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Estado de Minas

Duas novelas do escritor J.D. Salinger contam a tumultuada historia de uma família

Os Glass são personagens recorrentes na obra do nova-iorquino, que passou as últimas décadas de sua vida recluso


postado em 31/01/2020 06:00 / atualizado em 31/01/2020 08:08

(foto: Antony Di Gesu/San Diego)
(foto: Antony Di Gesu/San Diego)

Prometia ser um fim de semana bem agradável, a namorada jovem chega de trem, o casal vai almoçar e depois encontrar uns amigos para um coquetel, em seguida ver um jogo de futebol americano e, em tudo, se divertir. Mas é literatura, e claro que as coisas não vão sair como planejadas. A começar por isso, o tal Lane Coutell espera a chegada de Frances, conhecida como Franny, e lê uma carta dela, remetida dias antes. A carta é toda feliz, entusiástica, sugestiva. Ela menciona de passagem que está começando a detestar todos os poetas, a não ser Safo. Talvez até escreva uma monografia de fim de semestre a respeito da obra da poeta grega, “se conseguir fazer o imbecil que me deram de orientador aqui aceitar a ideia”.

Tudo bem? Parece. Mas sendo literatura, e do tipo de alta qualidade, essa aparência na superfície de que as coisas vão bem não deve durar. Acontece que o autor, J. D. Salinger, é um especialista no ramo, de modo que as duas novelas reunidas no volume Franny & Zooey são peça importante no quadro geral da no mínimo inquietante família Glass. Franny Glass desce do trem, o namorado pergunta que livro é esse que ela tem consigo, ela desconversa, muda de assunto, depois, a caminho do táxi, ela diz: “Ah, que delícia te ver” e, em seguida, “eu estava com saudade”. Mas basta pronunciar as palavras para perceber que não são verdadeiras. “De novo sentindo culpa, pegou a mão de Lane e entrelaçou, com força, com calor, seus dedos nos dele.” A pulga atrás da orelha do leitor está instalada.
Fim da primeira cena. Eles já deixaram a mala de Franny no local onde ela vai ficar hospedada para o fim de semana e agora vão ao restaurante. Tomam Martínis e em seguida vão almoçar. Lane conversa, entre entusiasmado e desgastado, a respeito de um trabalho sobre a obra de Flaubert que escreveu para uma disciplina, o que pode soar algo pedante em termos de conversa, mas não nas mãos de Salinger. Porque ele está atento aos pormenores de uma conversação entre um jovem casal, a todas as nuances envolvidas, às minúcias importantes. Lane acaba de dizer qualquer coisa a respeito do mot juste de Flaubert que usou num trabalho e que impressionou o professor e Franny pergunta se ele vai comer a azeitona do Martíni. Do mundo abstrato da discussão literária se abaixa rapidamente ao rés do chão das decisões mais corriqueiras e banais.

É justamente desse contraste que Salinger parece retirar boa parte da força da obra, como se estivesse interessado em demonstrar que ideias relativas à arte precisam passar pelo moedor de carne da vida cotidiana, o que parece mais intenso no caso dos norte-americanos. Está preparando o cenário, criando no leitor uma disposição para imaginar, mas, afinal, o que é que vem aí? E pelo tamanho da novela, o leitor sabe, não vai dar tempo de chegar muito longe no planejamento se esse casal continuar conversando desse jeito tão detalhado no restaurante. A cena inicial do trem era só preparação para esse momento e, agora que ele chegou, parece que não vamos mais sair daqui.

Tudo bem. Franny se sente um tanto incomodada e fala mal do namorado, provoca, implica com ele, chama-o de professor substituto, está particularmente desagradável. “Que diabo você tem hoje, afinal?”, pergunta Lane. “Desculpa. Eu sou horrorosa”, ela responde. “É só que eu estou tão destrutiva esta semana. É um horror. Eu sou péssima.” Então a discussão fica acalorada quando Franny diz que os poetas do mundo são escassos, material realmente muito raro. “A única coisa que de repente os que são um pouquinho melhores fazem, é meio que entrar na sua cabeça e deixar alguma coisa lá dentro, mas só porque eles deixam, só porque eles sabem deixar alguma coisa, essa coisa não precisa ser um poema, meu Deus do céu. Podem ser só uns excrementos sintaticosos e superfascinantes – com o perdão da má palavra.” É isso, essa mistura de conversa que beira à genialidade, mas coalhada de gírias estudantis e um tanto de puerilidade, que está nas frinchas do que Salinger quer alcançar.

