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Estado de Minas primeira leitura

A paisagem correta


postado em 17/07/2020 04:00


Amir Or

Vem

Vem, vamos fazer amor, não realidade.
Já não tenho força para morrer
e morrer.
Esta alteridade, tua e minha
ameaça menos (ou pelo menos
do meu ponto de vista).
Não. Não ouses,
não tentes
sequer me compreender.
Ao contrário,
relaciona-te comigo feito
eu fosse um inimigo,
espiona-me com asas nos pés,
fica atenta.
Anota bem
todos os postos de vigilância,
as passagens secretas,
os parceiros,
os assassinos de aluguel –
em resumo,
prepara-te o quanto puderes.
Depois disso
o dado será lançado
e já não ficará claro
quem é o agente duplo
qual o motivo do assassinato
e quem partiu
o tabuleiro do jogo?
Também não ficará claro
de quem
é o informe acima. Ponto.
Relê. Lê entre as linhas.
Recodifica. Destrói todo testemunho.
Tudo pronto?
Então vem,
Vamos fazer amor.


Rumo ao mundo

O espírito cai, o pequeno corpo
sacode-se embaixo com o grande corpo
quando um mar selvagem bate o fundo neles
e o entorno é o dentro –
agarra encolhe torce engole
como garganta ou intestino
a presa.
A eletricidade da dor atira-o do útero
às caras acima das coxas abertas
para o céu do quarto, e além
para o quarto do céu
que arredonda no arco do seu olhar.
Caras, caras, caras, mais caras
saídas do mar, das cidades, do ar incandescente.
Embaixo de sua pele ossos rangem trincam quebram
formigas escalam as órbitas dos olhos
paredes se transformam em paredes que se transformam –
um berço, uma banheira, uma rua, um túmulo.
Lá embaixo
um choro.

Os bárbaros (segundo turno)

Não em vão esperamos pelos bárbaros,
não em vão nos juntamos na praça da cidade.
Não em vão vestiram os nossos maiorais os trajes de honra
e estudaram os discursos em respeito ao evento.
Não em vão esmagamos nossos templos
e construímos outros dedicados aos deuses deles;
conforme o figurino queimamos nossos livros
que nada guardavam para gente como aquela.
Como numa profecia vieram os bárbaros
e pegaram da mão do rei as chaves da cidade.
Mas na sua vinda eles se cobriram com trajes locais,
seus costumes eram os costumes do país;
e quando nos comandaram em nossa língua,
já não mais sabíamos quando
os bárbaros vieram.
 
 

Epitáfio

Desvia-te do caminho, tu ó andarilho,
senta entre as amoreiras e as videiras.
Entre a água e a sombra e a brancura da pedra
aqui deito-me eu, jovem e rei.
Face de mármore frio. Minhas mãos, meus pés.
Eu me visto de samambaias e folhas caídas.
Eu também não fui longe,
eu também fui vivo.


Sobre o autor e o livro 


Primeiro livro do poeta israelense Amir Or (foto) publicado no Brasil, A paisagem correta (Relicário) foi traduzido diretamente do hebraico por Moacir Amâncio. O professor de literatura hebraica da USP  organizou a antologia com 53 poemas do autor, nascido em Tel Aviv em 1956. Também romancista e tradutor de poesia erótica grega, Amir Or é ativista cultural e coordenou o programa Poetas pela Paz, que estimula a criação e tradução conjunta de jovens escritores árabes e israelenses. Para João Anzanello Carrascoza, que assina a orelha de A paisagem correta, “os poemas de Or, traduzidos magistralmente do hebraico para nosso idioma por Moacir Amâncio, inauguram um novo território lírico e convidam a nossa sensibilidade para habitá-lo. São por vezes epigramas, por vezes longas reflexões, metafísicos uns, narrativos outros, esse à maneira de prece, aquele uma oferenda, sempre com angulações inesperadas, uma pluralidade de ramas vigorosas nas quais a potência dos pensamentos e a sutileza das emoções se equilibram plenamente”.
 
 
 

» A paisagem correta
» De Amir Or
» Tradução de Moacir Amâncio
» Relicário
» 76 páginas
» R$ 33
» Em pré-venda no site da editora
» Em pré-venda no site da editora:
    relicario.com.br
 


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