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Estado de Minas COLETÂNEA

Editora UFMG lança coleção que reflete sobre os desafios dos continentes

Em seis volumes, coleção 'Desafios globais' reúne 130 autores que debatem a situação da África, América o Norte, América Latina, Ásia-Pacífico, Europa e Índico


12/03/2021 04:00 - atualizado 12/03/2021 09:27

Mergulhada em velhos e novos desafios, com a vida política e econômica da maior parte de seus países colonizados por potências europeias sob a intimidadora presença de um gigante ao Norte, mas ao mesmo tempo ciente da ascensão de uma nova potência ao Extremo Oriente, a América Latina se indaga qual é o grau de protagonismo que efetivamente cabe aos mercados emergentes na reconfiguração da geopolítica mundial.

A ascensão da China, secundada por outros polos de poder e influência da Ásia – Índia, Japão, Coreia do Sul e Indonésia – provoca o deslocamento do eixo político-econômico-militar e, por conseguinte, das relações internacionais – do Atlântico Norte para a Eurásia.

Entre alinhamentos automáticos e saídas autárquicas, há espaço para terceiras vias na política exterior? Eis a pergunta que se coloca aos latino-americanos. Em se tratando do Brasil, em que pese ser esperada maior cobrança do vizinho democrata ao Norte em relação às questões ambientais e de direitos humanos, há convergência entre republicanos e democratas sobre tópicos como a China e a Venezuela, o que impõe à diplomacia brasileira o desafio de desenhar alternativa mais inteligente e equilibrada de política interamericana. 

Em cada região do mundo, grandes e particulares são os grandes temas contemporâneos. No Oriente Médio, a questão curda se soma ao dramático e longo conflito israelo-palestino em seu perverso desequilíbrio de forças. O barril de pólvora é abastecido para a detonação ora na Síria, ora no Líbano – proxys da guerra dos interesses internacionais, principalmente dos Estados Unidos, Arábia Saudita, Israel, Rússia e Irã. 

Instabilidades políticas e sociais não só no Oriente Médio, mas mundo afora, como na África e na Venezuela, produzem deslocamentos humanos em busca do fundamental direito aos meios de vida. A temática das migrações constitui o ponto de tensão posta para a Europa e os Estados Unidos, com todo o seu potencial explosivo, à medida que abastece os movimentos de extrema-direita impulsionados pela ascensão do ultranacionalismo.

Mais ao Índico, ascende outro gigante, a Índia, em suas contradições sociais profundas e economia em ritmo acelerado por novas tecnologias. Ao lado da China, mira outro futuro, em pesados investimentos na África. E quanto a ela? A ancestral África, continente de jovens, de séculos futuros? Imersa em males ainda primitivos como a fome, a subnutrição crônica e doenças como a Aids, malária e cólera, ainda espoliada em suas divergências por conflitos, violências, instabilidade institucional, continua a enfrentar imensos desafios na travessia que, um dia, espera-se, alcançará a Agenda 2063: a África que queremos. 

Ao lado dos desafios macrorregionais, o mundo converge para a mãe de todas as crises, a maior dos últimos 100 anos, a sanitária, e à crise econômica que dela deriva. Com estas, o globo também chacoalha com a pandemia dos fatos alternativos, que empurra a humanidade, em diferentes patamares, para o caos informacional. Tesouros do conhecimento acumulados pela civilização são brutalmente questionados. A ci- ência e as universidades, atacadas. Busca-se quebrar a autoridade conquistada entre testes de hipótese e avanços para a humanidade. Em seu lugar, circulam os fatos alternativos, ao sabor dos interesses das megaplataformas que os financiam globalmente.

Nesse contexto, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) lança, pela Editora UFMG, a monumental coleção “Desafios globais”, propondo-se a debater os desafios contemporâneos em diferentes macrorregiões do planeta – África, América do Norte, América Latina, Ásia-Pacífico, Europa e Índico. Seis são as áreas temáticas: sustentabilidade; saúde e bem-estar; direitos humanos; novas tecnologias e fronteiras da ciência; educação, cultura e arte; além da governança e regulação. Tamanho esforço de compreensão do mundo está reunido nesta ampla produção de seis tomos, com mais de 2 mil páginas, 130 autores – com enfoques variados –, de 30 países, para a construção do conhecimento.

