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Livro apresenta minibiografias da infância de celebridades brasileiras

'Era uma vez 20', da escritora Luciana Sandroni, mostra a história de 10 brasileiros e 10 brasileiras importantes para a história do Brasil e como desde pequenos já davam sinais de sua vocação


postado em 10/01/2020 06:00 / atualizado em 10/01/2020 07:58


O que você sabe da infância de brasileiros célebres? Um breve retrato dos primeiros anos de vida que já apontavam como seria a vida adulta de 20 personalidades marcantes na história do Brasil. Essa é a proposta da obra infantojuvenil Era uma vez 20 – Pequenas histórias de 10 grandes brasileiros que marcaram o Brasil/Pequenas histórias de 10 grandes brasileiras que marcaram o Brasil, da escritora Luciana Sandroni e dos ilustradores Guilherme Karsten e Natália Calamari. Neste mês de férias escolares, a obra leva o jovem leitor a um passeio pela história nacional 
desde o século 18, apresentando minibiografias de uma forma descontraída e ilustrada. “Notei que a infância dos biografados já apontava para a vida adulta deles e propus dar mais atenção nesse período da vida tão importante”, conta Luciana Sandroni. “A escolha dos nomes foi feita pensando em personalidades de várias regiões do Brasil, mas a ideia é fazer uma continuação, porque tem muita gente importante”, completa a escritora, considerando a grande diversidade de personalidades de todos os ramos de ativdades ao longo da história.

Monteiro Lobato/O pai da literatura infantil

Quando José Renato, logo apelidado de Juca, nasceu, em 18 de abril de 1882, em Taubaté (SP), os pais, José Bento e Olímpia, disseram: “Será doutor, advogado”. Juca e as irmãs passavam temporadas na fazenda do avô, um rico fazendeiro conhecido como Visconde de Tremembé. Além das aventuras nas árvores e no ribeirão e brincadeiras como fazer bonecos de milho e chuchu, o menino adorava se perder na biblioteca do avô. Lia e relia Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, e os livros de Júlio Verne. Quando foi para a escola, Juca se destacou desenhando e também pintando aquarelas, mas o interesse maior era escrever. Em 1900, o jovem José Renato Monteiro Lobato entrou para a Faculdade de Direito para ser advogado ou juiz, mas queria saber apenas de ler, escrever e pintar. E acabou virando jornalista e continuou escrevendo. Foi quando surgiu O sítio do picapau amarelo, que uniu pela primeira vez realidade e fantasia em histórias com boneca e bichos falantes que viajam à Lua, à Grécia... “Lobato inovou trazendo o folclore brasileiro e a mitologia grega para as histórias. Queria formar crianças críticas, com opiniões, fazendo dos livros um projeto pedagógico”, conta Luciana Sandroni.

Santos Dumont/O pai da aviação

Desde pequeno, Alberto era curioso e cheio de imaginação e sua distração favorita era admirar o céu, os pássaros e seus voos mirabolantes. Assim era o garoto, nascido em 20 de julho de 1873, no Sítio Cabangu, em Palmira, interior de Minas, filho de um fazendeiro que ficou conhecido na época como “Rei do café”. A mãe, dona Francisca, se preocupava porque o filho vivia com a cabeça nas nuvens. Para mantê-lo dentro de casa, a mãe o atraiu para a leitura. E foi o clássico Cinco semanas em um balão, de Julio Verne, que aumentou no menino a vontade de voar. Nas festas juninas, o pequeno Alberto construía balões. “O ar quente é mais leve do que o frio, por isso o balão sobe”, constatou o garoto inventor, que também construía pipas e aeronaves de bambu que voavam impulsionadas por tiras de borracha. O maquinário da fazenda do pai também estimulava a imaginação do filho. Aos 18 anos, quando o pai foi se tratar de um acidente em Paris, Alberto descobriu de vez sua vocação. A cidade era a capital dos balões, cujas festas eram comuns no fim do século 19. Foi investindo em experimentos de balões dirigíveis, como na obra de Verne, que ele logo passou para engenhocas mais complicadas que saíssem do chão pelo força do motor. Criou então o híbrido aparelho 14 Bis, um balão unido a um aeroplano. Depois retirou o balão e o fez o aeroplano voar, em 23 de outubro de 1896. Foi uma festa. O avião estava inventado.

