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Estado de Minas EDITORIAL

A onça e a desigualdade

Pesquisa do Insper informa que mulheres ocupam a presidência de 18% das empresas nacionais


postado em 08/10/2019 04:00 / atualizado em 07/10/2019 19:10

Conta a fábula que os moradores da floresta decidiram organizar uma partida de futebol em que a bicharada teria rara oportunidade de se confraternizar. Convocados, mamíferos, répteis e aves se apresentaram. Uma das primeiras a chegar foi dona Onça. O rei Leão, ao bater os olhos na criatura forte e determinada, não pensou duas vezes. Elegeu-a capitã do time. Ouviram-se murmúrios aqui e ali. Passado algum tempo, o Macaco pediu licença e, com voz firme, deu o recado do grupo: "Dona Onça é mulher. Como jogadora é bem-vinda, mas não pode ser capitã".

A história é lembrada a propósito da entrevista de Tabata Amaral. Filha de uma diarista e um cobrador de ônibus, a deputada trilhou caminho quase sempre proibido para a população pobre num país injusto como o Brasil. Nos estudos, chegou a Harvard. Voltou, disputou mandato pelo PDT e se tornou a deputada federal mais jovem de São Paulo. Aos 25 anos, sobressai pela competência e o compromisso. Mas o êxito na carreira e nas urnas não a livra de mazelas constrangedoras.

Uma delas: a desigualdade. Não se trata da desigualdade social que, segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), aumenta pelo 17º trimestre seguido – o maior período de alta ininterrupta na concentração de renda do país. Em português claro: os ricos ficaram mais ricos; os pobres, mais pobres. A longa crise na qual o país se debate há meia década eliminou postos de trabalho e inibiu a abertura de outros. O resultado mais trágico são os 12 milhões de desempregados.

Trata-se, no caso de Tabata, da desigualdade de gênero. Exemplos não faltam na entrevista. Ao se dispor a relatar um projeto, colega disse que ela não era capaz de fazê-lo. Não levou em conta a formação acadêmica nem o histórico da parlamentar. O veredito baseou-se no gênero. As desrespeitosas interrupções nos pronunciamentos são reprises da narrativa coberta pela poeira do tempo. Pia- dinhas, mensagens pornográficas e críticas alheias ao exercício do mandato fazem parte do mesmo enredo.

Tal comportamento, vale lembrar, não constitui exclusividade de membros do Congresso. Está presente em diferentes ambientes profissionais. Nas empresas, por exemplo, mulheres exercem variados cargos. Alguns de alta responsabilidade. Mas poucas chegam ao comando. Pesquisa do Insper informa que mulheres ocupam a presidência de 18% das empresas nacionais. Levantamento recente mostra que nenhuma das 63 companhias que compõem o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, é presidida por alguém do sexo feminino. Até há pouco havia duas exceções – Graça Foster, na Petrobras, e Dilma Pena, na Sabesp. Ambas deixaram os postos em meio à crise.

Na fábula, o rei Leão, depois de ouvir atentamente as partes, bateu o martelo: "Dona Onça é forte, competente e joga bem. Preenche as condições da posição. Será capitã". Passou da hora de as capitãs que povoam este imenso país se alçarem aos postos de comando. Competência não lhes falta. 


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