O livro que estava com Franny volta a ser discutido, chama-se Relatos de um peregrino russo, ela mente que pegou na biblioteca, conta um pouco a história de um sujeito, um camponês, o peregrino do título, que quer descobrir como fazer para rezar incessantemente, como sugere a Bíblia. A peregrinação dele é à procura de alguém na Rússia do século 19 que o ensine a fazer isso, até que encontra uns tais stárets, “algum tipo de pessoa religiosa superavançada”, na definição de Franny, e aprende a rezar de modo incessante. E daí a aproximação, em seguida, com alguns princípios do budismo, em que há uma seita, Nenbutsu, que também pratica a mesma modalidade de oração, tudo em meio a conversações e detalhes a respeito da comida e dos Martínis. Depois, Franny desmaia e é socorrida pelo namorado.

“A literatura nos ensina a notar”, diz um crítico literário, James Wood, num ensaio a respeito do detalhe. E quando o leitor percebe o detalhe na literatura, começa a perceber também na vida, onde em geral os detalhes se tornam amorfos. Por perceber na vida, aprende a perceber ainda mais e a apreciar melhor o detalhe quando ele reaparece na lite- ratura. É um ciclo. Salinger faz isso muito bem. O livro do peregrino volta na segunda novela, Zooey, que apresenta outro dos caçulas da família Glass, Zachary, conhecido pelo apelido contraído do título. O narrador diz que o que está prestes a oferecer “não é exatamente um conto, mas uma espécie de vídeo caseiro em prosa”.

O narrador é o mais jovem membro da família, Buddy, mas depois de apresentar a moldura da narrativa retira-se para a terceira pessoa e conta o que se passa com outros três integrantes da família, os irmãos Franny e Zooey e a mãe, Bessie. Sobretudo uma longa conversa entre Bessie e Zooey, no banheiro, enquanto ele tenta terminar um banho de banheira, o que a mãe atrapalha, e barbear-se, o que a mãe atrapa- lha. Zooey é ator, talvez um desdobramento do fato de que todas as crianças Glass participaram quando pequenas de um programa de rádio chamado É uma sábia criança, em que demonstravam conhecimento enciclopédico a respeito de qualquer assunto. Agora é um jovem adulto que tenta conter a crise da irmã desencadeada na novela anterior. Crise que tem a ver com o fato de que o irmão mais velho, Seymour, suicidou-se, e foi do quarto dele que Franny retirou o volume que agora leva para todo lado como se fosse a tábua de salvação de que precisa para conti- nuar.

No fecho, uma conversa telefônica entre Franny e Zooey, em que este tenta se passar por outro irmão, justamente o Buddy, que é o narrador disfarçado (em terceira pessoa) da história, é incrível, para dizer pouco. Ou seja, como é possível perceber aqui, as narrativas se entrelaçam, aliás, como acontece em todos os livros de Salinger, que nem são tantos, à exceção de O apanhador no campo de centeio, um relato do mau humor juvenil que é uma obra-prima. Só para se ter ideia. “Eu sou o mentiroso mais sensacional que você já viu”, declara de passagem o personagem central Holden Caulfield a certa altura, sem qualquer preocupação com eventuais acusações de ser presunçoso ou coisa parecida.

A FAMÍLIA GLASS

Todos os outros livros, que estão sendo submetidos a nova tradução e relançados no Brasil pela Todavia, se debruçam sobre a família Glass. Meninos e meninas inteligentes, superespertos, mas também problemáticos. Porque as pessoas parecem ter essas escolhas na vida, podem ser inteligentes ou felizes. Os Glass são do primeiro tipo, mas parecem estar em sérias dúvidas se é mesmo escolha. 

