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Estado de Minas POESIA

Novo livro consolida Ana Martins Marques no topo da poesia

Escritora mineira, nascida em Belo Horizonte em 1977, lança 'Risque esta palavra' e ganha a reedição de sua estreia, 'A vida submarina' de 2009


25/06/2021 04:00 - atualizado 25/06/2021 08:52

(foto: Rodrigo Valente de Noronha/Divulgação)
(foto: Rodrigo Valente de Noronha/Divulgação)
A história de Ana Martins Marques na literatura brasileira ainda está sendo escrita. Mas não é exagero afirmar que a belo-horizontina, nascida em 1977, é uma das principais vozes poéticas do século 21. Vencedora dos prêmios Biblioteca Nacional com “Da arte das armadilhas” (2011) e Oceanos com “O livro das semelhanças” (2016), Ana Martins tem ampliado leitores a cada publicação.

O lançamento de “Risque esta palavra” pela Companhia das Letras e a reedição de “A vida submarina”, originalmente editado pela Scriptum em 2009, devem impulsionar ainda mais o interesse – e o encanto. “Desde que a li pela primeira vez, Ana Martins Marques tornou-se dona de um quinhão espaçoso de meu fervor literário. A vida submarina que ela despejou sobre esse leitor provocou uma espécie de imediata dependência afetiva: como viver, a partir de então, sem o desfrute daquela escrita tão perturbadoramente íntima?”, questiona o jornalista e editor José Eduardo Gonçalves.

Ele mesmo responde: “Com uma simplicidade oblíqua e refinada, a poeta observa o cotidiano e suas miudezas para alcançar um lugar onde tudo é vasto, inalcançável, exatamente porque é próximo demais”.



Escritora e crítica literária, Maria Esther Maciel teve Ana Martins como aluna na Letras da UFMG e orientou a tese de doutorado da autora. “É uma poeta admirável, com uma dicção inconfundível, que alia elegância, frescor, simplicidade e cuidado com a linguagem para capturar o que se esconde (e se revela) nas dobras da vida cotidiana. Além disso, reinventa, por vias imprevistas, o legado de poetas de diferentes gerações e nacionalidades. Cada poema que escreve é uma surpresa para quem o lê.” 

E como nascem as surpresas?

“O poema, para mim, tem a ver com uma atenção para a materialidade das palavras, seu peso, sua velocidade, o ritmo, o corte, as relações de vizinhança e de atrito entre as palavras”, conta Ana Martins em entrevista a Márcia Maria Cruz. (Leia nas páginas 2 e 3.) 

Do “atrito entre as palavras” nascem poemas feitos de silêncios (“o rastro que deixou o animal que não passou”), mares, Minas, viagens, lembretes, mitos e mortes. Muitos surgem de reações a criações de outros poetas: Manuel Bandeira, Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto, Wislawa Szymborska. “O que mais me fascina (na obra de Ana Martins) é a conversa interminável sobre a poesia em si, assunto de tantos de seus poemas, mesmo que venham ‘disfarçados’ de poemas de amor, ou de poemas sobre os objetos que cercam nossa insistente e banal existência”, aponta Andréa Sirihal Werkema. “Ana faz de sua poesia autorreflexiva um lugar que se alterna entre a frágil suavidade e a promessa de humor, mas há a perda, há a solidão, há a casa vazia”, destaca a professora da UERJ. 

Além de residências desocupadas, os versos do novo livro e da reedição têm pedras, línguas, cinzas, lapsos, barcos e corpos. Alguns deles, feitos de palavras certeiras como “relâmpagos atravessando a pele”, são reproduzidos nesta edição especial do Pensar. Eis uma amostra do trabalho de quem escreve poemas, ou melhor, “devolve o papel à árvore”, como diz em “Risque esta palavra”.

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
A poesia de Ana Martins Marques atravessa as páginas e nos desnorteia.

História

Tenho 39 anos.
Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos.
Meus seios têm cerca de 12 anos a menos.
Bem mais recentes são meus cabelos
e minhas unhas.
Pela manhã como um pão.
Ele tem uma história de 2 dias.
Ao sair do meu apartamento, 
que tem cerca de 40 anos,
vestindo uma calça jeans de 4 anos
e uma camiseta de não mais que 3,
troco com meu vizinho
palavras de cerca de 800 anos
e piso sem querer numa poça
com 2 horas de história
desfazendo uma imagem
que viveu
alguns segundos.

Depoimento

Maria Esther Maciel, escritora e professora da UFMG

“Acompanho o trabalho poético de Ana Martins Marques desde seu primeiro livro, ‘A vida submarina’. É uma poeta admirável, com uma dicção inconfundível, que alia elegância, frescor, simplicidade e cuidado com a linguagem para capturar o que se esconde (e se revela) nas dobras da vida cotidiana, além de reinventar, por vias imprevistas, o legado de poetas de diferentes gerações e nacionalidades. Cada poema que escreve é uma surpresa para quem o lê.  Com vigor e sutileza ao mesmo tempo, ela consegue flagrar o que há de incomum nas coisas comuns, trazendo para o cenário contemporâneo da poesia brasileira não apenas uma nova maneira de lidar com a armadilha das palavras, mas também um outro olhar sobre a realidade, os jardins, os livros, as relações de afeto e a vida ao redor.” 

Depoimento

José Eduardo Gonçalves, Jornalista e editor

“O assombro inicial jamais se dissipou. Desde que a li pela primeira vez, em um distante 2009, Ana Martins Marques se tornou dona de um quinhão espaçoso de meu fervor literário. A vida submarina que ela despejou sobre este leitor provocou uma espécie de imediata dependência afetiva: como viver, a partir de então, sem o desfrute daquela escrita tão perturbadoramente íntima?. Com uma simplicidade oblíqua e refinada, a poeta observa o cotidiano e suas miudezas para alcançar um lugar onde tudo é vasto, inalcançável, exatamente porque é próximo demais. Dá vontade de não caber no mundo, porque a gente não cabe mesmo. ‘Os peixes são tristes no aquário/mesmo que não co- nheçam o mar/alguma coisa neles quer o amplo’. Minhas escamas arderam ao ler isso. Ainda ardem. Eu pressenti, atordoado, o que se confirmou mais adiante: estava ali a me- lhor poeta de sua geração (e olha que há ótimas!). Com ela continuo a mergulhar em águas profundas, até aquela escuridão onde tudo se ilumina. A palavra insone, feroz em sua solidão. Todos os poemas são de amor, ela disse. E todos os amores, mesmo entre os escombros de algo que já se perdeu, podem ser salvos pela poesia.”


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