Garrincha/A alegria do povo

Em 28 de outubro de 1933, nasceu Manuel dos Santos, em Pau Grande, Magé (RJ), filho dos nordestinos Amaro Francisco e Maria Carolina, que já tinham quatro crianças. A parteira logo avisou: “Ele tem pernas tortas (arqueadas para dentro)”. Por ser muito pequeno como o passarinho, ele ganhou o apelido de Garrincha e cresceu solto. Além das brincadeiras de nadar, pescar e caçar passarinhos, adorava jogar peladas com sua bola de meias num campinho cheio de buracos. “Já era bom de bola, e a divisão dos times provava isso: Garrincha mais dois contra... sete!”, conta Luciana Sandroni. Aos 14 anos, quando foi trabalhar na fábrica de tecidos da região, logo chamou a atenção pelo talento com a bola. Um dia, um jogador do Botafogo o viu jogar, contou para um associado do clube, que o convocou para um teste, inclusive pagando a passagem do trem. Quando treinou com o craque famoso Nilton Santos, impressionou todo mundo com o seus dribles com bola parada. Contratado, fez 245 gols pelo clube carioca e ganhou vários campeonatos. Fez grande parceria com Pelé e foi considerado um dos maiores jogadores de todos os tempos do futebol brasileiro.

Heitor Villa-Lobos/O índio de casaca

Raul, músico amador, queria que o filho recém-nascido aprendesse a tocar violoncelo. Noêmia, a mãe, queria um médico na família. Essas eram as pretensões para o futuro do bebê Heitor quando nasceu, em 5 de março de 1887, no Bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. O pai reunia os amigos duas vezes por semana parar tocar até tarde da noite. Heitor ficava fascinado. Raul notou o interesse, ensinou o menino a tocar violoncelo e passou a levá-lo a ensaios, concertos e óperas. Mas o pai era rigoroso e exigia conhecimento musical do garoto, nota por nota. Quando Heitor fez 12 anos, Raul morreu, a família passou fome e a mãe lavou roupa para sustentar a casa. Mesmo assim, o menino foi matriculado no tradicional Colégio São Bento para estudar para ser médico. O adolescente, porém, queria tocar instrumentos. O Rio da época era a cidade dos músicos em todos os bairros, cafés, teatros etc. Os chorões – conjuntos de chorinho – chamaram a sua atenção. Mesmo contra a vontade da mãe, aprendeu a tocar violão e viajou Brasil afora deslumbrado com os ritmos, a viola sertaneja, o folclore, o sons da natureza e dos índios. Depois seguiu para a Europa e se apaixonou por clássicos como Stravinsky. Voltou para o Rio e fez composições inesquecíveis como as Bachianas brasileiras, que incluía O trenzinho caipira, e se tornou o mais importante compositor erudito do Brasil.

Pixinguinha/O menino músico

O flautista amador Alfredo da Rocha Vianna pensou que o caçula, Alfredo da Rocha Vianna Filho, que acabara de nascer, em 23 de abril de 1897, no Bairro da Piedade, no Rio, tocaria algum instrumento, porque a maioria dos 13 filhos tocava. Quando o pai, que trabalhava na Repartição Geral dos Telégrafos, reunia os amigos para tocar choro, o menino largava as brincadeiras para ouvir. Quando fez 11 anos, os irmãos o ensinaram a tocar cavaquinho e ele passou a acompanhar o pai na flauta. O pai pôs o adolescente então para estudar música com um colega dos Telégrafos e ele aprendeu a compor também. A porta para a fama e o sucesso foi aberta quando ele foi indicado por um músico para substituir um flautista doente da orquestra do Teatro Rio Branco. Ainda adolescente, ele foi, leu a partitura e até “inventou umas bossas”. A partir de então, “compôs choros inesquecíveis, foi arranjador de primeira e um dos mitos da música popular brasileira”, conta Luciana Sandroni. A origem do apelido Pixinguinha é incerta. Na infância, ele teve bexiga, nome popular da varíola, daí o apelido de Bixiguinha até chegar a Pixinguinha. Outra explicação, segundo ele revelou, seria o fato de sua avó de origem africana chamá-lo de Pinzindim, que no dialeto africano significaria “menino bom”, e acabou virando Pixinguinha.

