estudar a poesia de Drummond, quis ler tudo o que sobre ela tinha sido publicado. E dei-me conta das muitas reações extremadas, positivas e negativas, sérias e jocosas, que provocou o “poema da pedra” depois da sua publicação, na primeira página da Revista de Antropofagia (nº 3, 1928). Disse a Drummond que o conjunto das referências, incluindo paródias e citações em vários contextos, daria um livro muito interessante e exemplar, como não havia em nenhuma literatura. Passada a hesitação inicial, acabou por me apoiar com alguns recortes, reorganizou e deu títulos às partes (o título e subtítulo foram também sugestão minha), pediu-me para escrever a introdução e tratou da edição com a Editora do Autor.

Sua tese “Carlos Drummond de Andrade: Do berço ao livro” (1968) é considerada um dos mais importantes estudos sobre a obra de Drummond. Por que nunca publicou em livro?
Inicialmente, queria ocupar-me da poesia publicada em livro, mas constatando que antes de "Alguma poesia" o poeta já tinha muitas colaborações dispersas por revistas e jornais (incluindo um jornalzinho de colégio), quase totalmente ignoradas pela crítica, achei melhor recolher e estudar essas colaborações e ocupar-me da formação literária de Drummond, a quem informei da minha decisão e que nunca me faltaria com esclarecimentos sobre a sua infância e juventude (tenho a certeza de que nasceram então os primeiros poemas de "Boitempo") e com o empréstimo de pastas do seu excelente arquivo.

Um dia, informei-o de que já tinha um primeiro esboço da sua árvore genealógica, que obtivera as suas notas da escola infantil e exemplares da Aurora Colegial, que ele não tinha; depois, disse-lhe que estudara a sua participação no Modernismo mineiro; e por fim anunciei-lhe que tinha recolhido meia centena de poemas que não estavam, alguns para espanto meu, em livro, várias crônicas e poemas em prosa. Mas quando em Lisboa já me aproximava da data da entrega da tese, recebi uma carta de Drummond a pedir-me para não falar em nada que dissesse respeito à “rotina da sua vida”. Fiquei surpreendido, quis dialogar a tal respeito com ele, mas sabia que ele seria intransigente.

Pergunto-me até hoje o que terá determinado esse pedido, que não sei se teve que ver com uma pilhéria do meu amigo Otto Lara Resende, que disse a Drummond que eu sabia tudo sobre ele, “até os nomes das suas namoradas”; Plínio Doyle, que tinha os dois volumes da minha tese, e que muito convivia com Drummond, garantiu-me que no fundo o que ele não queria era a revelação das suas primícias literárias. Defendi a tese, mas, para não perder o amigo, decidi não a publicar. E passado o “luto” dele e meu voltamos à relação muito cordial, publiquei uma antologia da sua poesia, pediu-me para escrever a introdução à sua “Obra” editada em Portugal e pude despedir-me pessoalmente dele poucos dias antes da sua morte.

O senhor estava no Rio na semana em que morreu Maria Julieta, filha do poeta. O senhor inclusive esteve presente ao velório dela. Poderia relembrar um pouco aqueles dias?
Cheguei ao Rio em 2 de agosto de 1987. Na manhã do dia 3, telefonei a Drummond, que normalmente me marcava logo um encontro em sua casa; mas pediu-me para voltar a telefonar-lhe no dia seguinte, porque andava muito preocupado com a doença (cancerígena) da sua filha e passava as tardes no hospital. A certa altura desabafou: “Arnaldo, se a minha filha morrer eu perco todo o interesse em viver.” Telefonei-lhe no dia seguinte, disse-me “venha aqui em casa amanhã de manhã, pelas 11h” (normalmente ia à noite); e perguntando-lhe pela saúde da filha, respondeu que espevitara por momentos, mas continuava em perigo; e voltou a repetir a terrível frase da véspera.

Acabado o telefonema, decidi enviar a Julieta um ramo de rosas. No dia seguinte, preparava-me para ir ao encontro de Drummond quando recebi uma chamada de Celso Cunha, a anunciar-me a morte de Julieta, acrescentando: o enterro é daqui a poucas horas. Corri para o Cemitério de São João Baptista; Drummond estava na capela, acompanhado por três amigos, todos silenciosos. António Houaiss quebrou o silêncio, anunciando-lhe a minha aproximação. Ele ergueu a cabeça e deu-me um abraço longo e apertado como nunca me dera, ao mesmo tempo em que me dizia ao ouvido: “Não sabe a emoção com que eu e a minha filha recebemos ontem as suas rosas.