Organizada pelos professores Aziz Tuffi Saliba, da Faculdade de Direito da UFMG, e Dawisson Belém Lopes, diretor-adjunto de relações internacionais da UFMG, além de massiva presença de acadêmicos, alguns tomadores de decisão – como o ex-subsecretário-geral das Nações Unidas Shashi Tharoor, o ex-secretário-geral da UNCTAD Rubens Ricupero e os ex-ministros brasileiros Celso Amorim e Nilma Lino Gomes – contribuíram com os volumes. 

“A proposta editorial da coleção consiste, fundamentalmente, em fazer discussão adensada e plural de alguns dos principais problemas contemporâneos enfrentados pela humanidade, valendo-se da expertise instalada, por intermédio dos inovadores Centros de Estudos Regionais, tanto na UFMG quanto em suas mais de 450 instituições parceiras em 60 países ao redor do mundo”, assinala a reitora, Sandra Goulart Almeida, ao prefaciar a obra.  É a obra da diversidade de valores, dos olhares, dos enquadramentos, na construção do conhecimento em diálogo sobre os desafios contemporâneos. 

A seguir, uma entrevista com os organizadores: Dawisson Belém Lopes e Aziz Tuffi Saliba (professores e organizadores da coleção “Desafios globais”)

(foto: Foca Lisboa)
(foto: Foca Lisboa)
Aziz Tuffi Saliba e Dawisson Belém Lopes: professores da UFMG e organizadores da coleção(foto: Márcio Bonfim)
Aziz Tuffi Saliba e Dawisson Belém Lopes: professores da UFMG e organizadores da coleção (foto: Márcio Bonfim)


Há em curso no mundo uma cruzada para desacreditar instituições focadas na produção do conhecimento, cruzada essa que se utiliza amplamente de fatos alternativos para questionar inclusive o repertório civilizacional do conhecimento acumulado, provocando um caos informacional. Esse é um desafio global?

Dawisson – Esta é uma articulação global que pretende atingir os nossos repositórios de conhecimento, tesouros historicamente conquistados. É também uma forma de lidar com a verdade factual em manipulação também às regras do jogo democrático, para operar com narrativas descoladas do estrato empírico. E essa postura detratora em relação às universidades, aos meios de imprensa, é a tentativa de operar registro próprio alternativo.

Isso conseguimos observar nas seis coleções das várias partes do mundo. É um grande tema global, como enfrentar a verdade.  A ciência quer ser uma produtora de narrativas verdadeiras sobre o mundo ao redor. Quando convidamos cientistas acadêmicos e também outros perfis de autores, mas majoritariamente acadêmicos, para dizer coisas sobre o mundo, estamos cruzando visões na expectativa de encontrar um denominador comum a essas visões, que possa nos conduzir com mais segurança sobre a verdade.

Estamos na verdade jogando no time dos que estão buscando proteger a integridade dos fatos, das narrativas precisas, e é também o time do bom jornalismo. Este projeto tem o mérito de reconectar visões e pessoas, colocando-as juntas numa mesma direção para defender o tesouro do conhecimento acumulado pela humanidade, conquistado a duras penas. 

Aziz – A pós-verdade é um outro modo de se referir à mentira. E na atualidade, naturalizou-se a distorção dos fatos, passando a equalizá-la como divergência de opinião. Temos dois fenômenos, face de uma mesma moeda. Por um lado, nas bolhas de interação se recrudescem as posições, principalmente através da reafirmação constante das ideias. E não raramente as bolhas trabalham com informações enviesadas e com informações completamente falsas: vão desde um modo peculiar de ver as coisas até a mentira deslavada.

Não se trata da simples divergência. Essa tem papel salutar em diferentes esferas, como nos aponta o constitucionalista norte-americano Cass Sunstein na obra “Why societies need dissent”. A empresa que tem em seu board a divergência terá ganhos maiores. O divergente tem um custo para expressar a sua opinião. Mas faz com que os que estão convergindo tenham de mudar os argumentos e avaliar a abordagem por outros ângulos. Essa salutar divergência tem sido, atualmente, substituída por troca de insultos com risco para as relações pessoais e para a democracia.