Cândido Portinari /O menino pintor

Candinho nasceu em 30 de dezembro de 1903, na Fazenda Santa Rosa, perto de Brodowski (SP), filho de Batista, cuja mãe veio da Itália para o Brasil. Muito pequenino, rejeitava o leite da mãe, Domingas. O casal pensou então que ele não sobreviveria. Foi quando Batista decidiu dar leite de cabrita para o menino e ele aceitou. Foi assim todas as noites. Ainda aos 2 anos, Candinho gostava de ficar sentado na terra alisando-a e rabiscando com graveto, por isso era considerado esquisito. A família, anos depois, foi morar em Brodowski. Certa vez, “o padre não conseguia explicar para o carpinteiro como queria a porteira. Candinho fez um desenho e o santo homem, admirado, disse: 'Venha amanhã aprender com os trabalhadores que vão ornamentar a igreja'. Era um grupo de pintores e escultores italianos que restauravam igrejas”, conta Luciana. Foi o caminho para sua arte. Ele foi então mandado pelos pais estudar pintura na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio, fez exposições e viajou para a Europa, onde se encantou com vários artistas. Decidiu então o que queria: “Vou pintar aquela gente (de Brodowski), com aquela roupa e aquela cor”. Tornou-se um dos maiores pintores do Brasil.

Grande Otelo/O menino ator

Sebastião Fernandes de Souza Prata nasceu num casebre em Uberabinha (hoje Uberlândia), no Triângulo Mineiro, em 18 de outubro de 1915, filho da cozinheira Maria Abadia. O pai era Francisco, lavrador, que morreu cedo e não conheceu o filho. Bastiãozinho foi matriculado na escola pela mãe. Era o único negro da turma, franzino, com inteligência fora do comum. Mas matava aula e fazia serviços como engraxate, entregador e vendedor de jornais. Gostava mesmo, entretanto, era de conversar com turistas em frente ao hotel e também cantar. Tinha 7 anos. Como era simpático, muito pequeno e desinibido, encantava todo mundo e ganhou fama na cidade. A porta do sucesso foi aberta quando apareceu um circo na cidade e a trupe o convidou para fazer uma participação. “Quando ele entrou com vestido comprido, travesseiro no bumbum e braço dado com o palhaço, foi uma gargalhada geral”, conta Luciana Sandroni. Atores de uma companhia de teatro de São Paulo viram o espetáculo e o convidaram para ir para São Paulo. A contragosto do pai, ele foi com a tutela da mãe de uma atriz. Aprendeu a ser ator profissional e nunca mais parou, participando ao longo da vida de muitos filmes, peças de teatro e novelas. Foi um dos maiores atores do Brasil.

Zumbi dos Palmares/O líder guerreiro

Não há documentos sobre a data do nascimento nem sobre o nome dos pais nem sobre a infância daquele que ficou conhecido como Zumbi dos Palmares. Sabe-se apenas que nasceu na Serra da Barriga, na capitania de Pernambuco, hoje Alagoas, no fim do século 17. Historiadores dizem que ele nasceu em 1655, no Brasil colonial. Durante o violento regime escravagista imposto pelos portugueses, eram comuns as rebeliões de cativos. A mais famosa é a do Quilombo dos Palmares, a partir de um engenho de cana-de-açúcar no interior de Pernambuco, em 1597. “Foi o mais importante e organizado quilombo da história das Américas”, diz Luciana Sandroni. Durou quase um século e teve cerca de 20 mil habitantes, divididos em aldeias ligadas por trilhas pela mata. O nome de Zumbi apareceu nos documentos históricos em 1676, apontado como “negro de singular valor, grande ânimo e constância rara”. Diante da pressão contra os quilombos, governantes de Pernambuco contrataram em 1694 o bandeirante Domingos Jorge Velho, que tinha até índios em sua tropa. Depois de muita luta, Zumbi, líder de Palmares, foi morto em 20 de novembro e 1694 e sua cabeça exposta em praça pública em Recife. Essa data tornou-se o Dia da Consciência Negra no país.

