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Estado de Minas RACISMO

Poeta Carlos de Assumpção: 'O Brasil tem vergonha de si mesmo'

Era para ser uma entrevista, mas é mais forte. Escritor envia carta à repórter do Estado de Minas, na qual aponta o apartheid em um país 'que anda na contramão de sua história'


postado em 17/07/2020 04:00 / atualizado em 17/07/2020 07:46

(foto: Ricardo Benichio/Divulgação)
(foto: Ricardo Benichio/Divulgação)

Nascido em Tietê (SP) em 1927, Carlos de Assumpção vive em Franca desde 1969. Não pararei de gritar reúne poemas de cinco livros do autor: Protesto; poemas (Franca: Edição do autor, 1982); Quilombo (Franca: Edição do autor/Unesp, 2000); Tambores da noite (São Paulo: Coletivo Cultural Poesia na Brasa, 2009); Protesto e outros poemas (Franca: Ribeirão Gráfica e Editora, 2015); Poemas escolhidos (Franca: Artefato Edições, 2017).


Na cosmogonia das religiões de matrizes africanas, o tempo é espiralar. Não é linear e os acontecimentos do futuro tocam o passado, formando novos presentes. Essa chave de entendimento permite constatar que a reivindicação do direito de respirar, evidenciado nos últimos protestos antirracismo no mundo, é muito anterior.

A evocação atravessa a existência de gerações de negros em diáspora, em diferentes países do mundo. Prova da precisão desse conhecimento tradicional, é o livro Não pararei de gritar – poemas reunidos, do poeta Carlos de Assumpção, organizado por Alberto Pucheu.

O livro é uma antologia de 69 anos de produção, com poemas escritos entre 1950 e 2019. “Em decisão conjunta com o autor, resolvemos manter o primeiro livro em seu modo original e, em seguida, acrescentar apenas os poemas incluídos nos livros posteriores. Além disso, foram adicionados nove poemas inéditos, escritos entre 2018 e 2019”, explica Alberto Pucheu.

Ao ler os versos de Assumpção, é impossível não retomar a imagem de George Floyd, homem negro pressionado pelo pescoço pelos joelhos de um policial branco em Minneapolis, nos Estados Unidos, até a morte. A cena gravada e compartilhada colocou a respiração de milhares de pessoas negras em suspensão em todo o mundo.

Testemunhar o ato é constatar que, naquele momento, o Estado retira o ar de quem é negro. E diante do sufocamento, muitos gritos, em todo mundo, sucederam àquele momento. E o grito de rebeldia de Carlos Assumpção ressoa na poesia brasileira há pelo menos seis décadas, quando ele falou pela primeira vez os versos de Protesto.

Mesmo que voltem as costas
Às minhas palavras de fogo
Não pararei de gritar
Não pararei
Não pararei.

Publicado pela primeira vez em 1958, na Associação Cultural do Negro em São Paulo, o poema parece ter sido escrito em resposta aos atos racistas que ainda ocorrem no século 21. Protesto ainda reverbera. E cada vez mais forte.

Ilustre jornalista Márcia 
Maria Cruz, do jornal Estado de Minas
 
Me permito dizer que, a meu ver, neste país em que a grande maioria da população é negra, o racismo não prejudica só o negro prejudica também o branco e o país

Quero dizer também que o Brasil anda na contramão de sua história. Tem vergonha de si mesmo. Não se assume como país não-branco. A causa negra não é absolutamente só dos negros; a causa negra é de todos nós. Frequentemente se ouvem pessoas brancas dizerem, por exemplo, que 13 de maio, Dia da Consciência Negra, são datas dos negros.

Não são, não. São datas de todos nós de todos os brasileiros. O protesto chamado Tamborzaço, ocorrido em Minas, deveria ter conclamado não só os negros, mas também os brancos a tocarem tambor, instrumento fundamental em nossa cultura.

Tenho vários poemas cuja temática é o tambor. Veja:

Ei você aí Zé Tambor parado 
Na frente do cinema
Na frente do banco 
Na frente do supermercado 
Zé Tambor cuidado

A injustiça
Ronda as ruas da cidade 
Zé Tambor 

A morte é irmã gêmea da vida 
Zé Tambor 

Lá vem o carro de fogo
Lá vêm os homens de olhos de fogo
Com armas de fogo 
Nas mãos 

Cuidado Zé Tambor 

Cor suspeita de carvão 

Dizem que aqui não tem apartheid. Eu acho que sim. Tem apartheid disfarçado, nas favelas e periferias, de todas as cidades brasileiras. 

