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Estado de Minas ROMANCE

A morte e a vida de Anja, que traz na pele a marca do sofrimento

Segundo lançamento de Marcela Dantés, que estreou com um livro de contos, explora as pessoas, suas histórias, aflições, alegrias


30/10/2020 04:00 - atualizado 30/10/2020 10:24

Nem sinal de asas é o primeiro romance de Marcela Dantés, o segundo livro da escritora, que estreou em 2016 chamando a atenção para sua escrita logo de partida: Sobre pessoas normais (Patuá) foi um dos semifinalistas do Prêmio Oceanos e rendeu à autora um convite de José Eduardo Agualusa para residência na Vila literária de Óbidos, em Portugal. Embora pertençam a gêneros distintos, conto e romance, nas mãos de Marcela servem para explorar sua grande fixação: as pessoas, suas histórias, aflições, alegrias. Pessoas normais que, através de seus intensos processos de escrita e pesquisa, se transformam em personagens ricos, plenos, densos, possíveis.

Personagens de corpos muito bem delimitados, lapidados por uma escrita ágil, por vezes quase frenética e que não teme as palavras ou os termos cotidianos, tampouco as pausas dramáticas (bastante necessárias para o leitor lembrar-se de respirar, às vezes). Marcela é cirúrgica em suas construções, embora as longas frases possam causar a impressão de um fluxo contínuo. E é com esse vigor que o leitor acompanha o nascimento de Anja, personagem central do livro. Logo nas primeiras páginas somos convidados a entrar na história dessa pessoa que nasce prematura e, desde tenra idade, traz na pele a marca do sofrimento.

É um caminho sem volta. Já na quinta página (ou talvez nem isso), Anja está pregada à nossa pele feito marca de nascença ou de acidente

“Ela tinha poucos anos quando as brincadeiras começaram, as pessoas que diziam que seu nome era esquisito, que seu nome era engraçado, as pessoas que riam muito quando o seu nome era dito logo em primeiro lugar na chamada da escola e, depois, quando não havia escola, no jardim do prédio quando um amigo qualquer quisesse gritar por ela sempre tão bem escondida na hora do esconde-esconde e depois e todas as vezes que ela aparecia nos desenhos infantis com asas, sendo que ninguém mais tinha asas e ela também não tinha, ela já tinha olhado as costas no espelho muitas e muitas vezes e não havia nem sinal de asas, crescidas ou em broto”.

E com ela assim, íntima (de nascença) e estrangeira (de acidente), o leitor é tomado pelas mãos do narrador, que se encarrega de contar a vida da mulher que ficou morta, solitária e mumificada por cinco anos em seu apartamento, sem que ninguém sentisse sua falta. O argumento que deu origem ao livro fisgou imediatamente a autora. O fato aconteceu na cidade espanhola de Culleredo: o corpo, mumificado, foi descoberto apenas em 2017. Foi quando Marcela, nascida em Belo Horizonte em 1986, começou a pensar em como seria essa pessoa que passa tão despercebida pela vida que é capaz de sumir sem que ninguém sinta sua falta.

Anja Santiago “leva a vida na ponta dos pés”, completamente convencida de que não tem qualquer coisa para mostrar, sem o menor desejo de ser vista. Para uma sociedade que vive tão intensamente a espetacularização da rotina e se vê, súbito, obrigada a isolar-se e a fazer da casa seu lugar de sempre, a personagem chega em um excelente momento. Anja poderia ter sido criada em plena pandemia, mas não. O fato de ela ser uma figura que não é privada do direito de ir e vir – e o que a leva a ser assim – traz muitos elementos para se pensar sobre aspectos da vida contemporânea, especialmente a solidão.

Vale ressaltar que a autora usa a história real como ponto de partida, apenas. Não há uma tentativa de recriar a figura real, tampouco espelhar-se na história para desenvolver uma narrativa “baseada em fatos verídicos”. Nem sinal de asas é ficção, literatura do mais alto nível e a solidez da personagem central e de todo o universo criado para ela – o edifício que já fora hotel de luxo, o núcleo familiar, as pequenas alegrias, as cicatrizes da vida que a transformam em uma pessoa avessa a muitos contatos, seu cotidiano, sua biografia, enfim – atestam isso. 

*Poeta e jornalista belo-horizontina, Val Prochnow é editora de poesia da revista literária Chama e autora do livro Inventário de mulheres possíveis


Nem Sinal de Asas
Marcela Dantés
Editora Patuá 
224 páginas
R$ 40 (editorapatua.com.br) 
Lançamento até 7 de novembro de 2020, no perfil @marceladantes do Instagram e no perfil da autora no Facebook (facebook.com/marceladantes).


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