Maria Quitéria/Heroína da Independência

Desde pequena, Maria Quitéria, nascida em 27 de julho de 1792, ia para a roça com o pai, Gonçalo, no Sítio do Licurizeiro, na Vila da Cachoeira (BA). Quando fez 9 anos, a mãe faleceu e Quitéria teve de cuidar dos irmãos e da casa. O pai se casou de novo, mudou-se com a família para a Serra da Agulha e prosperou criando gado e plantando algodão. “Quitéria cresceu e tornou-se uma moça corajosa, que gostava de montar e caçar. A danada era boa de pontaria”, conta Luciana Sandroni. O pai ficou viúvo de novo e se casou outra vez, mas a terceira mulher não gostava de Quitéria. “Sua filha só pensar em caçar. Dessa maneira não vai se casar nunca”, reclamava. Foi quando apareceram na fazenda cavaleiros com mensagens: “Em nome de Pedro I, viemos em busca de soldados para a guerra da independência”. Na Bahia, a luta pela independência já havia começado. Gonçalo disse que todas os filhos eram crianças. Mas a menina, para espanto de todos, se ofereceu como “soldada”. Diante da negativa do pai, ela fugiu para a casa da irmã, que lhe emprestou a farda do marido. Ela cortou os cabelos bem curtinhos e se apresentou ao Regimento de Artilharia da Cachoeira como “soldado Medeiros”, sobrenome do cunhado. Depois de reconhecida como mulher pelo Exército, a primeira aliás, ela chegou a invadir um batalhão sozinha e fez prisioneiros portugueses. Quitéria foi promovida a cadete e recebeu a medalha de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro de dom Pedro I e soldo de alferes.

Chiquinha Gonzaga/A compositora popular

Filha de pai de família rica e importante e de escrava alforriada, Francisca Edwiges Neves nasceu em 17 outubro de 1847, no Rio de Janeiro. Por causa de sua origem, sofreu preconceito pelo casamento entre um branco e uma preta em meio a vários irmãos. Além das aulas de religião, língua portuguesa, latim, francês e ciências com o Padre Trindade, Chiquinha, já mocinha, também tinha que aprender piano. “Com 11 anos, Chiquinha apresentou sua primeira composição em noite de Natal, a Canção dos pastores, com letra do seu irmão Juca”, lembra Luciana. Obrigada a se casar com o oficial da Marinha Jacinto Ribeiro do Amaral, dono de um navio mercante, “ela só queria saber de música e não dava atenção para o marido”, conta Luciana. “Mesmo depois do nascimento do filho, João Gualberto, o casal não se entendia.” Um dia, Jacinto decretou: “Chiquinha, você terá de escolher: o piano ou eu”.
Ela optou pelo piano, voltou para casa, mas não foi aceita pelo pai. Então, foi morar em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, com o filho, onde voltou a enfrentar preconceito porque “nenhuma mulher se separava do marido”. Mas insistiu e passou a dar aulas de piano, que havia se popularizado no Rio. Chiquinha compôs várias músicas, inovando com ritmos nacionais e europeus. Hoje, é lembrada principalmente por sua principal composição: “Ó abre alas, que eu quero passar....”

Bertha Lutz/A pioneira do feminismo

Filha do cientista Adolfo Lutz e da enfermeira inglesa Amy Fowler, Bertha nasceu em 2 de agosto de 1894, no Bairro da Liberdade (SP), já predestinada: “Será cientista como o pai”, profetizou a mãe. “Bertha, ainda criança deu aulas de violino e de alfabetização nas escolas que a mãe criou para meninos pobres.” Além de estudar biologia, tornando-se especialista em anfíbios, Bertha foi pioneira do movimento feminista do Brasil, lutou pelo direito das mulheres de votar, estudar, trabalhar e se candidatar a cargos públicos e políticos. Bertha e os irmãos foram levados pelo pai para estudar em Paris, onde ela se matriculou na Sorbonne. O feminismo fervia nas ruas da capital francesa, Bertha se engajou e trouxe ideias libertárias para o Brasil. Em 1919, aos 25 anos, fundou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que originou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminimo, da qual foi presidente. A principal campanha era “Voto feminino já”. Ela representou o Brasil em vários congressos internacionais, até que em 1932 Getúlio Vargas aprovou o voto feminino. Logo depois, as mulheres também puderam se candidatar. “Bertha chegou a ser suplente de deputado federal e quando assumiu lutou por igualdade de salários com homens, licença-maternidade e contra o trabalho infantil”. Ela foi eleita a Mulher das Américas pela União das Mulheres Americanas, em Nova York, em 1951.

