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Estado de Minas ENTREVISTA - TINO FREITAS - ESCRITOR

'Uma emoção angustiante'


postado em 11/10/2019 04:00 / atualizado em 11/10/2019 15:46

Como foi a inspiração para o livro?
Em dezembro de 2014, fui a uma escola no Rio Grande do Sul onde as crianças, após fazer trabalho sobre os meus livros, iriam me dar um presente. O aluno que vencera o concurso do desenho mais bonito iria entregá-lo. Quem ganhou foi uma menina de 8 ou 9 anos, que estava em destaque no palco. Ela me presenteou com uma camisa, eu a abracei, fiz comentário sobre o sorriso dela. Nesse momento, ela se afastou de mim e foi se esconder atrás da professora. Senti um mal-estar grande, porque ou a minha voz, ou a frase que eu disse, serviram de gatilho para trazer à mente dessa criança alguma coisa ruim. Fiquei com esse incômodo de querer escrever alguma coisa sobre dar a voz a quem sofre, de dar a liberdade da falar dentro do universo da violência. O que eu gostaria é que o leitor, seja de qual idade for, mas principalmente as crianças, que alcançassem no mínimo a percepção de que precisamos conversar sobre o que nos incomoda. E vai para o adulto, justamente o inverso: de que além de ser um livro em que você pode se sentir potente para ter voz, ele também é um livro para que a gente perceba que precisamos ouvir o outro.

Mesmo sendo a história de Leila a superação pelo apoio de amigos e pela liberdade da fala, é uma liberdade alcançada com grande sofrimento. A história tem um final feliz?
Bartolomeu (Campos de Queirós, escritor de Pará de Minas falecido em 2012) diz que a literatura é um verbo. Acontece na hora em que a sua vivência, o seu universo, encontra o que o outro escreveu. Tem um livro do Wander Piroli, O matador, que é a história de um menino que queria matar um passarinho. Ele consegue matá-lo, mas ao final diz: ‘Ele continua vivo piando dentro de mim’. Cada vez que eu leio aquilo, sou tomado de uma emoção angustiante. O final feliz de Leila é bem-vindo, você passa, sofre, tem carga emotiva forte, se liberta, mas a marca é indelével, você não apaga a violência que sofre. Acredito muito no poder do verbo da literatura, vai ser potente para você, vai ser mais potente para outro leitor, ou vai ser algo que vai passar com sutileza por outro leitor. Mas gostaria muito que a maioria dos leitores se percebesse com essa angústia, mesmo com o final feliz. Porque acho que essa semente, está ali plantada para dizer: se eu como leitor estou incomodado com o que vi no universo fictício, preciso olhar para o mundo real, para me abraçar com ele, para que ele fique menos agressivo. Uma literatura que reflete o cotidiano, fazendo com que pela fantasia a gente possa resolver um tanto.

Dentro do contexto da situação de abuso abordada na sua história, qual é a importância da educação sexual nas escolas?
Imprescindível que na escola a gente possa ter a abordagem adequada de certos temas para cada idade. Eles precisam ser ditos. A criança precisa vivenciar o medo, a literatura, saber que as famílias são plurais. Tem família de pai e pai, de mãe e mãe. Tem família que é só de avó, tem família que é homem e mulher. Isso tem de ser colocado na literatura, no cotidiano, pois é o mundo aí fora. E a escola é um ambiente seguro. Se não conseguimos conversar em ambientes mais seguros, uma hora a criança vai crescer e vai enfrentar o mundo lá fora com toda a insegurança de como vai lidar com isso. Então, acho que precisa ter educação sexual nas escolas, é preciso falar sobre assédio nas escolas, mas que isso seja conversado dentro da linguagem que a criança possa alcançar. Que ela não seja exposta a alguma coisa para a qual ela não esteja preparada. Por isso Leila aborda o tema por meio de metáforas. 
 


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