Com o advento da internet, as pessoas recebem um volume de informação infinitamente maior do que a sua capacidade de processá-las. E estão recebendo as informações de fontes nem sempre confiáveis. Há uma equalização de um trabalho profissional com a de um blogueiro que escreve sobre tudo. As pessoas passam a dar o mesmo valor e em suas bolhas não colhem mais as informações que antes tinham acesso em geral de meios de comunicação profissionais. Isso tem levado a essas dificuldades para as relações pessoais, para a saúde e até para a democracia.

A ciência, em busca da verdade, está sempre levantando hipóteses e procurando confirmá-las ou refutá-las a partir de um método próprio, investigativo. Qual é o ponto de corte dessa busca, aquele ponto em que o conhecimento é dado como pacificado e passa a não ser aceitáveis as explicações e versões alternativas do tipo “a terra é plana”?

Dawisson – Precisamos fazer um mergulho na história da ciência, nas ciências da vida, ciências naturais, que têm mais facilidade em operar consensos científicos amplos. A verdade evolui, mas há pontos de partida sólidos. Einstein você não vai questionar do início. Você pode questionar residualmente e a ciência dá sentido ao avançar para o estado da arte. Nas ciências humanas não há problema em voltar dois mil anos e revisar o pensamento. Mas o que estamos vendo é que mesmo nas ciências naturais, algumas fundações são questionadas, como a condição esférica do planeta, a lei da gravidade, grandes ideias que estruturam o pensamento científico universal. 

Aziz – A ciência tem um método que foi construído ao longo de séculos. É falha e está sempre testando e retestando hipóteses, o que traz certa perplexidade para alguns, porque ouvem de médicos e cientistas uma informação em relação a qual época pode ter havido consenso, mas depois pode ter sido reformulada. Mas com toda as suas falhas, a ciência é o melhor método de descobrir a realidade. Ainda não conseguimos um método melhor. É uma vela na escuridão. A vela não ilumina tudo, mas é aquilo que vai ajudar a humanidade a atravessar aquele caminho. A ciência é isso. Não vai nos revelar de uma vez tudo o que está ao nosso redor. 

O que elegeria como o maior desafio da humanidade hoje?

Dawisson – Hoje, temos um desafio que é a pandemia. É claramente uma conjuntura muito especial que chega aos quatro quadrantes e atinge todo o mundo. Mas há desafios de fundo, estruturais, muito sérios. Não vou me ater a um. Os temas de sustentabilidade e do meio ambiente e a forma como nos relacionamos com o meio ambiente ganharam em relevância. São temas que nos obrigam a inventar soluções para que continuemos a habitar este planeta. Os ângulos são muitos para explorar essa temática. Por exemplo o manejo do lixo e dos resíduos sólidos comparece em mais de um volume desta coleção.

Estamos produzindo muito lixo, impactando o meio, e não temos solução efetiva pelo momento. As queimadas, a forma como estamos ceifando a biodiversidade, aparecem também. Ao mesmo tempo, temos a segurança alimentar: teremos de alimentar população de 8,5 bilhões de pessoas em 2030. A maior parte das pessoas com fome estão em zonas mais empobrecidas, como a África, a América Latina, o Sul da Ásia. Temos de lidar ao mesmo tempo com o desafio enorme de levar desenvolvimento a essas partes do mundo, mas ao mesmo tempo controlar o impacto que uma industrialização acelerada traz sobre o meio ambiente.

Mas há também temas relativos às instituições, à governança e à regulação que são muito centrais na coleção: a tarefa de encontrar instituições que possam canalizar os esforços da humanidade, nos conduzir por sendas de mais prosperidade, isso é muito difícil. E temos visto, sob a perspectiva da democracia, a ascensão de autoritarismos, quebras democráticas, golpes de Estado.