Antonieta de Barros/A educadora da ilha

Antonieta, que nasceu em 11 de julho de 1901, em Florianópolis, deveria se professora, na opinião da mãe, Catarina, que era lavadeira no interior de Santa Catarina após o fim da escravidão. Depois, abriu uma pensão que servia almoço para estudantes na capital. A menina ajudava a mãe e observava os rapazes lendo e estudando. “Será que serei como eles quando crescer?”, perguntava. Como muito esforço, a mãe a matriculou em escola pública, na qual ela se formou professora aos 21 anos e com a irmã abriu escola de alfabetização para crianças e adultos na própria casa. O Curso Particular Antonieta de Barros ficou famoso e durou 42 anos. Empolgada com o ensino, Antonieta começou a escrever, fez amizade com professores e escritores. Passou a escrever crônicas para jornais. Para ela, só a escola mudaria a vida dos mais pobres. “Só a instituição, só o livro, elevando o homem, lhe dá o direito de ser homem: só a instituição consciente rouba as criaturas do servilismo aviltante”, dizia. Ela defendia que as mulheres tivessem direito à educação, que fosse permitido o acesso feminino às universidades, porque naquela época elas só podiam estudar até o curso normal. Em, 1934, quando as mulheres ganharam direito ao voto, elegeu-se deputada. “Uma jovem negra de família pobre, filha de escrava liberta, torna-se deputada por Santa Catarina, uma conquista e tanto”, lembra Luciana Sandroni.

Nise da Silveira/A médica do afeto

Filha de um jornalista e professor de matemática e de uma pianista, Nise nasceu em 15 de fevereiro de 1905, em Maceió. A mãe logo disse: “Será pianista ou vai preferir os números?”. Mas, ainda adolescente, Nise resolveu estudar medicina. “Quero cuidar das pessoas”, disse. Naquele tempo, era raro uma mulher ser médica e ela foi a única a se graduar na turma de 157 homens na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1926. Quando foi trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional, no Rio, Nise não aceitou o tratamento dado aos pacientes, que eram maltratados e isolados. Foi transferida para a seção de terapia ocupacional, na qual os doentes faziam a limpeza do hospital. “Ela mudou tudo e falou que nenhum enfermeiro trataria mal os 'clientes', como os chamava. Nada de gritos, vamos deixá-los fazer o que quiserem”, determinou, conta Luciana Sandroni. Foi quando surgiu a ideia de criar oficinas de pintura, desenho e modelagem. Com material disponível, aquarela, papel, lápis, telas e argila, os “clientes” começaram a fazer arte. “Nise notou que a arte os ajudava a trabalhar as emoções. Se não falavam, comunicavam-se pelas emoções – se não falavam, comunicavam-se pela pintura. Descobriu uma maneira de se aproximar dos ‘clientes’, que viviam fechados cada um sem seu mundo.”  Nise criou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio, que hoje tem 350 mil obras.