O último gesto que ela fez foi despetalar uma das suas rosas”. Foram as últimas palavras que ouvi a Drummond, que ainda entrevi num sofá, prostrado, pelo que nem ousei falar-lhe, quando no dia seguinte fui levar a sua casa uma garrafa de vinho do Porto, que ele tanto apreciava. Onze dias depois, recebia já em Portugal a notícia da sua morte.

O senhor também foi amigo de João Cabral. Privou de uma intimidade que poucas pessoas privaram, já que ele era um homem muito reservado. É autor de um livro primoroso para quem se interessa por Cabral: “Dar a ver e a se ver no extremo”. Que lembranças tem dele neste período que ele foi cônsul no Porto?
Fui recebê-lo ao aeroporto no dia da sua chegada e do seu aniversário, em 9 de janeiro de 1985, e ao ver-me disse enfaticamente, sorrindo, uma frase que eu escrevera a propósito de “A educação pela pedra” (“Eis um livro que custa os olhos da cara”); também fui despedir-me dele na estação de trens em 6 de setembro de 1987, quando saiu definitivamente do Porto. Ele gostava muito da cidade, e por várias vezes me deu conta do seu desejo de se fixar nela depois de encerrar a carreira diplomática, já que não lhe agradava nada a ideia de residir no Rio.

No entanto, enfrentou alguns graves problemas nos meses que passou no Porto, onde a sua mulher, Stella, chegou já ameaçada pelo câncer (morreria meses depois, no Rio), onde fez delicadas operações, uma gastrectomia e uma laperotomia exploratória, que paradoxalmente o curou da enxaqueca de décadas, e onde iniciou a relação com a segunda mulher, a poetisa Marly de Oliveira. Cumprindo o mínimo obrigatório das funções diplomáticas, gostava de ficar na sua consular “casa de brasileiro”, envelhecida mas com um grande jardim, a ler e a escrever poemas que publicaria em “Agrestes”, “Crime na Calle Relator” e “Sevilha Andando”.

O fundador do Suplemento Literário, Murilo Rubião, também morou aí no Porto, trabalhando com Cabral. Lembra-se de alguma história com Murilo?
João Cabral, que não organizava coquetéis, recebeu algumas – poucas – visitas. Na sua casa acolheu filhos dele e de Marly, além do poeta Bruno Tolentino, que um dia me disse que teve de expulsar, e por lá passaram, por exemplo, Rubem Braga e Caetano Veloso ou Agustina Bessa Luís. Se passou também Murilo, não sei; o que sei é que Murilo o acompanhou na primeira viagem que ambos fizeram da Espanha ao Porto, em 1956 ou 1957.

O senhor é fundador do Centro de Estudos Pessoanos. Poderia falar um pouco desse trabalho?
Nos anos 70, incomodava-me saber que muitos estudantes (e até professores) universitários e grandes intelectuais estrangeiros ainda ignoravam a literatura de Pessoa, em quem eu via não só a maior figura da cultura portuguesa depois de Camões, mas também, como viu Roman Jakobson, um dos maiores criadores do século 20. Depois de 1974, tentei criar na minha faculdade uma cadeira dedicada ao poeta, mas não foi possível. Por isso, criei mais tarde, desvinculado da universidade, esse Centro, que se propunha a estudar, editar, traduzir e divulgar a obra de Pessoa.

Com uma pequena equipe e pouco apoio, editamos a revista Persona e alguns livros, organizamos os primeiros congressos internacionais de estudos pessoanos, lutamos pela formação de uma equipa de edições críticas, apoiamos investigadores nacionais e estrangeiros, conseguimos com êxito, solicitados pela irmã de Pessoa, que guardava o seu espólio, que esse fosse adquirido e preservado pelo Estado português, e até consagramos o uso do adjetivo “pessoano”, porque me repugnava o “pessoísta” e o “fernandino” então em uso.

