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Estado de Minas MINISTÉRIO DA SAÚDE

Cloroquina: o protocolo que politizou o combate ao coronavírus

Uso do medicamento, que não tem eficácia comprovada cientificamente no tratamento de pacientes com COVID-19, se transformou em questão política


postado em 21/05/2020 04:00 / atualizado em 21/05/2020 14:08

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Em meio ao momento mais duro da pandemia do novo coronavírus no Brasil até aqui, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) decidiu reforçar no SUS a aposta em medicamentos cuja eficácia contra a COVID-19 não foi comprovada cientificamente. Pressionado pelo chefe do Executivo nacional, o Ministério da Saúde, em documento sem assinatura de nenhum médico, liberou o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina por pacientes com sintomas leves da doença. A decisão gerou críticas de pesquisadores e profissionais de saúde, que apontaram a falta de estudos robustos que deem sustentação ao protocolo do governo federal.

O viés político que paira sobre os debates a respeito das substâncias também foi questionado. Desde que o vírus chegou ao país, Bolsonaro tem defendido de forma ferrenha o uso indiscriminado dos medicamentos. Contrários à posição do presidente, os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich viram a cloroquina e a hidroxicloroquina se tornarem ‘pivôs’ de suas saídas do Ministério da Saúde. O comando da pasta, então, ficou interinamente a cargo do general Eduardo Pazuello, sem formação na medicina.


"Droga para ser usada na população não pode ser droga que simplesmente as pessoas acham que funciona. Não é assim. Temos que ter evidência científica. E evidência se chama pesquisa clínica. Com todo rigor: pesquisas randomizadas, duplos cegos, sem interferência nenhuma do pesquisador, análise externa"

Carlos Starling, infectologista e membro do comitê de combate ao coronavírus da PBH


“O debate sobre a cloroquina teve um grande prejuízo, porque ele ficou politizado. Então, ele está saindo da ciência e está indo para o lado político. Isso é terrível, porque a cloroquina tem que ser estudada dentro da ciência, e não politizada, que é o que está sendo feito, infelizmente, principalmente pelo nosso presidente. Há uma polarização que não se baseia em fatos científicos, mas sim nas opiniões políticas dos cidadãos. Na minha visão, é muito importante você seguir a ciência. A ciência ainda está muito aberta em relação à cloroquina”, disse o presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Estevão Urbano.

Debate científico

As primeiras pesquisas sobre cloroquina e hidroxicloroquina (um derivado menos tóxico da droga) datam dos anos 1930 e 1940. Ao longo das décadas seguintes, as substâncias passaram a ser utilizadas no tratamento de doenças como malária, lúpus e artrite. Depois dos primeiros registros do novo coronavírus na China, pesquisadores testaram os medicamentos em dezenas de estudos científicos.

As investigações iniciais no país asiático, feitas in vitro (em laboratório, com culturas de células), surgiram como uma esperança. Tempos depois, um estudo da Universidade de Medicina de Marselha, na França, anunciou resultados positivos do tratamento que associa a hidroxicloroquina com o antibiótico azitromicina. A pesquisa francesa, porém, foi desacreditada pela comunidade científica internacional, que apontou problemas metodológicos, como o pequeno número de pacientes (apenas 36), a comparação pouco rigorosa entre os doentes e a maneira de análise dos resultados.


"É um verdadeiro absurdo o governo fazer isso, principalmente por se tratar de uma medicação que boa parte de nós, médicos, não temos experiência de prescrição (...) Não é uma medicação de uso corriqueiro. Alguns pacientes, principalmente os que tratam uma doença chamada lúpus, usam. Só que normalmente é receitado pelo médico especialista, que é o reumatologista"

Odara Caires, médica de Petrolina (PE)


Tempos depois, novas pesquisas com maior quantidade de pacientes mostraram que os medicamentos não apresentam vantagens e, pelo contrário, podem até acarretar piora no quadro. O principal efeito colateral das drogas é a arritmia cardíaca. Em estudo publicado no Journal of the American Medical Association (Jama), dos EUA, pesquisadores não identificaram redução de mortalidade por COVID-19 em pessoas que usaram hidroxicloroquina. Pesquisa publicada no The New England Journal of Medicine examinou 1.376 pacientes e chegou a conclusão semelhante, sem identificar benefícios.

Diante das incertezas sobre os medicamentos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) não reconhece nenhum tratamento como eficaz. A decisão do Ministério da Saúde de liberar o uso do medicamentos - em associação à azitromicina - causou repercussão negativa na comunidade científica.

“Se nós incorporarmos uma droga simplesmente no desespero, corremos o risco de provocar mais dano do que benefício. Além de tudo, deseduca a população e coloca em xeque tudo o que já temos. Não se pode colocar drogas em uso sem ser droga que tenha passado por todo o escrutínio e por todo o rigor de uma pesquisa clínica bem planejada e bem conduzida”, pontua o infectologista Carlos Starling.


"O que estamos propondo, vários hospitais, pesquisadores e universidades - inclusive a nossa da UFMG, do HC -, propondo ensaios clínicos para responder a essa lacuna na ciência. Melhora? É bom? Quando deve usar? Qual a dose que se deve usar? A partir desses ensaios clínicos, desses estudos clínicos feitos pela ciência, de forma bem rigorosa, é que a gente pode responder a essas perguntas. É bom ou não é? Quem vai usar? Quando? Como? Infelizmente, esse debate é patético"

Unaí Tupinambás, infectologista e professor da UFMG

O documento

No protocolo divulgado ontem, o Ministério da Saúde lista os sintomas para os diferentes níveis de gravidade da doença (leve, moderado e grave). A pasta ainda sinaliza a dosagem recomendada para cada tipo de paciente ao longo de todo o tratamento, que é baseado na associação da hidroxicloroquina ou da cloroquina com a azitromicina.