Aziz – Neste momento, o principal desafio de todos nós é o enfrentamento da pandemia, que terá de ser global, não tem como ser local, já que as diferentes mutações do vírus podem inclusive colocar em risco as populações daqueles países que as tiverem extirpado em seu território. É o principal desafio da humanidade desde a Segunda Guerra Mundial. Mas para além da pandemia, diria que o maior desafio é a pós-verdade. Além desta, destaco outros desafios relevantes, como mudança climática ou concentração de renda.

E por vício de formação, eu também apontaria a insegurança jurídica. Avançamos em relação à outrora, mas instituições ainda produzem resultados discrepantes do que se esperaria num exame objetivo das regras vigentes. E a previsibilidade das reações institucionais é um aspecto fundamental para a liberdade e para o desenvolvimento. Podemos imaginar, equivocadamente, que se trata de um problema nacional, mas o exame global nos mostrará o contrário.

Ao lado das narrativas calcadas em fatos alternativos, o mundo assiste também à disseminação da ideologia antiglobalista. Que risco isso traz para o equilíbrio internacional?

Dawisson – A campanha antiglobalista contra a diplomacia global, contra os fóruns internacionais, é muito séria, pois podemos perder plataformas de coordenação. Se não houver a ONU e a OMS, como vamos colocar todos os países numa sala para coordenar o enfrentamento às questões globais? E o custo da descoordenação é altíssimo. Essas estruturas que temos hoje – ONU, FMI, OMC, Otan, OEA –, todas elas vêm no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Foi necessário o trauma enorme para que a humanidade se desse conta de que seriam necessárias essas estruturas de coordenação global. Numa grande pandemia, vimos a OMS sendo questionada em seus propósitos, em suas motivações. Dois grandes feixes sustentabilidade e governança. 

Aziz – Como quase todos os temas relevantes de nosso tempo, o antiglobalismo –  nacionalismo ou anticosmopolistimo – funda-se em alguns fatos, como a mudança de empresas para outros países e a consequente perda de empregos e, também, muitas falsas narrativas. Muitas dessas narrativas descredenciam o importante papel de organizações multilaterais, às vezes por incompreensão, outras por má-fé. Por exemplo, políticos britânicos se valeram de informações manifestamente falsas para conduzir o Reino Unido ao Brexit, mergulhando o país numa das maiores crises políticas de sua história contemporânea.

Do mesmo modo que outrora alguns colocaram na conta da Organização Mundial de Comércio a perda de empregos, assistimos, agora, à alocação de responsabilidade pela pandemia para a Organização Mundial da Saúde. Em certos grupos políticos, é comum ouvir que a ONU pretende ser um governo mundial. Em todos esses processos, a legitimidade de organizações multilaterais – e às vezes do próprio Estado – foi arranhada.

“Desafios globais” 
.Organizadores: Aziz Tuffi Saliba e Dawisson Belém Lopes
.Editora UFMG
.Edição digital gratuita a partir de hoje no site www.ufmg.br/dri/desafiosglobais
.Os volumes podem ser acessados separadamente. 
.Edição impressa prevista para maio, com preço a definir.

Os continentes em cada volume

América Latina
Um dossiê da América Latina, mergulhada em velhos e novos desafios. Com a estimulante pergunta “O que se entende por América Latina?”, Dawisson Belém Lopes, Manoel Leonardo Santos e Aziz Tuffi Saliba, que organizaram e apresentam a coletânea, instigam à leitura dos 13 artigos, elaborados por 26 autores de diferentes instituições acadêmicas e expertise. O que os 22 países – que tiveram singular trajetória de libertação de seus co- lonizadores, Espanha e Portugal – têm em comum?

Quais as forças da globalização que incidem sobre as heterogêneas sub-regiões da assim chamada América Latina? Como países e sociedades com tantas diferenças e também semelhanças transitaram das ditaduras ao final do século passado para a redemocratização? Como se reestruturam as instituições e as economias? E, de fato, qual é o grau de protagonismo que efetivamente cabe aos mercados emergentes? A sustentabilidade energética puxa a agenda nesta região rica em recursos fósseis e que, ao mesmo tempo, ostenta a maior participação de fontes renováveis em sua matriz energética quando comparada a outras regiões do mundo.