O senhor é autor de "Modernismo brasileiro e português". Na época do lançamento do livro, o senhor dizia “que não concebe que Portugal possa ignorar a cultura do Brasil e que o Brasil possa ignorar a cultura portuguesa”. Como andam essas relações hoje?
Problemáticas, como já antes da independência brasileira. Em Portugal e no Brasil, ainda é preciso resolver alguns complexos de colonialista e de colonizado, lembrar as vantagens comunicativas e culturais de uma língua comum, embora diferenciada, e planetária – que produziu escritores universais como Camões, Vieira, Eça, Pessoa, Machado, Drummond, Guimarães Rosa, Clarice… –, atacar a ignorância ou a desvalorização do que se cria do outro lado do Atlântico e das boas tradições seculares (também há tradições brasileiras com repercussão em Portugal).

A ignorância mútua ainda se faz sentir demasiado, mesmo depois da invenção da internet e das redes sociais, ou depois da multiplicação de voos entre os dois países, do aumento espantoso de emigrantes brasileiros em Portugal, da multiplicação de turistas de cá ou de lá, do incremento de exportações e importações de numerosos produtos, inclusive culturais. A solidariedade entre países com a mesma língua e com alguma história comum, ainda quando marcada por tragédias, como a do racismo e da escravatura, que não devem ser ignoradas ou relativizadas, favorecerá sem dúvida o progresso desses países e pode ter também um peso cultural muito importante no planeta, contribuindo decisivamente para que ele seja mais habitável.

O senhor aparece na “Antologia dos poetas brasileiros” (Fase Moderna, de Manuel Bandeira e Walmir Ayala) e na “Antologia da novíssima poesia portuguesa”, de Maria Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro. Ainda escreve poesia?
Escrevo, quase sempre para a gaveta. Já há muito publiquei dois livros, e de tempos a tempos publico algum poema avulso. Tendo convivido com a grande poesia de amigos íntimos, como Herberto Helder, Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Ruy Belo, Drummond, João Cabral, pensando em poetas de várias línguas, antigos e modernos, que me enchem as medidas, pergunto-me se não será grave descortesia ou descaramento interpor-me entre eles e os já sobrecarregados leitores, se vale a pena publicar a minha modesta poesia, que, isso sim, acho que devo continuar a escrever.

Poderia falar um pouco do seu interesse pela literatura de cordel e de sua coleção?
O meu gosto, e não só o meu, pela literatura definiu-se antes de saber ler, no convívio oral com cantigas de embalar, lenga-lenga, orações, canções religiosas e de trabalho, contos populares, quadras, adivinhas, provérbios, um enorme e riquíssimo conjunto de textos com sucesso às vezes de séculos e em geral ignorados pelas escolas, pelas universidades e pela crítica canônica – tal como, até há poucas décadas, a literatura de cordel, escrita, impressa, mas em papel pobre e linguagem de pobre, concreta e oralizante.

Na típica literatura de cordel, seja a portuguesa dos séculos 16 até meados do século 20, seja a nordestina, que se impôs nos fins do século 19 e ainda está bem viva, embora cada vez mais epigonal e inflacionada, encontrei obras-primas como as dos “cinco livros do povo”, entre os quais a “Donzela Teodora e o João de Calais”, estudados pelo grande e esquecido Luís da Câmara Cascudo, e textos espantosos de diversa espécie – fictivos, pedagógicos, satíricos; teatro, prosa, poesia –, alguns dos quais fazem parte da minha coleção de folhetos portugueses, à volta de mil, e brasileiros, mais de 6 mil.

Quais nomes o senhor destacaria como revelação na literatura portuguesa nas últimas décadas?
Em Portugal, como em quase todos os países, há hoje legiões de escritores (ou de escreventes), que a facilidade e o comércio editorial, a indústria cultural e a internet estimulam, e que deixou de ser possível acompanhar devidamente, comparar e distinguir, até porque muitos já publicaram vários livros antes dos 30 anos. Assim, limitar-me-ei a apontar dois nomes sólidos revelados nas duas últimas décadas: Gonçalo M. Tavares e Rui Lage.

A ENTRADA DE FERNANDO PESSOA NO BRASIL
.Arnaldo Saraiva
.Editora Batel
.72 páginas
.R$ 39

*João Pombo Barile é jornalista e redator do Suplemento Literário do Minas Gerais


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