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Estado de Minas

Especialistas apontam graves erros que deixaram BH vulnerável a enchentes e destruição

A pedido do 'Pensar', o arquiteto Gustavo Penna e a historiadora Adriane Garcia analisam falhas do planejamento urbano que transformou rios em avenidas sanitárias


postado em 31/01/2020 06:00 / atualizado em 31/01/2020 08:11

Mau exemplo de planejamento urbano: o Ribeirão Arrudas canalizado não suportou volume de água e explodiu a avenida(foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)
Mau exemplo de planejamento urbano: o Ribeirão Arrudas canalizado não suportou volume de água e explodiu a avenida (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)

Do lado de fora de um quarto de unidade de terapia intensiva (UTI), angustiado e impotente diante do sofrimento do outro. Essa é a analogia feita pelo arquiteto e urbanista Gustavo Penna ao vivenciar o avassalador tsunami de chuvas que se lançou sobre Belo Horizonte, numa espécie de enxurrada do fim do mundo. Arrastou pessoas, sonhos, casas, árvores, carros, asfalto. Legou à capital mineira, no desabrochar de seus 122 anos, um cenário ficcional de guerra. “Dói, machuca, você quer participar de alguma maneira, mas não tem condição. Ando entalado, angustiado”, afirma.

Em dado momento, Gustavo Penna, arquiteto que “respira e pensa como um montanhês”, reconhecido internacionalmente por dezenas de projetos de referência da arquitetura – como a Escola Guignard, o Monumento à Imigração Japonesa, na Pampulha, o Expominas, o Museu de Congonhas e o Monumento à Liberdade de Imprensa, em Brasília –, desabafa em redes sociais: “Temos que mudar nossa maneira de ver os rios da cidade. Há tempos eles são tratados como avenidas sanitárias, cobertos, canalizados, sufocados, quando deveriam se tornar grandes parques ciliares. É da natureza do rio transbordar, e da missão do homem aprender com ela”.

“Tristeza”, “indignação”, com a “sanha do capital” sobre os recursos naturais daquele que um dia foi o bucólico Arraial do Curral del-Rei, registrado nos livros de história como de clima agradável, cortado por rios e córregos, belas paisagens entre as Serras do Curral e de Contagem, da Piedade e o Vale do Paraopeba. Assim se sente a historiadora e escritora Adriane Garcia, autora de Arraial do Curral       del -Rei – A desmemória dos bois, 34º título da coleção sobre Belo Horizonte, da Conceito Editorial. “O projeto de Aarão Reis é autoritário, elitista e violento. Trata-se da planta de uma cidade ideal, desenhada, e não só os habitantes originais são expulsos para as periferias, mas também a natureza, os rios, as paisagens tiveram de se submeter”, afirma Adriane Garcia.

Para a historiadora, o impacto das chuvas demonstra que os fundamentos ideológicos da cidade de Aarão persistem: “Ainda estamos na Belo Horizonte que não atende a todos igualmente; ainda vemos o poder público que não se responsabiliza pela situação de moradia dos mais fragilizados socialmente. Os herdeiros do Arraial estão pelas encostas que desabam. E não têm dinheiro para aguardar num hotel”, afirma.

''Quando se fala de avenida sanitária já se pressupõe a supressão das matas ciliares, as margens viram pista de rolamento. Temos que mudar esse conceito. Os rios que cortam nossas cidades são nossos parques. Os rios são lugares de as crianças brincarem, dos idosos, de sombra, flor e pássaro''

Gustavo Penna, arquiteto



''O projeto de Aarão Reis é autoritário, elitista e violento. Trata-se da planta de uma cidade ideal, desenhada, e não só os habitantes originais são expulsos para as periferias, mas também a natureza, os rios, as paisagens tiveram de se submeter''

Adriane Garcia, historiadora



PLANEJAMENTO EXCLUDENTE

A destruição do antigo arraial e a brutal remoção da população local –, drama poeticamente trabalhado por Adriane Garcia – levaram à ocupação de Belo Horizonte por populações vindas de Ouro Preto e outras regiões mineiras, de outros estados brasileiros, além de imigrantes europeus. Foi um planejamento excludente, que forçou para os morros e as periferias não planejadas a população original, impotente face aos novos preços das moradias, que dispararam com a especulação imobiliária.

Nesse modelo segregador, os limites da Avenida do Contorno, que circundavam a área nobre e central, atuaram como uma fronteira, separando a capital em duas metades, apenas uma delas dentro de padrões urbanísticos considerados de vanguarda. Ao considerar o saneamento público e a disposição espacial da cidade para que houvesse a circulação de ar, Aarão Reis projetou a área urbana da nova capital, em princípio para 200 mil habitantes, de tal forma que fosse ocupada do centro para a periferia, reservando o centro para os funcionários públicos e a instalação dos novos equipamentos públicos.