As questões administrativas e fiscais dos Estados nacionais premidos por desigualdades sociais que, a essas respondem com a ampliação do estado de bem-estar social e políticas sociais de redução das desigualdades; o federalismo e a autonomia dos entes subnacionais, minados pelo centralismo autoritário; o acesso universal à saúde; e a educação no contexto da constituição dos sistemas educacionais e desenvolvimento dos países são igualmente desafios abordados na obra, assim como, em se tratando de tecnológico e governança institucional, a experiência do Sistema Geodésico de Referência (Sirgas, po- sitivamente retratada.

Europa
A ascensão da China, secundada por outros polos de poder e influência da Ásia – Índia, Japão, Coreia do Sul e Indonésia – levou ao deslocamento do eixo político-econômico-militar e, por conseguinte, das relações internacionais – do Atlântico Norte para a Eurásia. Essa é a metáfora que sintetiza o câmbio de hegemonia, forçando os países do mundo, e em particular a Europa, a se reposicionar no plano internacional, apontam Aziz Tuffi Saliba, Dawisson Belém Lopes e Jamile Mata Diz, organizadores deste volume.

A temática das migrações é um importante desafio posto, com todo o seu potencial explosivo, à medida que abastece os movimentos de extrema-direita numa Europa ameaçada pela ascensão do ultranacionalismo. Mas há tantos outros, perpassados pelas fronteiras tecnológicas e a sustentabilidade, que impactam o Velho Continente, cujo substrato acalenta as noções de direitos humanos, da opinião pública, da civilidade e do racionalismo, que, segundo os autores que apresentam a obra, mereceram do historiador Robert Darnton a definição: “A Europa é, de fato, um estado de espírito”. 

Ásia-Pacífico
A porção oriental da Ásia – que se conecta com a Oceania – em suas sub-regiões do Nordeste Asiático – China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Japão, Mongólia e o extremo leste da Rússia – e do Sudeste Asiático, alcançando ainda a Austrália, a Nova Zelândia e as diversas ilhas soberanas do Pacífico Sul, é o espaço geográfico objeto desta coletânea. Região colonizada e explorada pelo Ocidente – num processo histórico que legou defasagens em relação ao Ocidente que pareciam insuperáveis –, foi a partir da Segunda Guerra Mundial que este bloco asiático deu início à retomada em direção à tese de sua “irrefreável marcha” rumo ao protagonismo mundial, conforme assinalam Dawisson Belém Lopes, Bárbara Malveira Orfanò e Aziz Tuffi Saliba, que organizaram e apresentam o volume.

Sejam nos investimentos na educação de seus povos, o que permitiu a guinada da Coréia do Sul, Japão e China; seja por fatores econômicos e tecnológicos – com redes produtivas articuladas e associadas às políticas públicas de investimentos industriais, tecnológicos e científicos –, o Extremo Oriente e o Sudeste asiático alcançam vantagens competitivas no comércio internacional de bens intensivos em capital e conhecimento. Aos índices tecnoeconômicos do Leste e Sudeste asiático soma-se o poderio militar e estratégico dos países banhados pelo Pacífico. É em meio a muitos desafios – como o ambiental e marcadamente no campo dos direitos humanos – que essa região reconfigura o centro de gravidade do poder mundial, fato que está a exigir maior representação asiática nos organismos internacionais multilaterais. 

América do Norte
Os Estados Unidos e o Canadá têm o foco principal neste volume. Considerados “gêmeos siameses” por Dawisson Belém Lopes, Aristóteles Góes-Neto e Aziz Tuffi Saliba, autores que organizaram e apresentam-no, comungam da colonização europeia, das populações originárias, da plurietnicidade, do histórico de imigração em massa, da influência da religião cristã protestante, da base idiomática da anglofonia e das bordas territoriais, além de ter economias estruturalmente conectadas e o meio acadêmico –científico, indissociável. Apesar de partilhar tantas similaridades com os Estados Unidos, é com o Brasil que o Canadá comunga um atributo determinante: ambos têm as suas vidas política e econômica entrelaçadas e potencialmente à sombra do outro gigante de dimensão continental.