O curioso é que, ao se deter sobre as minúcias da família Glass, Salinger atrai necessariamente a atenção também para si mesmo, para o escritor que articulou todo esse enredo familiar em grandes proporções e que se esparrama pelos outros livros, o Nove histórias, já lançado, e os ainda previstos para este ano: Pra cima com a viga, carpinteiros e Seymour, uma introdução. E a verdade é que o sujeito, por mais que tenha tentado se manter no anonimato, quando decidiu se afastar do mundo e viver mais ou menos escondido no estado norte-americano de New Hampshire, em meados da década de 60 do século passado, o que conseguiu foi atrair mais e mais atenção para si.

Um dos que tentaram fazer uma biografia do escritor foi Ian Hamilton, que escreveu Em busca de Salinger. O resultado é, para dizer pouco, capenga. Ele passa mais tempo a contar minúcias do processo que Salinger moveu contra si do que realmente a relatar a vida do escritor. Não deixa de ser curioso que, mesmo tendo sofrido e perdido um processo judicial, a biografia não se deixa contaminar por essa adversidade e continue a ser simpática ao escritor. Mas, sem poder reproduzir as cartas encontradas em arquivos, sem poder dizer as coisas de maneira aberta, termina por ficar pela metade, exemplo na verdade de contrabiografia.

Por fim, uma palavrinha a respeito da tradução. Caetano W. Galindo é um craque absurdo nesse quesito e consegue melhorar o texto erguendo-o a um nível impressionante. Ele tem ouvido afiado para nuances bem sutis da prosa de Salinger, aliás, para qualquer que seja o escritor que decida enfrentar, a tal ponto que o nome de Galindo passa a ser uma espécie de selo de qualidade para o trabalho.

Harold Bloom, um dos maiores nomes da crítica literária norte-americana, diz que Franny & Zooey, junto com Nove histórias, são “pequenas obras-primas ou clássicos menores e nos lembra que ‘menor’ pode ser tanto uma palavra descritiva como valorativa para a crítica literária”. Ele meio que torce o nariz, sim, mas a vivacidade reencontrada na tradução vale cada centavo dessa nova edição. E literatura costuma ser meio avessa a essas medidas de tamanho. Salinger sabia disso como poucos.

Paulo Paniago é professor de jornalismo da Universidade  de Brasília

TRECHO DO LIVRO 
FRANNY & ZOOEY


Havia vários acrobatas verbais experientes na família Glass, mas esse último comentariozinho talvez apenas Zooey tivesse a coordenação adequada para realizar em segurança numa ligação telefônica. Ou é o que sugere este narrador. E Franny pode ter sentido a mesma coisa, também. De um jeito ou de outro, ela de repente viu que era Zooey do outro lado. Levantou, devagar, da beira da cama. “Tudo bem, Zooey”, ela disse. “Tudo bem.”
Não imediatamente: “Perdão?”
“Eu disse, tudo bem, Zooey.”
“Zooey? Que história é essa...? Franny? Você está aí?”
“Eu estou aqui. Só pare com isso, tá. Eu sei que é você.”
“Mas do que é que você está falando, querida? Que história é essa? Quem é esse Zooey?”
“Zooey Glass”, Franny disse. “Só pare, tá. Não tem graça. A bem da verdade, eu mal estou dando jeito de voltar a ficar mais ou menos...”
“Grass, você disse? Zooey Grass? Um norueguês? Um sujeito pesado, loiro, atlé...”
“Tudo bem, Zooey. Chega, tá. Já deu. Não tem graça... Caso você queira saber, eu estou me sentindo um nojo. Então se tiver alguma coisa especial que você queria me dizer, por favor, diga de uma vez e me deixa em paz.” Essa última palavra destacada foi objeto de um estranho desvio, como se a ênfase que recebeu não fosse plenamente intencional.


Nove histórias singulares

Nove histórias, de J. D. Salinger, não é apenas um dos livros mais emblemáticos da literatura norte-americana do século 20, como também um dos que levaram a arte do conto – aqui, compreendida em sua dimensão atemporal e não circunscrita aos limites de um país ou uma língua – ao seu ponto máximo de excelência. Publicado originalmente em 1953 – dois anos depois do aclamado romance O apanhador do campo de centeio –, o volume reúne narrativas escritas a partir do final dos anos 1940, com foco nos traumas e sequelas vivenciados pela sociedade americana após a 2ª Guerra Mundial, da qual o próprio Salinger foi um combatente involuntário e inconformado.