Rachel de Queiroz/A dama das letras

A menina Rachel, que nasceu em 17 de novembro de 1910, em Fortaleza, filha de Daniel de Queiroz, juiz de Direito e fazendeiro, e Clotilde Franklin, passou a infância cercada de livros e jornais. De tanta força de vontade em querer aprender, começou a ler já aos 5 anos. Sempre apaixonada pela leitura, já aos 15 anos ela começou a escrever pequenos contos e a enviá-los para o jornal O Ceará, com o pseudônimo Rita Queluz. O diretor gostou do estilo irônico e convidou-a para assumir a página literária do jornal. Foi o primeiro emprego. Foi nesse embalo que escreveu seu primeiro romance, O quinze, tratando do drama da seca e dos retirantes do Nordeste. Os pais bancaram a edição, mas os críticos não acreditaram que o romance era dela, então com 19 anos, e sim do pai. Mas quando a obra chegou ao Rio de Janeiro e a São Paulo, ganhou boa repercussão e Rachel de Queiroz, já ganhando fama, não parou mais, escreveu vários romances e também virou tradutora. Ela foi a primeira mulher a assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Djanira/A artista brasileira

A futura artista nasceu em 20 de junho de 1914, em Avaré (SP), filha de Oscar, dentista itinerante e descendente de índios, e Maria Pia. Como os pais se separaram, ela acabou não ficando com nenhum deles e foi morar com a família Matoso, que vivia na vizinhança e fazia serviços domésticos. Aos 14 anos, foi morar com uma tia numa fazenda e três anos depois foi tentar a vida em São Paulo. Trabalhou como vendedora, cozinheira em casa de família, costureira e chapeleira até cair doente com tuberculose. Obrigada a se internar, viu sua vida mudar radicalmente no sanatório de São José dos Campos. Então, com 23 anos, começou a desenhar na instituição. Quando sarou, o médico recomendou que morasse em Santa Teresa, lugar com “ar puro”. Abriu uma pensão com um ateliê. Seus desenhos chamaram a atenção de uma francesa, que levou ao local o amigo e pintor Emeric Marcier, que ficou impressionado. Ele se tornou hóspede da pensão e dava aulas de pintura para Djanira. Aos 28 anos, ela fez a primeira exposição e ganhou fama e sucesso. Depois de temporada nos EUA, passou a vida em Santa Teresa e se tornou uma principais pintoras do país, retratando o povo e a paisagem brasileira com cores fortes.

Cacilda Becker/O mito do teatro

Pirassununga (SP) foi o berço de Cacilda, que nasceu em 6 de abril de 1921, filha de uma professora rural e de um caixeiro-viajante. Teve infância difícil e passou fome com a mãe, Alzira, e a irmã, porque o pai abandonou a família. A mãe tinha um gramofone – antigo aparelho de som – e a menina se divertia dançando e dizendo que queria ser bailarina. Anos depois, mãe e filhas se mudaram para Santos, onde continuaram passando necessidades básicas. Cacilda deu aulas de dança para crianças e se apresentava em recitais. Foi então que uma professora de música a convidou para se apresentar na festa de fim de ano do Colégio José Bonifácio. Ela escolheu a música e criou a coreografia. A apresentação fez tanto sucesso que a direção da escola ofereceu o curso para ela e a irmã de graça. Estimulada por professoras, começou a dançar mais, imitando a então famosa Isadora Duncan, dançando descalça na praia até chamar a atenção da imprensa. Quando conheceu Miroel Silveira, diretor de teatro, sua vida deu a guinada essencial. Ele a chamou para o palco, onde ela jamais tinha pisado. De teste em teste, virou atriz de teatro. Trabalhou em várias companhias, criou a sua e atuou no rádio, no cinema e na TV, e hoje é referência nacional e mito dos palcos.

Maria Esther Bueno/A bailarina do tênis

Os pais de Maria Esther, nascida em 11 de outubro de 1939 na capital paulista, eram tenistas amadores. Aos 3 anos de idade, já estava com uma raquete na mão. Ainda pequena, passou a ter aulas no Clube de Regatas Tietê. Aos 11 anos, já saiu vencedora em campeonatos. Aos 14, já estava no circuito internacional, como os Jogos Pan-Americanos no México. E venceu o Orange Bowl, tradicional torneio de tênis juvenil na Flórida (EUA). Mudou-se para os EUA em 1957 e depois voltou com coleção de troféus. O êxito se repetiu na Europa, onde venceu várias campeãs de tênis. A consagração veio em Wimbledon, na Inglaterra, onde, aos 19 anos, encantou o mundo esportivo ao jogar como uma bailarina e bater a americana Darlene Hard por 6/4 e 6/3, em partida de apenas 43 minutos. Foi a primeira latino-americana a vencer um dos torneios mais importantes do mundo. Com carreira de grande sucesso, foi eleita a maior tenista da América Latina no século 20 e uma das melhores do mundo.

