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Estado de Minas ENTREVISTA

Cristovão Tezza: 'Entramos numa era perigosa de evangelismo literário'

'Se o escritor não se preserva, vira pastor de almas'


postado em 10/07/2020 04:00 / atualizado em 10/07/2020 08:30

(foto: divulgação)
(foto: divulgação)


Em termos de estrutura narrativa, quais as diferenças de A tensão superficial do tempo para seus romances anteriores?
Esse livro segue a voz narrativa que minha literatura assumiu desde O fotógrafo, e se intensificou nos romances seguintes, como Um erro emocional, O professor, A tradutora, A tirania do amor. Mas sinto que agora eu radicalizei alguns procedimentos.

O livro inteiro, o seu tempo cronológico, por assim dizer, se passa em praticamente meia hora, sempre na perspectiva solitária do personagem Cândido, num momento de aguda crise pessoal por uma fratura amorosa. Neste caminho de “juntar os cacos” da memória, o ro- mance vai erguendo a história pessoal de Cândido. Para mim, é um processo mais instintivo da escrita do que um planejamento racional. Mas é um instinto já educado pela experiência, é claro.

Quais sensações e discussões o cinema é capaz de proporcionar e que você tentou incorporar ao novo livro? 
O cinema, que é a mais impressionante “réplica do mundo” que se inventou, tem uma presença avassaladora na vida das pessoas, em praticamente todos os aspectos – culturais, emocionais, intelectuais, sexuais, ideológicos, estéticos, tudo. De certa forma, a literatura, em particular nas formas romanescas e narrativas, também teve historicamente este papel de “duplo” da realidade. O que impressiona no cinema é a ilusão de pura realidade que a imagem cria pela força da sua exatidão gráfica. A chamada realidade são milhões de fragmentos, e cada obra de arte monta o quebra-cabeças de um jeito próprio.

Bem, voltando à pergunta: sinto que o cinema influenciou meu olhar literário como técnica de recorte (eu só consigo escrever a partir do que eu vejo; todo livro que escrevo começa por uma imagem). Mas tem um outro aspecto, o temático: no livro, o cinema entrou como um tema central do argumento: o perso- nagem é um pirateiro de internet, um “nerd” obsessivo que abastece sua mãe de filmes, e quase sempre filmes B, antigos, esquecidos.

Assim, fala-se muito de cinema no livro, mas numa abordagem comum, cotidiana, como a de todo mundo. Para a mãe de Cândido, por exemplo, um filme não é um objeto estético a merecer considerações teóricas, mas apenas um divertimento instrutivo, uma fonte exemplar de avaliação moral do comportamento das pessoas retrata- das. Milhões de pessoas veem cinema assim.

Como a conjuntura política se insere na intimidade de seus personagens?
Se a narrativa tem uma pegada de base realista – tempo, espaço, referências históricas concretas –, inevitavelmente o entorno político, ou pelo menos sua sombra, acaba entrando na cabeça dos personagens em um momento ou outro. Vai depender do foco da narração. Esse aspecto não era comum nos meus romances dos anos 1980 e 1990, embora aparecesse incidentalmente em alguns deles, como Uma noite em Curitiba ou O fantasma da infância.

Mas de uns anos pra cá – eu já sou outra pessoa, o país também mudou e o mundo é outro –, a política começou a entrar mais fortemente. Não como tema, mas como pano de fundo. Às vezes, o personagem exige. Em A tirania do amor, por exemplo, como tratar um economista brilhante do mercado financeiro de ponta de São Paulo sem consi- derar seu imaginário político? Mesmo que você não queira, ele vai aparecer. No caso de A tensão superficial do tempo, o personagem central é o tipo de pessoa que a minha geração chamaria de “alienado politicamente”.

Mas é um professor que convive com professores, num ambiente em que só se fala de política, e, pior, em 2019, em pleno bolsonarismo. Além disso, ele se envolve de forma fulminante com a mulher de um procurador da República; para onde quer que ele olhe ou sinta, a angústia política estará presente. Até a mãe dele, a ve- lhinha que gosta de filmes, é viúva de militar – impossível o governo não entrar na conversa.

É arriscado fazer literatura sobre e no calor da hora? Ou os escrito-res brasileiros fazem pouco isso? Poderia citar alguns exemplos, nacionais ou internacionais, desta ou de outras épocas, que lhe  agradam?
É um risco que não me preocupa, porque meu objeto de narração sempre são as pessoas – o mo- mento político, quando aparece, é mero pano de fundo. É preciso separar literatura de panfleto político – que, aliás, é um gênero bastante específico; a sua vida curta é o seu próprio DNA. O panfleto é escrito não sobre um momento, mas para um momento. Passado o momento, perde o sentido.

Mas a boa prosa literária de ficção, desde a sua constituição mais clássica, sempre respirou o “calor da hora”, direta ou indiretamente. O romance, como gê- nero, sempre se alimenta deste presente vivo. Leiam-se os clássicos do século 19, por exemplo, Dickens, Stendhal, George Eliot, Flaubert, Zola, os russos todos – tudo que acontecia em torno reverberava naquelas páginas. Mesmo modernamente, a ficção nunca perdeu este vínculo com o instante presente. Há momentos históricos em que esse traço é mais presente; em outros, menos.

Para a minha geração, romancistas como Carlos Heitor Cony e Antonio Callado, para citar dois exemplos bem nítidos, não temiam as referências concretas do seu tempo. Dos anos 1980 em diante, esse contato perdeu alguma presença entre nós, ou mudou de foco, mas de uns anos para cá parece que está voltando. Na prosa de língua inglesa – considerem-se Philip Roth e Ian McEwan – o “calor da hora” frequentemente se transforma em tema romanesco. Na França, pense em escritores co- mo Emmanuel Carrère e Michel Houellebecq.

Qual a moral da literatura num país de pessoas armadas até os dentes na guerra ideológica?
A literatura é uma reserva preciosa de sensibilidade da linguagem. No momento em que as palavras são massacradas impie- dosamente pela estupidez política, como agora, a literatura preserva todo o infinito potencial da linguagem, as sutilezas da percepção da inescapável vida em comum. Um dos traços da sensibilidade literária é manter permanentemente o ouvido atento ao mundo dos outros: são sempre os outros que povoam os bons livros, mesmo quando escrevemos sobre nós mesmos.

A República de Curitiba é uma verdade ou é uma ficção? Como essa “república”, notabilizada nacio- nalmente pela Lava-Jato, se inse- riu em seu novo livro?
A “República de Curitiba” é, antes de tudo, uma expressão engraçada – a ideia infantil de algo encastelado, resistente ao resto do mundo, como a aldeia de Asterix. Mas não veio do nada. Uma análise sociológica talvez observe a conjuminância acidental de um processo jurídico voluntarista realmente inédito e surpreendente sobre aspectos da corrupção política brasileira, com uma cidade bastante conservadora, que passou a ver, nesse processo puramente jurídico-legal, uma bandeira política.

O que é uma combinação quase sempre mortal. O Brasil gosta de admirar Curitiba como a cidade imaginária de algum sonho eu- ropeu, a fantasia de um Brasil sem Brasil. No meu romance, o vínculo é apenas acidental – a mulher por quem Cândido se apaixona é casada com um procurador da República em crise por ter de se decidir se aceita ou não um cargo em Brasília.

Quais devem ser os compromissos de um escritor que vive em um país gigante, mas de poucos leitores?
Escritor tem de escrever. Ponto. Sinto que estamos entrando numa era perigosa de evangelismo literário. Se o escritor não se preserva, vira pastor de almas.


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