O conto que abre a coletânea, Um dia perfeito para peixes-banana, o primeiro a ser publicado avulsamente, em 1948, já oferece as diretrizes para a leitura do conjunto, por concentrar as principais linhas de força que incidem nas narrativas subsequentes. Sua matéria-prima são os momentos prosaicos (mas, nem por isso, banais) que atravessam dia na vida de Seymour Glass. Diálogos familiares cheios de não ditos, detalhes irrelevantes à primeira vista, mas incisivos como pistas para a interpretação dos acontecimentos, tensões entre o enredo explícito e os elementos implícitos nas falas dos personagens, tudo isso evidencia a ineficácia de uma leitura superficial do enredo. Este, aliás, importa menos que a sutileza irônica da linguagem e os movimentos ambíguos da narrativa. A isso se soma o engenhoso uso que o autor faz tanto dos sentidos deflagrados pela sonoridade dos nomes dos personagens quanto do falar espontâneo, e sem imposturas, das crianças.

Tais recursos se reinventam nas demais ficções, com acréscimos e variações surpreendentes, que incluem inserções de cartas, relatos e anotações no meio das narrativas, capazes de revelar, nos detalhes, o que se esconde nas dobras do enredo central. Discórdias conjugais, donas de casa em desconforto com sua própria condição, hábitos supérfluos das famílias de classe média em viagens de férias, artifícios enganosos do marketing capitalista e ilusões do ideal americano de existência são postos em questão por um olhar ao mesmo tempo crítico e melancólico, que desafia a visão dicotômica do mundo e explora os matizes da ironia, sem abrir mão da sensibilidade poética. E, como contraponto a isso, a possibilidade da epifania, da luminosa força da imaginação.

O último conto, Teddy, numa espécie de simetria inversa ao primeiro, vem evidenciar esse contraponto, ao percorrer as palavras sábias de um menino – um pequeno buda em viagem num navio com a família – que, ao invés de aderir ao way of life americano para sobreviver ao agora do mundo, opta por outro caminho.

Assim, com uma prosa que se recusa a ser encontrada onde se espera que ela esteja, Salinger reafirma, com Nove histórias, sua singularidade na história da literatura do século 20 e de todos os tempos. Nesse sentido, sua publicação no Brasil pela Todavia, em tradução impecável de Galindo, é para ser celebrada como um grande acontecimento literário.  (Maria Esther Maciel *)


* Maria Esther Maciel é escritora, ensaísta e professora da UFMG. Texto originalmente publicado na apresentação da edição brasileira de Nove histórias (Todavia, 2019).




Tão famoso quanto recluso


Jerome David Salinger, conhecido como J. D. Salinger (1919-2010), foi um dos mais importantes e controversos escritores do século 20. Sua obra máxima, O apanhador no campo de centeio (The catcher in the rye), lançada em 1951, alçou Salinger ao estrelato e, curiosamente, decretou sua fuga do mundo nas últimas décadas dos seus longos 91 anos de vida. A trajetória do escritor nova-iorquino é detalhada na biografia Salinger, do roteirista, diretor e produtor Shane Salerno e do escritor David Shields.

Lançada em 2014 no Brasil pela editora Intrínseca, a obra tem 702 páginas em letras miúdas, resultado de nove anos de pesquisa. (Detalhe: o livro pode ser encontrado a R$ 9,90!!! numa livraria de BH, algo inacreditável para amantes da leitura.) Os dois autores ouviram mais de 200 pessoas ligadas a Salinger, reunindo depoimentos de ex-colegas de escola e faculdade e dos campos de batalha da 2ª Guerra Mundial, críticos literários, editores, ex-namoradas e ex-mulheres, amigos, familiares e até conselheiros espirituais. A obra foi produzida inclusive simultaneamente com um documentário homônimo dirigido por Salerno.