Outra coisa, quase todo o povo negro se encontra em situação de pobreza extrema, a enorme desigualdade socioeconômica existente no país é, a meu ver, bomba-relógio que pode explodir em futuro não distante. Infelizmente, nas esferas municipal, estadual e federal, não parece haver vontade política para solucionar esse grave problema. Nós, povo afrodescendente, nos encontramos na marginalidade de tudo, sem acesso a quase nada.

Quero dizer também que o negro foi jogado de uma escravidão para outro tipo de escravidão com a tal lei áurea:

A princesa a Isabel 
Passou cheque sem fundo 
Enganando todo mundo 
Enganando todo mundo

A escravidão não acabou 
A escravidão continua 
Só vê quem é cego 
Ou tem a cabeça na lua 

Abolição
A abolição na verdade
Não pôs fim ao cativeiro 
O povo negro levou 
Foi um chute no traseiro 

A abolição da maneira como foi feita é considerada pelo povo negro grande injustiça que até hoje pesa sobre nossos ombros. Saímos da escravidão de mãos vazias, sem nada e de mãos vazias, sem nada, estamos até hoje, apesar destes anos de muita luta. Vide poema Protesto (e muitos outros) do livro Não pararei de gritar.

Meus poemas falam de injustiça, de violência, de opressão, de exploração que pesam sobre nós, mas também falam de esperança por fraternidade, por um país melhor, por um mundo melhor.

Em tempo, eu deveria ter dito no início, mas digo aqui. Vamos lá. Meu nome é Carlos de Assumpção, nasci em 1927, em Tietê/SP, cidade de Cornélio Pires, do médio Tietê (rio), onde vivi até os vinte e poucos anos. Sou caipira daquela região. Me orgulho disso. O ser caipira se reflete na minha poesia, está ligada à minha terra, a sua cultura, a sua vida. Tietê, como todo o país, tem racismo velado, urdido entre quatro paredes difícil de lidar, difícil de se combater.

Na minha terra, oriundo talvez da Bahia, viveu um poeta negro repentista analfabeto que costumava perambular pelas ruas da cidade fazendo quadrinhas que criticavam, muitas vezes, pessoas, autoridades, o poder público, sempre cercado de crianças que o adoravam.

Chamava-se Valério. Sua obra se perdeu no tempo, por conta da oralidade. Restou no imaginário popular apenas uma quadrinha que diz: 

Me chamo Valério Correa 
Sobrenome de Garcia 
Na boca de quem não presta 
Valério não tem valia 
  
Minha mãe, quando menina, conheceu o poeta, que foi amigo do meu avô e me contou muitas coisas sobre sua vida em Tietê.

Desde cedo aprendi com minha mãe a admirar Valério Correa. É meu ídolo. A meu ver, quem canta, com arte, quem exalta a liberdade fica na memória popular.

Valério inspira minha poesia no combate ao racismo. Não só ele, mas os cururueiros e cantadores de batuque de umbigada da região onde nasci e me formei. Ouça:

Moda
Seu vigário 
Nóis não gosta de candonga 
Mecê fala em sua igreja
Que negro não é gente 
Deixe de conversa songa
Pro batuque ficá bão
É preciso tocar conga

Muito me impressionou a maioria branca nas manifestações de protesto contra o assassinato de um homem negro (George Floyd) nos Estados Unidos...

Vejo essas manifestações com olhos de esperança de que, em futuro não muito distante vamos viver vida de irmãos.  

A participação de grande maioria de pessoas brancas em confronto com policiais armados é, a meu ver, demonstração inequívoca de solidariedade, de que vidas negras, de que vidas importam, sim.

Faço questão de dizer que minha poesia tem a pretensão de ser arma contra o racismo em nosso país, racismo que prejudica a todos nós. Pretende também conclamar a todos os brasileiros de bem para se unirem na busca de soluções para a grave desigualdade social em que o País se encontra. 

Racismo
Racismo é contra mim 
Racismo é contra o racista também 
Racismo é contra a lei de Deus 
Racismo faz mal a todos nós 
Racismo faz muita gente infeliz 
Racismo é lixo
Racismo sufoca tortura mata 
Vamos jogar o racismo fora 

Franca, junho de 2020

Quem mandou matar Marielle 
Quem mandou matar Marielle 
Nossa nova Dandara 
Quem mandou matar Marielle
A enviada de Ogum 

Quem tem ceifado tantos sonhos 
Quem tem coberto o País com tantas mortes sem explicação 
Quem tem matado tanta gente inocente e culpada 

Há no ar silêncio enorme 
Não há nenhuma resposta 
Será que a justiça dorme
Ou a justiça tá morta 
Franca

Não pararei de gritar – poemas reunidos
De Carlos de Assumpção
Companhia das Letras
176 páginas
R$ 49,90 


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