Assim como o Barão Haussmann, prefeito de Paris entre 1853 e 1870, Aarão Reis buscou em seu traçado privilegiar a higiene e a estética da área central, em detrimento do espaço físico e geográfico. Era a promessa da vanguarda: ruas ortogonais e avenidas diagonais, como rezava o modelo francês da École de Beaux Arts, ao estilo “casamento arranjado” entre a cabeça do planejador e a geografia.

“Em 1897, o desenho geométrico da cidade planejada nos moldes franceses pousou sobre o nosso solo montanhoso. Às vezes leve e adaptado e muitas outras desajeitadamente: ladeiras, tobogãs e descontinuidades. O planejamento era formalista. Não olhava a natureza. Havia o modelo na cabeça do planejador, e a geografia ali. Mas foram obrigados ao casamento”, afirma Gustavo Penna. Belo Horizonte foi assim anunciada como o resultado do progresso e triunfo republicanos – e dentro da perspectiva de ruptura com o passado colonial, representado pela antiga capital, Ouro Preto.

“Existia um plano urbanístico, que imita o modelo francês, aplicado em La Plata, Washington, Barcelona, e também em Paris. Mas, no caso de Belo Horizonte, tínhamos uma cidade ideal para aqueles tempos e para uma população de até 500 mil habitantes. Mas a cidade elegante e republicana explodiu sem qualquer qualidade, ruas e calçadas íngremes e estreitas, pouquíssimos parques e praças, impermeabilização do terreno e ocupações de áreas geologicamente frágeis. Os bairros descontínuos, compactos. E repare como tudo que se fez depois de Aarão Reis carece de planejamento a longo prazo, precisou de reforma, desapropriação, destruiu história e paisagem”, analisa o arquiteto.

Segundo Gustavo Penna, a tendência mundial hoje são cidades mais orgânicas, com o espaço urbano projetado a partir de sua geologia. “A capital mineira é emoldurada por montanhas, que formam a sua arquitetura natural”, define ele. As serras de Belo Horizonte são ramificações da Cordilheira do Espinhaço e pertencem ao grupo da Serra do Itacolomi. Abraçam a cidade as serras de Jatobá, José Vieira, Mutuca, Taquaril e Curral, está icônica o seu ponto mais alto, com 1.538 metros. E embora não seja banhada por nenhum grande rio, Belo Horizonte integra a Bacia do São Francisco.

Por seu solo passam ribeirões e vários córregos. Os trajetos desses cursos d’água foram utilizados como referências naturais na composição do traçado original para a área urbana planejada. Em que pese em seus primeiros anos estivessem à vista na nova capital, todos foram progressivamente canalizados em seus percursos dentro do perímetro da Avenida do Contorno. Atualmente, são tapados com concreto em “avenidas sanitárias” 165 quilômetros dos cursos d’água – que correspondem, segundo levantamento da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), a 25% de seus rios e córregos.

PARQUES CILIARES

“Quando se fala de avenida sanitária já se pressupõe a supressão das matas ciliares, as margens viram pista de rolamento. Quando se diz sanitária, a coisa fica mais triste, pois denota o que se pretende jogar dentro”, sustenta Gustavo Penna. “Nós temos que mudar esse conceito. Os rios que cortam nossas cidades são nossos parques. Os rios são lugares de as crianças brincarem, dos idosos, de sombra, flor e pássaro”, afirma Gustavo Penna, defendendo que as avenidas sanitárias de Belo Horizonte sejam transformadas em parques ciliares, que preservam bordas para infiltração, dado que é da natureza dos rios transbordar.

Ao defender a criação de parques ciliares, contudo, Gustavo Penna frisa que não se refere a parques ilhados, contornados por avenidas em todos os seus lados; mas, antes, a um contínuo verde. “Às vezes largos, às vezes estreitos, que permitem acolher o bicho que voa, o que salta, o que corre e o que rasteja, e a cadeia alimentar que os acompanha. Assim, permite-se o surgimento da riqueza ambiental, da biodiversidade no espaço urbano”, avalia, lembrando que as cidades são organismos vivos, que precisam de manutenção constante. “Desde o primeiro dia em que o primeiro homem fez a primeira cidade, ele encara o desafio de preservar os recursos naturais e de vê-la crescer ao mesmo tempo”, afirma.

Diferentemente da ideia de megacidades, Gustavo Penna pensa uma metrópole como Belo Horizonte como um conjunto de pequenas cidades, cada pequena área com a sua autonomia, história e característica próprias. “É uma polaridade que se junta à outra e assim por diante”, considera, assinalando que os mecanismos existem e a ciência urbanística já contempla o pensamento das cidades em harmonia com a natureza. “O que precisamos é de mais diálogo e colocar em prática”, diz Gustavo Penna. “A cidade vive nos lugares. Aí se encontra o seu espírito. Pensar uma arquitetura para Belo Horizonte é identificar esse espírito de cidade única, onde horizonte e montanha dialogam”, sintetiza o arquiteto, lembrando que tal perspectiva está voltada para a dimensão imaterial do encontro de pessoas, para que possam deixar os seus casulos e “exercer a cidade” .



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