TRÊS PERGUNTAS PARA

Luciana Sandroni/escritora
“Zumbi é símbolo da liberdade”


Quais foram os critérios para definir os 20 nomes entre centenas de personalidades importantes para a história do Brasil? 
Na verdade, a ideia original era fazer 50 mulheres e 50 homens, mas ficaria muito estilo enciclopédia, com muita informação, mas sem envolvimento. Notei que a infância dos biografados já apontava para a vida adulta deles e propus dar mais atenção nesse período da vida tão importante. A escolha foi feita pensando em personalidades de várias regiões do Brasil. Mas a ideia é fazer uma continuação, porque faltou muita gente boa.

Por que a inclusão de Zumbi dos Palmares no contexto de uma obra que busca enfatizar a infância de cada um, sendo que não existem documentos históricos precisos  a respeito dele nem sequer sobre sua vida adulta? 
Escolhi Zumbi dos Palmares por ele ser hoje um símbolo da liberdade, da luta dos negros. No início, acreditava naquela versão de ele ter sido criado por um padre e voltado para Palmares para lutar. Mas com a pesquisa vi que essa história não se sustentava. Parti então para me concentrar na história de Palmares e no fato de ele ter sido um grande guerreiro como  os raros documentos apontam: "Negro de singular valor, grande ânimo e constância rara. Aos nossos serve de embaraço, aos seus de exemplo".

Isso não destoa do conjunto da obra?
No texto do Zumbi e da Antonieta de Barros, tive de imaginar como teria sido a infância deles. Porque realmente não tinha material. Mas não queria deixar de falar deles por serem tão importantes e pouco estudados. A ideia de priorizar a infância surgiu no meio do caminho... As primeiras personalidades que pesquisei foram Carmen Miranda e Cacilda Becker, e percebi que a infância delas era muito curiosa, rica e que eu e muita gente não sabíamos. Percebi que a infância desses brasileiros todos refletem bem o que se tornaram.

Carmen Miranda

A pequena notável

Ela era portuguesa, nascida em 9 de fevereiro de 1909, em Marco de Canaveses, filha de camponeses, e batizada como Maria do Carmo Miranda da Cunha. Mas o tio Amaro era fã da ópera Carmen, de Bizet, e apelidou-a Carmen. O país europeu estava em crise e a família da menina de 10 meses veio para o Brasil, onde o pai aprendeu o ofício de barbearia, no Rio de Janeiro. Matriculada no Colégio Santa Teresa, Carmen e as irmãs cantavam no coral. Aos 14 anos, ela foi trabalhar numa chapelaria na Rua do Ouvidor. E cantava enquanto trabalhava, a contragosto da patroa. Maria Emília, um das suas irmãs, abriu uma pensão para ajudar no orçamento e Carmen atendia os fregueses, sempre cantando. Foi quando o jornalista Aníbal Duarte, organizador de shows beneficentes, a chamou para fazer um teste. Estava aberto o caminho para o sucesso. Carmen foi levada a várias gravadoras de discos e já em 1929, aos 20 anos, gravou seu primeiro disco com a música Não vá sim'bora. Em 1930, ela gravou Taí, que Joubert de Carvalho compôs para ela. Foi o maior sucesso do carnaval daquele ano. Ela se tornou estrela e como tinha baixa estatura, foi apelidada Pequena Notável. Logo se tornou a “Rainha do rádio”, cantando e dançando com uma cestinha de frutas na cabeça. Até que foi vista e chamada pelo empresário americano Lee Shubert, que a convidou para se apresentar na Broadway, nos EUA. Para lá ela foi e fez sucesso absoluto nos teatros e depois no cinema. Ninguém entendia o que ela cantava, mas gostava da alegria e do ritmo do samba.

Era uma vez 20

De Luciana Sandroni, Natália Calamari e Guilherme Karsten
Editora Escarlate
90 páginas
R$ 44


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