Antes de começar a ingerir as substâncias, o paciente precisa assinar um termo de “ciência e consentimento” sugerido pelo ministério. No documento, o governo federal lista os riscos do tratamento. “Estou ciente de que o tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina associada à azitromicina pode causar os efeitos colaterais descritos acima e outros menos graves ou menos frequentes, os quais podem levar à disfunção de órgãos, ao prolongamento da internação, à incapacidade temporária ou permanente e até ao óbito”, diz o documento.

O próprio presidente Jair Bolsonaro, nas redes sociais, frisou que “não existe comprovação científica” para o tratamento. “Contudo, estamos em guerra: pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado”, publicou.

Na linha de frente

No dia a dia de atendimento, profissionais de saúde buscam respaldo científico para decidir os rumos do tratamento. Professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e médica do Hospital das Clínicas local, Nicole Geovana se disse contrária ao uso das substâncias, já que ainda não há comprovação científica. Ela alertou para a possibilidade, inclusive, de piora no quadro do paciente.


"Embora não esteja nada certo e tudo seja apenas hipóteses e intuições, uma opinião pessoal é que eu acho que se a cloroquina tiver que fazer algum efeito seria realmente na fase precoce, em pessoas do grupo de risco, para tentar evitar que elas evoluam para formas graves. Já quando chega esse paciente com a forma grave, eu já vejo com mais ceticismo (...) E repito: a cloroquina não pode ser nem aclamada como um milagre e nem demonizada"

Estêvão Urbano, presidente da Sociedade Mineira de Infectologia


“Na medicina de família, que é a minha especialidade, a gente tem uma outra atitude, que a gente chama de prevenção. São quatro tipos de prevenção em saúde: a primária, a secundária, a terciária e a quaternária. A quaternária é sobre não fazer mal ao paciente. Antes de tudo, não fazer mal. Neste momento, o uso da hidroxicloroquina é algo que vai contra esse princípio. Ou seja, não só não estamos ofertando uma terapêutica que vai ajudar o paciente, como a gente está ofertando algo que vai ser bem prejudicial para ele”, disse.

O posicionamento foi reforçado por Lêda Mendes, médica no Centro de Saúde Novo Aarão Reis, em Belo Horizonte. Na linha de frente do combate ao vírus, ela mostrou contrariedade à prescrição das substâncias a pacientes em fase inicial de tratamento. “Eu, assim como meus outros colegas, não comungamos desse protocolo. Em geral, recomendamos medicação para febre e dor, soro fisiológico, hidratação oral frequente e alimentação saudável. E fazemos observação. Em caso de piora, que retornem imediatamente à unidade. Para aqueles que porventura pedirem opinião e pedirem que seja prescrito, nossa função é orientar que não existem benefícios comprovados”, disse.

Em outros estados do Brasil, a discussão também está no dia a dia dos profissionais de saúde que trabalham na linha de frente do combate ao vírus. Médica em Petrolina, Pernambuco, Odara Caires critica o protocolo do Ministério da Saúde. “Vai totalmente contra ao que é recomendado hoje pelos principais órgãos tanto internacionais, quanto nacionais. Não existe um tratamento específico para o coronavírus. Todo tratamento que a gente faz é o de suporte. Eu nunca prescrevi. Não é uma medicação de uso corriqueiro”, pontua.

 

"Não prescrevi, mas não duvido que eventualmente, numa situação de maior gravidade, não prescreveria. Te digo isso com base numa questão simples: vários colegas médicos muito conhecidos, referências em suas especialidades no país, internados em São Paulo, fizeram uso. Foram tratados com hidroxicloroquina (...) É estratificar o risco do paciente. Se você tem um paciente cardiopata, essa é uma situação em que certamente contraindicaria o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina. Existem formas de você avaliar adequadamente os pacientes de maior, menor e risco proibitivo para o uso dessa e quaisquer outras drogas"

Vitor Mendes de Sá, médico do Hospital João XXIII

 

Cada caso é um caso

Por outro lado, também há aqueles que defendem que a medicação pode ser prescrevida a depender do cenário. “Não prescrevi, mas não duvido que eventualmente, numa situação de maior gravidade, não prescreveria”, disse Vitor Mendes de Sá, médico do Hospital João XXIII, de Belo Horizonte. Questionado sobre os efeitos colaterais, ele afirma que o profissional deve avaliar os riscos e não indicar as substâncias em casos com complicações potencialmente maiores. “É estratificar o risco do paciente. Se você tem um paciente cardiopata, essa é uma situação em que certamente contraindicaria o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina. Existem formas de você avaliar adequadamente os pacientes de maior, menor e risco proibitivo para o uso dessa e qualquer outras drogas”, conclui.

 

Medicamentos com base na cloroquina e hidroxicloroquina

  • Indicação: indicados em caso de reumatismo, problemas de pele, artrite reumatoide, lúpus e malária

  • Efeitos colaterais: distúrbios de visão, irritação gastrointestinal, alterações cardiovasculares e neurológicas, cefaleia, fadiga, nervosismo. Quem tem psoríase ou porfiria pode ter ataque agudo da doença, prurido, queda de cabelo e exantema cutâneo

  • Contraindicações: retinopatias preexistentes, alérgicos a cloroquina, diagnóstico de porfiria, miastenia gravis ou arritmia, pacientes em uso de digoxina, amiodarona, verapamil ou metoprolol, hipersensibilidade conhecida aos derivados da aminoquinolina; menos de seis anos de idade

  • Preço: a partir de R$ 50

  • Comercialização: venda permitida somente com prescrição médica


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