Os autores chamam a atenção para o fato de o Brasil e o Canadá ensaiarem nos últimos 15 anos maior aproximação em torno do principal elemento, que constitui a possibilidade de assinatura do Acordo de Livre-comércio Canadá-Mercosul este ano. Assim como a Europa, o Canadá, e sobretudo os Estados Unidos, têm sido têm sido destinos pre- ferenciais dos migrantes que buscam meios de vida, tornando este um desafio permanente. A este, soma-se a saúde pública resultante de escolhas sociais prévias, e, também, em desdobramento da pandemia, a contaminação da economia dos dois países, superando as expectativas iniciais mais pessimistas.

Mas entre os inúmeros desafios que enfrentam, está o ambiental, com o registro de que a região é berço de movimentos negacionistas do aquecimento global, e são frequentes as batalhas entre cientistas favoráveis e contrários às hipóteses científicas do ambientalismo.

Índico
Berço de três das maiores religiões da Terra – hinduísmo, budismo e sikhismo –, a refe- rência territorial imediata para o Índico é o Sul da Ásia, conceito geográfico que usualmente cobre Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas, Mianmar, Nepal e Paquistão. Gigante do Índico, de economia que cresce em ritmo acelerado e alcança relevância em novas tecnologias, como inteligência artificial e a robótica, e em não tão novas, como a exploração do espaço sideral, a Índia vive também, nas palavras de Dawisson Belém Lopes, Eduardo Bastianetto e Aziz Tuffi Saliba, autores que organizam e apresentam o volume, as suas “aflições de grande magnitude”.

Entre essas está a tensão com o Paquistão em torno da Caxemira, zona mais militarizada do mundo. Mas o Índico também alcança o Oriente Médio, tanto na acepção do oceano que se encontra com o Mar Arábico como no entendimento mais amplo, de espaço de fluxos. Dessa forma, este volume aborda o Grande Índico, tratando de uma ampla faixa do Islã, em que a religião muçulmana penetra e se faz hegemônica.  Zona limítrofe entre Europa, África e Ásia, o Oriente Médio notabiliza-se pelos conflitos de cunho étnico-religioso com raízes profundas, aí incluída a “questão curda” e o longo conflito israelo-palestino, que, com a guerra de 2008/2009, contribuiu para o retorno de uma direita radical em Israel, representada pela coalizão articulada pelo partido Likud, de Benjamin Netanyahu.

Na vertente institucional, é frágil o equilíbrio político nessa região, sobretudo a partir da chamada Primavera Árabe, quando revoltas de grandes proporções iniciadas em 2010 expuseram a falta de solidez de regimes antes considerados irremovíveis, por meio de uma revolta difusa, sem líderes e sem ideologia clara, mas de dimensão transnacional, com forte atuação das redes sociais e da mídia. 

África
África diversa. As muitas Áfricas estão delimitadas pela literatura em categorias regionais também adotadas pela União Africana: África do Norte, Costa Ocidental, Costa Oriental, Central e do Sul. Intrínseca a todas elas, a variância de dar vertigem, registram Aziz Tuffi Saliba, Dawisson Belém Lopes e Marcos Antônio Alexandre, organizadores do volume em sua apresentação.

O continente ancestral, também chamado “jovem continente” por guardar 40% de sua população menor de 15 anos – preferido de arqueólogos e antropó- logos, ao mesmo tempo em que frequentemente secundarizado na geometria do poder da política internacional –, se debate entre imensos males. Os autores enumeram: “AIDS, malária, cólera, subnutrição crônica e outras doenças sobrecarregam rotineiramente os sistemas de saúde pública; pobreza extrema, desigualdade, corrupção, baixos índices de industrialização e de urbanização, subdesenvolvimento e mazelas afins conformam um cenário economicamente insatisfatório; déficits de educação, democracia e segurança resultam em descontrole e má governança”.

Em comum neste diverso mosaico continental está a aspiração por desenvolvimento econômico:  este, no topo da pauta das li- deranças africanas, cientes de que China e Índia, que respondem entre 6% e 12% das exportações locais, com investimentos maciços na região, jogam um papel central no porvir, expresso na persistente ideia do pan-africanismo, associado à Agenda 2063: a África que queremos, adotada pelos chefes de Estado e de governo presentes à 24ª Assembleia Geral da União Africana, em janeiro de 2015.


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