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Estado de Minas

Ele chegou 2018 anos atrasado', diz Jesus 'salvo' em peça no RS

No momento em que o soldado romano trespassava a lança no coração de Jesus para se certificar de sua morte, um homem surgiu da plateia e agrediu o ator com um capacete


postado em 04/04/2018 16:58

Com trajes de soldado romano, o ator Samir Rodrigues, de 23 anos levou uma pancada na nuca e a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi que havia acontecido um acidente na Paixão de Cristo de Nova Hartz, no Rio Grande do Sul. "Bá, um dos guris caiu da cruz", pensou consigo mesmo, achando que tinha servido de almofada para um dos ladrões crucificados ao lado de Jesus no palco.

Instantes depois, o ator viu que errou o palpite. Um sujeito acabara de saltar da plateia e invadir o proscênio para tentar salvar o Salvador. "Não matem Jesus", teria gritado antes de entrar em ação. "Olhei para o lado e tinha um cara com um capacete de moto na mão", contou Rodrigues, que foi agredido pelas costas, para espanto dos cerca de 3 mil presentes na Praça do Trabalhador, onde o espetáculo foi apresentado na Sexta da Paixão, 30.

O público que filmava a cena da crucificação de Cristo, clímax da peça, acabou gravando tudo e as imagens viralizaram nas redes com mais de 600 mil visualizações - número 30 vezes maior do que a população de Nova Hartz, com cerca de 20 mil habitantes. No vídeo, dá para ver que Rodrigues seguiu normalmente o script, isso até o outro rapaz tentar mudar o roteiro da História.

A voz de Jesus, dependurado na cruz, sai de um alto-falante: "Pai, em Tuas mãos entrego meu espírito". Em meio à fumaça de gelo seco e uma trilha sonora de tensão, o soldado romano caminha até lá e crava uma lança no lado direito do peito de Cristo.

É aí que, de repente, um dos espectadores, mesmo de calça e com uma das mãos ocupadas, salta mais de um metro para cima do palco principal - ao todo, foram montados oito para a peça. Ligeiro, ele desfere um golpe com o capacete e dá um chute em Rodrigues. Entre os presentes, há quem diga que o agressor, que tem o nome mantido em segredo apesar de ser conhecido na cidade, estava "transtornado". Já outros argumentam que tem "problema mental" ou ainda que está passando por um "momento difícil".

O homem foi contido por atores, contrarregras e organizadores do evento e logo retirado de cena. O público ajudou a mantê-lo isolado até a chegada da Brigada Militar, a PM gaúcha. Passado o "transtorno", o espetáculo continuou; a plateia conseguiu ver Jesus ressuscitar e aplaudiu de pé no fim.

Atrasado


Estreando no papel de Jesus, o ator e ex-seminarista Fernando Pires, de 19 anos, contou que não viu nenhuma parte da confusão porque estava de olhos fechados, concentrado em ser crucificado. "Ele chegou 2018 anos e três minutos atrasado para salvar Jesus, porque até na peça eu já tinha dado o suspiro final", disse.

Segundo conta, ele achou que o tumulto fazia parte da encenação. "No momento que o guarda encosta a lança, têm uns trovões e o pessoal que fica atrás da cruz faz barulho", disse Pires, que em edições anteriores interpretou o anjo Gabriel e um ancião do Templo. "Só percebi que tinha algo errado quando os narradores disseram que a peça iria continuar."

"A gente conseguiu se manter calmo e a energia que o público passou deu força para seguir", afirmou. "Mas, sinceramente, na hora pensei que eu sou um ótimo ator. Interpretei Jesus tão bem que o cara achou que era de verdade."

Encenada há cinco anos, a Paixão de Cristo de Nova Hartz é feita pelo Planeta Jovem, grupo teatral que reúne atores voluntários da comunidade, muitos deles sem experiência em artes cênicas. Para se manter, o grupo recebe doações, até de materiais - o capacete usado por Rodrigues, por exemplo, tinha sido dado por um amigo. O ator acredita que adereço amorteceu o impacto. "Não tive ferimentos graves", disse. "Só a cabeça que ficou doendo por uns dois dias."

O diretor do espetáculo Adriano Ferreira, de 40 anos, lamentou o ocorrido, mas ponderou que, pelo menos, o episódio serviu para dar publicidade ao grupo. "Eu não queria que fosse dessa forma, mas a gente fica 'feliz' porque a cidade ficou conhecida", disse. "Era um momento bem forte, a plateia estava muito emocionada, a adrenalina estava alta: o rapaz surtou, não soube separar ficção de realidade."

A vítima preferiu não registrar boletim de ocorrência. "Ele é irmão de um grande amigo meu", disse Rodrigues sobre o homem que invadiu a Paixão de Cristo. "Perdoei na mesma hora que aconteceu. A gente estava passando uma mensagem de amor na peça, então não ia fazer diferente." A reportagem não conseguiu localizar o agressor.

fonte: Estadão Conteudo

 

 

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