O resultado desse trabalho de fôlego é uma biografia consistente que esmiuça as idiossincrasias de Salinger. Os autores tiveram a boa sacada ao fazer toda a obra com pequenos depoimentos dos entrevistados, o que não a torna cansativa e facilita a leitura sobre a vida do homem por trás do mito. Logo na primeira linha da introdução do livro, Shields e Salerno já dão o tom da vida e da obra do autor:

“J. D. Salinger passou dez anos escrevendo O apanhador no campo de centeio e o resto da vida lamentando esse fato. Antes da publicação do livro, ele era um veterano da Segunda Guerra Mundial com transtorno de estresse pós-traumático. Depois da guerra, vivia em busca constante de uma cura espiritual para sua psique danificada. Em razão do enorme sucesso do romance sobre um adolescente rebelde surgiu um mito: Salinger, como Holden Caulfield [o protagonista] era sensível demais para ser tocado, bom demais para este mundo. Passaria o resto da vida tentando, sem sucesso, conciliar essas versões completamente contraditórias de si mesmo: o mito e a realidade”. Por isso, ao mesmo tempo em que caiu nas graças da mídia, foi um apanhador que apanhou do sucesso. Ficou famoso por não querer ser famoso.

LUTA CONTRA A GLÓRIA

O apanhador... já vendeu mais de 65 milhões de exemplares e continua a vender meio milhão por ano. Impactou diversas gerações e ainda hoje segue como marco do adolescente americano. Mas por que foi tão significativo? Porque no pós-guerra foi um libelo antiestablishment. A obra foi escrita enquanto ele estava na guerra na Europa, como agente de contrainformação do Exército americano. É narrada na primeira pessoa por Holden Caulfield, alterego de Salinger adolescente. “A voz é diretamente a de Salinger, sem ser filtrada. Consiste em sua vida, seus pensamentos, seus sentimentos, sua raiva, sua grande e bela banana para todas as pessoas falsas do mundo”, dizem os autores.

Quando foi lançando, O apanhador... caiu nas graças dos adolescentes americanos porque quebrou o american way of life, a hipocrisia. É um solilóquio de 244 páginas com o desabafo de Holden, o garoto expulso da escola e brigado com o mundo, que questiona tudo e todos, um iconoclasta. Holden se tornou o apanhador no campo de centeio que salva crianças de pularem no abismo.

“Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos e ninguém por perto... quer dizer, ninguém grande.... a não ser eu. E eu ficou na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer: tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer”, desabafa Holden. O livro exerceu enorme influência sobre os adolescentes incompreendidos da caretice vigente. Hoje parece banal, mas foi revolucionário para a época.

Para muitos críticos, a história de Holden é a de Salinger na guerra, metáfora da impotência de salvar soldados no campo de batalha. O que era para ser glória virou tormento para Salinger. Traumatizado pela carnificina que presenciou em cinco batalhas da 2ª Guerra, ele jamais se recuperou e se isolou do mundo, foi morar na pequena cidade de Cornish, em New Hampshire, mas nunca escapou do assédio da mídia. E jamais autorizou a adaptação de sua obra para o cinema.

Dizia: “Estou neste mundo, mas não sou deste mundo”. Não punha fé no ser humano. Depois de lançar poucas obras (Nove histórias, Franny & Zooey, Pra cima com a viga, carpinteiros e Seymour, uma introdução), ele parou de escrever ainda nos anos 1950 e aderiu à filosofia oriental vedanta. Passou a não suportar o convívio com as pessoas e assim ficou até o fim. As lembranças da guerra arruinaram sua vida social. Esteve em campos de concentração após a derrota nazista, viu gente queimada ainda viva e se desiludiu com o ser humano.

Salinger nunca deixou de ser adolescente, como mostram seus livros. E a vida inteira cortejou garotas recém-saídas da puberdade como consequência de ter perdido o amor da bela menina-moça Oona O'Neill, filha do dramaturgo Eugene O'Neill. Ela o abandonou para se casar com Charlie Chaplin, então o maior astro do cinema e com quem teve oito filhos. A reclusão, mesmo diante do sacrifício da mulher e dos filhos, foi a redenção para Salinger, sempre com o propósito de precisar de sossego para escrever e evitar as pessoas até o fim. (Paulo Nogueira)


FRANNY & ZOOEY
• De J. D. Salinger
• Todavia
• 176 páginas
• R$ 54,90


NOVe HISTÓRIAS
• De J. D. Salinger
• Todavia
• 208 páginas
• R$ 54,90


SALINGER
• De David Shields e Shane Salerno
• Íntrinseca
• 702 páginas
• Até R$ 50 (sebos)


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