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João Guimarães Rosa: o vaqueiro


24/08/2021 04:00

Sebastião Alvino Colomarte
Da Academia de Letras João Guimarães Rosa de Cordisburgo e diretor-presidente do Centro de Integração Empresa-Escola de Minas Gerais (CIEE/MG) – cieemg@

Sabedor do desejo de seu primo, o fazendeiro Francisco Guimarães Moreira, mais conhecido como Chico Moreira, convidou João Guimarães Rosa a ver a saída de uma boiada de sua fazenda Sirga, às margens do Rio São Francisco, em Três Marias, até sua outra fazenda-sede, São Francisco, no município de Araçaí, pertinho de Cordisburgo. Guimarães Rosa não só aceitou o convite como disse que acompanharia todo o percurso.

A viagem, ou travessia como era chamada, ocorreu no mês de maio de 1952 e durou nove dias, percorrendo 40 léguas, cerca de 240 quilômetros. O desejo de Guimarães Rosa era vivenciar o sertão, conhecer os pormenores de como era a vida do caboclo, do sertanejo, ou seja, costumes, comportamentos, linguagem ou jeito de falar, sentimentos e sua alimentação.

Na manhã do dia de sua partida, a caravana iniciou a marcha sob chefia do boiadeiro Manuelzão, o capataz da fazenda. Era o homem experiente e de confiança de Chico Moreira. Aliás, Chico e seu filho Crioulo, de 17 anos, acompanharam a comitiva durante os primeiros três dias para observar o ânimo do primo para aguentar a viagem.

No passado, a condução de gado em comitiva era muito frequente, principalmente no Norte de Minas Gerais, nas regiões de Montes Claros, Janaúba e Pedra Azul. Os fazendeiros gostavam de comprar gado nessas regiões porque tinham animais muito bons e sadios. As distâncias chegavam a 40 léguas, cerca de 360 quilômetros de suas sedes. Para trazer o gado, contavam com bons capatazes e vaqueiros de confiança.     
                                   
Eram rebanhos de 300/400 animais já erados, com dois ou três anos de idade, que, quando chegavam às fazendas, eram engordados e vendidos a bom preço.  Durante a viagem, ocorria de um animal se perder e outras vezes adoeciam e morriam. Por isso, muitas vezes peões e vaqueiros recebiam prêmios pelo número de cabeças que chegavam ao seu destino.

Cordisburgo já foi cenário da passagem de muitas comitivas tangendo o gado. Na Praça Miguelim, que fica em frente à igrejinha do patriarca São José (hoje, infelizmente, abandonada e se deteriorando), existe o portal Grande Sertão, que retrata muito bem as figuras de cavaleiros, com estátuas esculpidas em bronze em tamanho natural que incluem a figura do grande escritor e filho da terra João Guimarães Rosa.

Nos dias atuais já não existem essas longas viagens em estradas de terra para conduzir gado a cavalo, só pequenos deslocamentos locais de uma fazenda próxima a outra. Os boiadeiros do passado foram substituídos pelos caminhões boiadeiros nas longas distâncias e os marginais de hoje utilizam caminhões e carretas para roubar o gado nas fazendas.

Segundo relatos, a experiência para João Guimarães Rosa foi muito boa. O escritor se transformou em vaqueiro velho para acompanhar a comitiva e não só cumpriu todo o trajeto como vivenciou, como era seu desejo, a vida do sertanejo. Foi assim que acumulou vasto material para sua grande obra da literatura brasileira, “Grande Sertão: Veredas”. Ele captou, como ninguém, a vida do sertanejo, criando diversos tipos de personagens com foco no homem do campo.
 


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